Felipe Rau/Estadão
Quando passou a vender online, Raphael Chiarelli ampliou sua lista de produtos geriátricos para 35, vendidos para todo o Brasil. Felipe Rau/Estadão

De comércio de vizinhança a varejista nacional durante a pandemia

Como microempreendedor, Raphael Chiarelli vendia aparelhos para surdez e pilhas em sua loja física em São Paulo e agora tem 45 mil clientes em todo o Brasil comprando online

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2021 | 15h40

Em abril de 2020 fazia seis anos que Raphael Chiarelli tinha aberto com mulher, fonoaudióloga, uma loja física no Jardim São Paulo, zona norte da capital paulista. Com o nome fantasia Soluções Auditivas, a loja vendia basicamente aparelhos para surdez e pilhas para clientes que moravam na vizinhança. Quando começou a pandemia, um pouco antes do período de fechamento total do comércio, a freguesia sumiu. “Fiquei uns 20 dias sem vender para ninguém”, conta Chiarelli.

A maioria dos seus clientes é de idosos, na faixa de 75 a 80 anos, o grupo mais vulnerável à covid-19. Diante da queda abrupta no movimento, a saída para não fechar as portas da loja física foi ingressar em shoppings virtuais e começar a vender online. “Sempre fui meio pé atrás com o e-commerce porque não imaginava que idoso comprasse pela internet.”

Para a surpresa de Chiarelli, o faturamento deu um salto. Depois de oito meses no e-commerce ele, que era microempresário até então, se viu dono de uma pequena empresa. A venda anual da loja física, que antes variava entre R$ 580 mil e R$ 610 mil, atingiu R$ 3,8 milhões em dezembro do ano passado. Hoje a loja tem mais de 45 mil clientes no Brasil todo.

A proeza desse resultado é que ele foi atingido sem vender o aparelho de surdez, o item de maior valor. De acordo com as regras dos órgãos de saúde, não é permitido comercializar aparelhos de surdez pelo e-commerce. Por isso, o foco do negócio online foi para as pilhas e outros produtos geriátricos, como bengalas, fraldas, por exemplo, num total de 35 itens. Hoje ele comercializa mil cartelas de pilhas auditivas por semana no varejo online, ante oito quando só tinha loja física.

A entrada no e-commerce também transformou a loja física, que Chiarelli ainda mantém para a venda de aparelhos. O pequeno empresário trouxe novos produtos às prateleiras, contratou mais dois funcionários, além de um que já tinha, para atender a loja online e despachar as mercadorias. Além disso, fez de parte do ponto de venda um centro de distribuição do negócio virtual.

Um dos benefícios de ter virado uma pequena empresa é que Chiarelli agora pode conseguir empréstimo bancário para capital de giro com taxa bem menor em relação à que lhe era oferecida quando tinha status de microempresa. Também, pelo maior volume de compras, ficou mais fácil negociar com fornecedores e obter desconto. O ponto negativo é que a tributação aumentou.

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Quase 10% dos microempreendedores viraram empresas maiores com a pandemia

Segundo levantamento da Serasa Experian, MEIs voltados para o comércio foram os que mais passaram a micro ou pequenas empresas no último ano, impulsionados pelas vendas online

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2021 | 15h40

A pandemia turbinou os negócios dos microempreendedores brasileiros, especialmente por causa das vendas do comércio online. Quase 10% dos que iniciaram o próprio negócio como microempreendedores individuais em 2019 e se mantiveram ativos nos últimos 12 meses viraram empresas maiores, revela um estudo feito a pedido do Estadão pela Serasa Experian, consultoria especializada em informações financeiras. A taxa de ascensão dos microempreendedores individuais (MEIs) em 12 meses até março deste ano, de 9,1%, é mais que o triplo da registrada entre 2017 e 2019, que foi de 2,7%.

“Aumentou bastante a fatia de microempreendedores que conseguiram fazer um upgrade de seus negócios por conta do desempenho financeiro muito positivo”, afirma o economista Luiz Rabi, responsável pelo estudo. 

Para chegar a esse resultado, foi avaliado o faturamento de 700 mil MEIs entre abril de 2020 e março deste ano que estavam funcionando regulamente. “Empresa morta não foi considerada”, frisa o economista. Os microempreendedores que ganharam musculatura e passaram a ser micros ou pequenas empresários faturaram mais que R$ 81 mil no ano ou R$ 6.750 mensais.

