Susan Walsh/AP
Susan Walsh/AP

De 4% para 45%: Biden estabelece plano ambicioso para energia solar

Presidente dos Estados Unidos anunciou plano para que 45% da eletricidade produzida no País seja solar até 2050; segundo especialistas, maior uso de fontes de energia renováveis é necessário para zerar emissões até o meio do século

Ivan Penn, The New York Times

09 de setembro de 2021 | 15h00

Na quarta-feira, o governo Biden divulgou um plano para que quase metade da eletricidade produzida nos Estados Unidos seja solar até 2050, como parte do esforço do país para combater as mudanças climáticas

A energia solar forneceu menos de 4% da eletricidade do país no ano passado e a meta do governo de 45% representaria um enorme avanço, além de provavelmente levar a uma reformulação fundamental do setor de energia. Em um novo relatório, o Departamento de Energia disse que o país precisava dobrar a quantidade de instalações de painéis solares a cada ano nos próximos quatro anos em comparação ao ano anterior. E, depois, será preciso dobrar as instalações anuais outra vez até 2030. 

No entanto, instalar tantos painéis solares em telhados e áreas abertas não será uma tarefa fácil. Em fevereiro, uma divisão do Departamento de Energia calculou que a parcela de eletricidade produzida por todas as fontes renováveis, entre elas solar, eólica e hídrica, chegaria a 42% até 2050 com base nas tendências e políticas atuais.

O novo plano do departamento está alinhado com o que a maioria dos cientistas do clima diz ser necessário. Esses especialistas afirmam que reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa para zero até 2050 é essencial para limitar os piores efeitos do aquecimento global – e um uso maior de fontes de energia renováveis como painéis solares e turbinas eólicas será necessário para alcançar esse objetivo. 

Mas os funcionários do governo apresentaram apenas um esboço geral de como esperam chegar lá. No final das contas, muitos dos detalhes serão decididos por legisladores no Congresso, que está trabalhando em um projeto de infraestrutura bipartidário e uma proposta democrata muito maior que poderia autorizar US$ 3,5 trilhões em gastos federais.

Uma vantagem para o governo é que o custo dos painéis solares caiu consideravelmente na última década, tornando-os a fonte de energia mais barata em muitas partes do país. O uso de energia solar e eólica também cresceu muito mais rápido nos últimos anos do que a maioria dos analistas governamentais e independentes haviam previsto.

“Uma das coisas que esperamos que as pessoas percebam e aprendam com este relatório é que é acessível descarbonizar a rede [elétrica]”, disse Becca Jones-Albertus, diretora do Escritório de Tecnologia de Energia Solar do Departamento de Energia. “A rede permanecerá confiável. Só precisamos construir. ”

O governo está argumentando que os EUA precisam agir rapidamente porque não fazer nada para reduzir a dependência do país de combustíveis fósseis também tem custos significativos, especialmente devido à ligação entre condições meteorológicas extremas e mudanças climáticas. Em uma visita na terça-feira para inspecionar os danos provocados pelas chuvas intensas causadas pelo furacão Ida em Nova Jersey e Nova York, o presidente Joe Biden disse: “A nação e o mundo estão em perigo”.

Alguns desastres naturais recentes foram agravados por fragilidades no sistema de energia. O furacão Ida, por exemplo, causou um grande prejuízo na rede elétrica da Louisiana, onde centenas de milhares de pessoas estão sem energia há dias. No inverno passado, uma tempestade também deixou grande parte do Texas sem eletricidade durante dias. E na Califórnia, equipamentos da empresa que fornece energia na região provocaram vários grandes incêndios florestais, matando muitas pessoas e destruindo milhares de casas e empresas.

Apesar disso, muitos analistas e até mesmo alguns do setor de energia solar estão céticos de que o governo consiga atingir seus objetivos eco sustentáveis. Além da meta de 45% de energia solar, Biden disse que quer reduzir a zero as emissões líquidas de gases de efeito estufa do setor de energia até 2035. Ele também quer adicionar centenas de turbinas eólicas em alto mar, atualmente há sete nas águas da costa do país e que até metade de todos os carros novos vendidos sejam elétricos até 2030.

Embora a energia renovável tenha crescido rápido, ela contribui com cerca de 20% da eletricidade do país. O gás natural e o carvão são responsáveis por cerca de 60%.

“Esse tipo de aceleração rápida de implantação só vai acontecer por meio de decisões políticas inteligentes”, disse Abigail Ross Hopper, presidente da Associação das Indústrias de Energia Solar (SEIA, na sigla em inglês). “Essa é a parte em que ter uma meta é importante, mas ter etapas claras sobre como chegar lá é a questão.”

Desafios como disputas comerciais também poderiam complicar o esforço de Biden por mais energia solar. A China domina a cadeia de suprimentos global de painéis solares e o governo americano recentemente começou a proibir as importações ligadas à região chinesa de Xinjiang devido a preocupações com o uso de trabalho escravo. Embora muitas empresas de energia solar digam que estão trabalhando para deixar de usar os materiais produzidos em Xinjiang, especialistas em energia afirmam que a proibição de importação poderia diminuir a velocidade da construção de projetos de energia solar em todo o país no curto prazo.

Biden quer usar créditos fiscais para encorajar o uso de sistemas de energia solar e baterias em residências, empresas privadas e de serviços públicos. O governo também quer que os governos locais agilizem a obtenção de licenças e a construção de novos projetos de energia solar - em alguns lugares pode levar meses para instalar painéis solares na casa de uma única família, por exemplo. E as autoridades querem oferecer vários incentivos às empresas de serviços públicos para encorajar o uso de energia solar.

Jennifer Granholm, secretária de energia dos EUA, disse que parte da estratégia do governo se concentraria em seu Programa de Pagamento de Eletricidade Limpa, que recompensaria as empresas de serviço público por adicionar mais energia renovável à rede elétrica, incluindo a solar no telhado. Muitas dessas empresas têm lutado contra os painéis solares no topo de seus prédios porque veem nisso uma ameaça aos seus negócios e preferem construir grandes fazendas de energia solar que possuem e controlam.

“Ambos os casos têm que ser possíveis e as empresas de serviço público serão incentivadas a repensar sua hesitação quanto ao uso de painéis em seus telhados”, disse Jennifer. “Temos que fazer uma série de coisas.”

Além de seus esforços, o governo chamou a atenção para as mudanças sendo realizadas por autoridades estaduais e locais. Na Califórnia, por exemplo, as autoridades regulamentadoras estão mudando o código de obras e edificações do estado para exigir o uso de energia solar e baterias em novas construções. 

Outra grande área de foco do governo americano é a maior utilização de baterias para armazenar a energia gerada por painéis solares e turbinas eólicas para uso à noite ou quando não houver vento. O custo das baterias tem caído, mas continua alto demais para uma súbita mudança para energias renováveis e carros elétricos, de acordo com muitos analistas.

Para alguns daqueles que trabalham na indústria de energia solar, a nova meta ajudará a focar a atenção das pessoas no futuro.

“No fundo, o Departamento de Energia está dizendo que os EUA precisam de uma grande quantidade de energia solar, e não uma pequena, e precisamos disso o quanto antes, não podemos deixar para depois”, disse Bernadette Del Chiaro, diretora executiva da California Solar and Storage Association, que representa as empresas que fornecem instalações de energia solar na Califórnia, de longe o estado com o maior número de instalações para energia solar. “Esse simples apelo de tomada de medidas deve orientar todas as decisões de formulação de políticas, desde Câmaras Municipais a Casas Legislativas e agências reguladoras em todo o país.” /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.