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Davos testa discurso 'antiglobalista' de Bolsonaro

Para fundador do Fórum Econômico Mundial, se Bolsonaro não acreditasse na globalização, não estaria indo para Davos; organizadores alertam que reunificar País será seu maior desafio

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2019 | 18h08

GENEBRA - Meca da globalização, Davos testa o tom antiglobalista atribuído ao governo de Jair Bolsonaro. A partir da semana que vem, o Fórum Econômico Mundial recebe a elite das finanças do planeta, 70 governos, líderes de diversos setores e será o palco da estreia internacional do novo presidente.

Davos também será a estreia internacional de Bolsonaro. A delegação brasileira viaja dia 21 e ainda é composta pelo filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, pelo chanceler Ernesto Araujo, pelo ministro da Fazenda, Paulo Guedes, e pelo ministro da Justiça, Sergio Moro.

“Ele (Bolsonaro) será muito bem vindo para comunidade global”, disse Klaus Schwab, fundador do Fórum. “Claro, a comunidade global está muito curiosa para ouvi-lo”, afirmou. Questionado se ele não teria valores contrários ao de Davos, o executivo minimizou. “Veremos. O que significa ser antiglobal? Ele também tem de trabalhar num cenário global. Caso contrário, não viria para Davos”, apontou.

Desde que o governo assumiu, medidas foram adotadas no Brasil que destoaram da tradição diplomática do País. O Brasil deixou o acordo de migração da ONU, questiona a existência de mudanças climáticas e passou a criar uma secretaria de Soberania no Itamaraty, enquanto o chanceler Ernesto Araujo prolifera textos em que aponta para um alinhamento com os EUA e tece críticas ao globalismo. 

O ministro, em seu discurso de posse, definiu o termo como “o ódio, através das suas várias ramificações ideológicas e seus instrumentos contrários à nação, contrários à natureza humana, e contrários ao próprio nascimento humano”. 

Schwab, em seu discurso nesta terça-feira para apresentar a edição de 2019 de Davos, também criticou o globalismo. Mas o definiu de uma forma diferente daquela feita pelo governo Bolsonaro. “Temos que diferenciar entre globalização e globalismo”, disse. “A globalização vai continuar, ja o globalismo é apenas uma ideologia que tudo o que fazemos deve se submeter às leis do mercado. Nunca acreditamos nisso e eu, no passado, já alertei que isso não era sustentável”, declarou. 

No fundo, o que Schwab deseja que Davos se transforme é justamente na antítese defendida por alguns setores do governo brasileiro: cooperativo, mutilateral, com atores privados e sociedade civil e plural.  

O Fórum, porém, sabe que esse modelo está sob ataque e que eleições recentes tem colocado no poder líderes que questionam essa onda. “Temos de definir uma novo globalização, mais inclusiva”, defendeu Schwab. “Ela gera perdedores e ganhadores. Tivemos, de uma forma geral, mais ganhadores que perdedores. Mas agora temos de ir atras daqueles que perderam. Ela precisa ser mais sustentável, num mundo de maior colaboração e mais inclusivo”, insistiu.

Schwab também apontou para uma direção diferente do tom da nova diplomacia brasileira. “Estamos indo de um mundo unipolar para multipolar”, insistiu. “Precisamos entender o outro num mundo em que não compartilhamos valores, mas compartilhamos interesses”, disse. 

Com 3,2 mil participantes e 70 chefes de estado, Davos tem um objetivo ambicioso: moldar a agenda futura da globalização. “Esse é o evento mais completo do mundo”, defendeu o executivo, fazendo questão de reforçar a ideia de interdependência e multilateralismo. 

Entre os temas do ano em Davos estará o combate às mudanças climáticas, a busca de soluções comuns, imigração e mesmo na criação de uma solução para o “déficit de líderes” no mundo.

Desafio

Bolsonaro, segundo Davos, tem um desafio imediato: unificar o Brasil, depois de um processo eleitoral tenso. Respondendo a uma pergunta do Estado, o presidente do evento, Borge Brende, deixou claro que o desafio maior do novo governo é, acima de tudo, político. Davos, portanto, vai querer saber como Bolsonaro fará para superar as divisões no País. 

“Estamos esperando para sua primeira aparição num plano global”, disse Brende, que já foi ministro de Relações Exteriores da Noruega. “Ele deve construir pontes entre as diferentes forças políticas, unificar o País”, insistiu o executivo durante a apresentação oficial do programa do evento, em Genebra. 

Segundo o presidente do encontro, Bolsonaro apresentou um programa “ambicioso” de combate à corrupção e espera que sua equipe econômica possa dar “detalhes” do que ocorrerá no País em 2019 aos principais executivos do mundo. “As empresas vão querer saber mais detalhes”, explicou.

Ao presidente Bolsonaro, Davos reservou um palco exclusivo para que o brasileiros faça sua alocução, provavelmente na terça-feira. Mas, por incertezas no programa diante da ausência de Donald Trump e outros líderes, o evento com Bolsonaro ainda não aparece na agenda oficial de Davos. Os organizadores, porém, insistem que o presidente brasileiro terá seu espaço. 

O presidente ainda participará de um jantar organizado pelo Fórum, mas fora do centro de conferências. Ali, vai debater o “futuro da América Latina” em termos de revolução tecnológica com o CEO da Microsoft, com o presidente da Costa Rica, Carlos Alvarado Quesada, Ivan Duque, da Colômbia, Lenin Moreno, do Equador, e o peruano Martin Alberto Vizcarra. “Como a América Latina pode abraçar as oportunidades da tecnologia”, questiona o Fórum, como tema central do encontro. 

Bolsonaro, porém, ficará de fora de um debate organizado na sala principal de Davos entre os presidentes do Paraguai, Costa Rica, Colômbia, Equador e Peru. Sob o título de “um novo dia na América Latina”, o encontro aponta que, em 2018, “mais de 400 milhões de latino-americanos escolheram seus novos líderes em oito países nas urnas”. “Quais oportunidades e riscos estão adiante, enquanto um novo capítulo se abre na região?” questionam os organizadores.

Quem não tem agenda por enquanto é o chanceler Ernesto Araujo, que vem promovendo um discurso de críticas à globalização.

Davos ainda espera poder organizar um debate sobre o futuro da Venezuela e buscar formas de superar o impasse no governo de Nicolas Maduro. A ideia é de que o encontro ocorra com presidentes da região. Mas, por enquanto, não há uma definição sobre quem fará parte da mesa. Uma das novidades em 2019 é a presença do Ministério das Relações Exteriores de Cuba, governo hostil à ideia de capitalismo defendido em Davos.

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