Tornar-se um microempreendedor individual hoje é uma alternativa comum a milhões de desempregados para obter renda no momento em que a desocupação no País atinge níveis recordes. Dos 3 milhões de empresas abertas anualmente no Brasil, atualmente cerca de 80% são MEIs.

Microempreendedores voltados para o comércio foram os que mais conseguiram ascender no período, com 10,8% deles passando a gerir empresas maiores, aponta o estudo. É um resultado que está acima da média (9,1%). A mobilidade dos microempreendedores com negócios ligados à indústria, à produção rural e aos serviços foi menor. Em 12 meses até março deste ano, 7,9% dos microempreendedores individuais industriais viraram empresas de porte maior. Na produção rural e nos serviços, essas marcas foram de 6,8% e de 8,4%, respectivamente.

Vendas online

Um porcentual maior de empresas do comércio conseguiu ampliar o faturamento e se tornar maior na pandemia em relação ao de outros segmentos, como o de serviços, por causa da mudança do padrão de consumo. Com as restrições à abertura das lojas físicas, o varejo online avançou. “Na pandemia, os brasileiros passaram a consumir mais produtos do que serviços”, observa Rabi. Além disso, a prestação de serviços é pequena no online.

Na análise do economista, os MEIs viraram empresas maiores sobretudo por causa de estímulos fiscais monetários dados pelo governo para atenuar os efeitos da pandemia. E, em razão das restrições à circulação de pessoas, esses recursos foram canalizados para o comércio online.

Pesquisa recente da consultoria para avaliar o impacto da pandemia nas micro, pequenas e médias empresas, revelou que 73,4% desses empreendedores vendiam ou passaram a vender produtos e serviços online, com destaque para redes sociais - WhatsApp (72%), Instagram (44%), Facebook (36,7%) - e shoppings virtuais ou marketplaces (24,7%).

Entre março do ano passado e abril deste ano, 2,5% dos microempreendedores individuais ativos que vendiam produtos no marketplace do Magazine Luiza, por exemplo, ultrapassaram a barreira de vendas de R$ 81 mil por ano. Eles deixaram a categoria de MEIs e viraram empresas maiores, conta Mariana Castriota, gerente do shopping virtual da empresa. “Essa é uma taxa significativa”, diz. 

Na sua avaliação, a ascensão é um movimento muito agressivo para o microempreendedor que nem sempre tem estoque suficiente para vender mais de R$ 6.750 por mês. O traço comum entre aqueles que conseguiram mudar de patamar de vendas foi, na sua opinião, a perspicácia de ter produto com preço adequado.

No fim de março de 2020, logo no início da pandemia, a varejista acelerou a implantação do projeto batizado de Parceiro Magalu para digitalizar as micro e pequenas empresas analógicas que ficaram de mãos atadas por causa das restrições ao funcionamento do comércio. Foi criada uma série de ferramentas no marketplace para facilitar a conexão dessas companhias com o mundo online.

Para o consultor Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), antes mesmo da pandemia, os marketplaces já vinham passando por um processo de modernização. Eles estavam criando vários serviços para os lojista, como plataforma de pagamento, crédito, logística, por exemplo, para apoiar os empreendedores e deixá-los focados naquilo que eles sabem fazer: compra e vender. “A pandemia só colocou velocidade no processo de modernização para os marketplaces se tornarem ecossistemas, foi coincidência.”

São esses novos serviços oferecidos pelos marketplaces, na opinião de Terra, que têm feito a diferença. Isto é, têm dado as condições para esses microempreendedores crescerem. E a pandemia catalisou esse movimento, com aumento do consumo online.

Mesmo após o fim da pandemia, o avanço dos microempreendedores, impulsionado pelo comércio online, deve continuar, na opinião de Terra. Ele justifica a sua previsão no fato de a digitalização no varejo ainda ser baixa. Além disso, os shoppings virtuais, o território onde esses microempreendedores estão fincando bandeira para obter renda, têm muito para crescer. “No Brasil e no mundo, o comércio online cresce mais que o varejo físico e o marketplace cresce mais que o comércio online.”

