De cabeça para baixo

Nós, habitantes humanos cá deste planeta Terra, temos um problema coletivo

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2016 | 05h00

A saída do Reino Unido da União Europeia é um grande problema. Donald Trump, um populista demagogo observado com controlado pânico pelo Partido Republicano, é também um problema. Se eleito, um imenso problema. Como são um problema os taxistas furiosos com o Uber. Ou jornalistas demitidos de redações no Brasil, nos EUA e por toda a Europa. Músicos que perderam a estrutura que os sustentava e se lançaram num universo inseguro. Nós, habitantes cá deste planeta Terra, temos um problema coletivo. Dê mais algumas décadas, três ou quatro, e o problema se resolverá por conta própria. Até lá, muita gente vai sofrer.

Não precisa ser assim. O problema é a revolução digital que se iniciou na década de 1950, ganhou forma na virada para os anos 70, estabeleceu-se nos 80 e assumiu controle quando faltavam poucos anos para o século XXI. É uma revolução tecnológica que virou de cabeça para baixo a economia.

Revoluções assim geram muita insegurança. Nos anos 80, empregos industriais garantiam vidas confortáveis a uma imensa parcela da classe média baixa americana. Rápidos avanços e massificação das tecnologias de transporte e comunicação mudaram isso a partir da década seguinte. Permitiram que, de forma muito barata, a produção fosse transferida para além das fronteiras. É barato importar e é fácil acompanhar, via internet, a fabricação. A globalização barateou o acesso a produtos, mas tornou precária a vida de muita gente.

É muito fácil enxergar essa turma como racista, gente contra imigrantes. Seu discurso é esse. Não faltarão políticos de direita apontando nessa direção. Assim como não faltarão políticos de esquerda sugerindo que a culpa é do capitalismo. Da mesma forma, é fácil antipatizar com taxistas. Em algumas cidades brasileiras, o serviço é de má qualidade. Em alguns casos, abertamente desonesto. Para o consumidor, o Uber melhora muito a vida. É uma inovação bem-vinda. Mas e a vida deles?

Não é a primeira vez que uma revolução assim ocorreu. Na Renascença, com revoluções simultâneas também na tecnologia de transportes e comunicação, o mundo virou de cabeça para baixo igualzinho e não tinha capitalismo para culpar. (Gente com cor, crenças e comportamento diferente sempre teve.) A última vez em que ocorreu algo do tipo foi na Revolução industrial. Havia trem e telégrafo e máquinas a vapor por todo lado. Nenhum governo se preocupou com a precarização do trabalho, com crianças em 14 horas de labuta diária.

O resultado foram comunismo e fascismo. Os dois extremos autoritários que propunham soluções mágicas para quem estava desamparado. Os extremos nos rondam novamente. E vão emergir, a não ser que os políticos no poder percebam o problema pelo que ele é. Nos próximos dez anos, inúmeras pessoas – de motoristas e caixas de loja a técnicos de contabilidade – vão assistir o início da morte de suas profissões. Nos próximos vinte anos, grandes indústrias como a do petróleo assistirão ao mesmo. Médicos terão de se reinventar. Não para aí.

Governos existem para encarar este tipo de problema de frente. Compreender, planejar, agir. Não será fácil. Mudanças climáticas afetarão a economia mundial ao mesmo tempo. E, em tempos de crise, demagogia é uma baita tentação – para governantes e governados. Nenhum governo encarou a questão da transformação da economia até hoje. Porque não o fizeram, já começamos a ver os sinais de estafa política na população. O nome dessa estafa é Brexit. 

Por enquanto é só isso.

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