Rabi, da Serasa, vê esse movimento dos de ascensão dos microempreendedores com cautela. De acordo com o estudo, a inadimplência dos MEIs que aumentaram de tamanho e viraram micro ou pequenas empresas foi, em média, de 20,2% no período, acima da média de 16,8% daqueles que se mantiveram como microempreendedores individuais. “Talvez esse resultado revele que eles deram um passo maior do que a perna, mas é preciso acompanhar.”

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Loja da Maria dobrou de tamanho e passou a empresa de médio porte com vendas online

A loja de tatames de EVA do empresário Caio Olivieri Michel nasceu em Pirituba, na zona oeste de São Paulo, e durante a pandemia teve de ampliar o galpão de onde despacha 15 mil pedidos por mês

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2021 | 15h40

Desde 2013 no comércio online vendendo tatames de borracha (EVA), usados para forrar o chão em academias e brinquedotecas, por exemplo, o empresário Caio Olivieri Michel decidiu abrir uma loja física em Pirituba, zona oeste da capital paulista, em 2017. De lá para cá a Loja da Maria só cresceu: de microempreendedor individual, virou microempresa e pequena empresa. Mas o grande avanço ocorreu na pandemia. “Era uma empresa pequena e passei a ser uma empresa de médio porte, foi uma explosão de vendas muito grande.”

Com as academias de ginástica e escolas fechadas, as pessoas começaram a se virar em casa. Compraram tatames para fazer ginástica, forrar o chão para as crianças brincarem. Com isso, o faturamento mensal da empresa, da qual a sua mãe Nanci Olivieri é sócia, dobrou nos últimos 12 meses. E o principal canal de vendas foi o online, que responde hoje por 90% do faturamento. “Estou nos principais marketplaces (shoppings virtuais)”, conta.

Para atender cerca de 15 mil pedidos por mês, o dobro do que fazia antes da pandemia, o empresário ampliou o galpão em Pirituba. De lá são despachados cerca de 35 mil metros de tatame por mês para todo o País. Também foi preciso aumentar o número de empregados. Eram dez antes da pandemia e agora são 20. Eles cuidam da emissão de pedidos e notas fiscais, do atendimento ao cliente, da logística e da embalagem.

Junto com o crescimento da empresa, o imposto pago também aumentou. Antes representava cerca de 15% do faturamento bruto e agora é 25%. “Estamos pagando mais imposto, mas lucramos mais também”, pondera Michel, que tem uma estratégia traçada para sustentar o ritmo de vendas quando a pandemia terminar.

Com a reabertura das academias, escolas, ele já sentiu um ligeiro arrefecimento das vendas. A saída, segundo o pequeno empresário, é investir em novos produtos, como brinquedos, por exemplo, e gastar mais dinheiro em marketing digital para não deixar a queda de faturamento acontecer.

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Loja virtual vende em dois meses o esperado para um ano com ajuda de marketplace

Ana Paula Simões e Luciano Pereira de Godoy se surpreenderam com as vendas de relógios durante a pandemia e passaram de MEI a microempresa

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2021 | 15h40

Ana Paula Simões e o marido Luciano Pereira de Godoy vivem hoje uma realidade completamente diferente em relação ao fim de 2019. Na época, Godoy, que é técnico de informática, tinha acabado de perder o emprego, depois de 14 anos de carteira assinada. Ela já prestava serviços como freelancer na área de programação num site de buscas. E ambos estavam insatisfeitos. “Começamos a procurar alternativas para aumentar a renda”, conta Ana Paula.

A primeira ideia foi abrir uma loja virtual para vender relógios femininos e masculinos de um fornecedor conhecido. No começo ingressou em dois shoppings virtuais, mas o movimento era muito fraco.

Em abril do ano passado, eles migraram da loja para outro marketplace, mas sem muito otimismo. Afinal, relógio de pulso não é um item essencial de compra em meio à pandemia. Mas o casal foi surpreendido. “A gente estourou assustadoramente: vendemos R$ 50 mil num mês e no outro também”, conta Ana Paula. Isto é, venderam em dois meses mais do que poderiam faturar o ano inteiro por ser Microempreendedor Individual (MEI) ou seja, até R$ 81 mil.

Por conta desse resultado, a loja APL Simões subiu um degrau, passou de MEI a microempresa, recolheu mais impostos e até contratou um escritório de contabilidade para controlar as finanças. No final do ano passado, na época da Black Friday, a loja chegou a tirar 200 pedidos por dia, enviados principalmente para Estados do Nordeste e cidades do interior. Hoje fatura entre R$ 90 mil e R$ 100 mil por mês.

Ana Paula atribui o sucesso à forte penetração do marketplace em que está e também ao fato de vender produtos com preços acessíveis. Um kit com relógio, pulseira e brinco, por exemplo, sai por R$ 69,90. Agora o casal estuda com o fornecedor incluir novos produtos, como bolsa e carteira.

Apesar do sucesso, o quartel general da empresa continua no mesmo endereço, no apartamento da família em Pirituba, na zona oeste da capital. Com dois laptops e um celular, o casal trabalha todos os dias da semana, tirando pedidos e atendendo aos clientes. Até em recente viagem de férias para o Nordeste, diariamente faziam uma pausa para encaminhar os pedidos ao fornecedor, que é responsável pela separação das mercadorias num galpão que fica numa cidade vizinha da capital. A logística das entregas é por conta do marketplace.

O lado ruim dessa história é que hoje como empreendedores ambos trabalham muito mais do que quando eram empregados. A parte boa é que o padrão de vida do casal melhorou. “Conseguimos quitar o apartamento, comprar carro zero e temos uma vida completamente diferente de abril para cá”, diz Ana Paula.

 

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Paixão por vinhos se transformou em negócio

A microempresária Cindy Lakeman, que começou vendendo 100 rótulos, hoje tem 300 e trabalha com a meta de oferecer 500 até dezembro

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2021 | 15h40

Em dezembro de 2019 a hondurenha Cindy Lakeman decidiu transformar a paixão por vinhos num negócio lucrativo. Depois de ter ficado alguns anos cuidando das filhas pequenas, ela, que é advogada de formação, resolveu voltar à ativa vendendo vinhos para amigos e conhecidos que gostam da bebida. Nessa época se tornou uma microempreendedora individual (MEI) e trabalhava de casa, vendendo bebidas por meio do aplicativo WhatsApp.

A carteira de clientes foi aumentando e o passo seguinte, que era ter um site próprio para expor os produtos, foi interrompido pela pandemia. “Na época, havia muitas incertezas.”

Conversando com um parente, descobriu a possibilidade de abrir a sua loja, a  Vinho Lovers Club, num shopping virtual. A primeira tentativa não deu certo, porque ela entrou em um marketplace que cobrava uma taxa muito alta. Na segunda tentativa, em julho de 2020, em outro shopping virtual, no qual a comissão era menor, a estratégia foi bem sucedida. “Dias depois começaram as primeiras vendas e foi aquela correria, tudo da sala de casa”, lembra Cindy.

De 20 garrafas por mês, ela começou a vender 100, depois 300 e chegou a 500 em setembro. Em outubro, ela não conseguia mais emitir nota fiscal, pois seu faturamento já excedia o limite de MEI, que é de R$ 6,5 mil mensais. Resultado:  teve de deixar de ser MEI, contratou um contador e virou microempresária. Em novembro e dezembro, quando a empresa voltou a funcionar, Cindy passou de mil garrafas vendidas por mês. “Com a pandemia, os restaurantes fecharam e peguei o boom de vendas de vinhos”, reconhece.

O passo seguinte foi transferir a empresa para uma sala comercial, contratar uma pessoa para ajudar nas embalagem e ter à disposição três motoboys que fazem serviço de entrega local, mais rápida, reembolsado pelo marketplace.

A microempresária que começou vendendo 100 rótulos, hoje tem 300 e trabalha com a meta de oferecer 500 até dezembro. O negócio que começou com investimento de R$ 50 mil em estoques já anda com as próprias pernas e dá lucro. O site está em operação, mas a maior parte das vendas ocorre no marketplace. “O site é a vitrine”, diz, ponderando que o consumidor se sente mais seguro em comprar quando há uma marca conhecida chancelando o negócio.

No momento, ela não tem planos de abrir uma loja física por conta do abre e fecha da pandemia. A perspectiva é continuar no comércio online, que ela acredita ter vindo para ficar, por causa da facilidade.

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