Werther Santana/Estadão
Fundador da 99, Paulo Veras é sócio de startups Werther Santana/Estadão

De empreendedor a investidor

Fundadores de startups estão de volta ao mercado colocando dinheiro em novas companhias

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2019 | 05h00

Eles ajudaram a fundar algumas das mais importantes startups do País, venderam suas participações e agora estão de volta ao mercado no papel de investidor. Paulo Veras decidiu ser sócio de startups em estágio inicial depois que a chinesa Didi Chuxing comprou o controle de sua 99 no começo de 2018. “Estou mais na linha de investidor anjo”, disse ele. 

Só no ano passado Veras aportou recursos em três negócios: na CargoX, empresa de tecnologia e transporte; na Digibee, plataforma digital para integração de sistemas e serviços; e na Looqbox, companhia de inteligência empresarial. “Empreendedor não se aposenta nunca, mas estou tentando evitar (abrir um novo negócio) por um tempo”, diz ele, que fundou seis empresas desde 1995.

Fábio Póvoa é outro exemplo do ciclo virtuoso criado no mercado de startups. Ele esteve na linha de frente da criação da Movile, dona das marcas iFood e Playkids. Ficou 12 anos na companhia até aproveitar uma rodada de investimento e vender sua participação. A exemplo de Veras, Póvoa também preferiu ficar na retaguarda dos negócios. 

Ele aplicou todo o dinheiro recebido com a venda de sua participação na Movile em fundos multimercados e de renda fixa. O patrimônio está garantido, uma vez que Póvoa só destina a novos negócios o que recebe de juros pelas aplicações. Desde a saída na Movile, ele já investiu em oito startups e saiu de três. No total, aplicou R$ 10 milhões nas empresas.

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Em meio à crise, maiores startups do País atraem capital e já valem R$ 89 bi

Maior parte delas atua em lacunas do mercado, como falhas de mobilidade urbana, baixa oferta de crédito e alto custo dos serviços financeiros; entre os ‘unicórnios’ brasileiros estão Nubank, Stone e Movile

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2019 | 05h00

Talvez poucas pessoas saibam dizer quem são David Velez, Fabrício Bloise e André Street. Mas certamente boa parte do País já ouviu falar das marcas criadas por eles, como Nubank, iFood, Playkids e Stone. Essa geração de empresários é a nova cara do capitalismo brasileiro, que tem como base tecnologia, inovação e criatividade.

Ao contrário de empresas tradicionais, que ainda sofrem para superar a grave crise que assolou o País, seus negócios crescem a dois dígitos por mês, empregam como nunca e valem bilhões de reais – só as cinco maiores companhias dessa nova economia (Nubank, 99, Stone, PagSeguro e Movile) valem cerca de R$ 89 bilhões. No jargão do mercado, elas são chamadas de unicórnio, startups que alcançaram a marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado.

Criada em 2012 por André Street e Eduardo Pontes, a Stone está bem acima desse patamar. A empresa de meios de pagamentos, mercado conhecido pelas “maquininhas”, captou US$ 1,5 bilhão na bolsa americana Nasdaq em outubro e hoje está avaliada em R$ 31 bilhões. A valorização traduz o potencial de crescimento da empresa, que elevou em 104% a carteira de clientes em 2018 e, até setembro, já havia faturado R$ 1,04 bilhão, com crescimento de 102% em relação a igual período de 2017.

Os números, avalia o presidente da companhia, Augusto Lins, são reflexo da cultura da empresa, voltada para inovação. “Isso é resultado de anos de trabalho, que só agora aparece para o público.” Outro diferencial, diz ele, está nos profissionais que trabalham na companhia: “Nossos funcionários são desafiados a criar soluções. Aqui não temos tempo para mimimi.” Atualmente, a Stone tem 5% de participação no mercado, 3,5 mil funcionários e 200 vagas em aberto.

O banco digital Nubank ainda não abriu capital na bolsa, mas é a aposta do mercado para este ano. Fundado em 2013, a instituição teve aporte de US$ 90 milhões da chinesa Tencent e vendeu US$ 90 milhões em ações para outros investidores no ano passado. No total, a empresa do colombiano David Velez já captou US$ 420 milhões e está avaliada em US$ 4 bilhões (cerca de R$ 15 bilhões). 

A líder em valor entre essas empresas bilionárias é a Pagseguro, que captou US$ 2,3 bilhões na bolsa americana em 2018 e hoje vale R$ 34 bilhões. Ao contrário das demais, no entanto, a empresa nasceu dentro de um grupo já estruturado no mercado, o Uol.

Lacunas. Na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), Amure Pinho, uma das estratégias de sucesso dessas empresas é atuar em lacunas deixadas pela velha economia, como as falhas de mobilidade urbana, baixa oferta de crédito e custos elevados dos serviços financeiros. No geral, a ideia é resolver problemas que atormentam a vida do brasileiro.

É o caso da Movile, com seu iFood – plataforma de entrega de comida – que virou uma facilidade para moradores de grandes cidades. Última a entrar para o grupo das empresas bilionárias, a companhia tem participação em outros 9 negócios, que vão de serviços financeiro, entrega e localização geográfica. 

A companhia, liderada por Fabrício Bloisi, já recebeu aportes de US$ 854 milhões de grandes investidores como os fundos Naspers Ventures e o brasileiro Innova Capital – este último mantido por Jorge Paulo Lemann. 

Para dar conta do crescimento, contratou 800 pessoas em 2018 e abriu 600 vagas neste ano. “A palavra de ordem para 2019 é hiper crescimento, vamos acelerar ainda mais o ritmo da empresa”, diz Helisson Lemos, diretor de operações da Movile, que em oito anos cresceu a uma taxa de 60% ao ano. 

“O Brasil demorou para entender o poder da indústria de tecnologia”, diz Paulo Veras, fundador da 99, vendida em 2018 para a chinesa Didi Chuxing. Na avaliação dele, esse ecossistema evoluiu de 2008 para cá e veio para ficar. “Não é uma nova bolha da internet; nunca tivemos tantas empresas de qualidade como agora.” 

Para Veras, essa leva de startups (bilionárias) vai reposicionar o Brasil no novo capitalismo mundial. “No passado, os jovens queriam trabalhar num banco ou numa grande empresa. Hoje querem empreender e estão mais preparados (parte deles fez curso ou passou temporadas no Vale do Silício).”

 

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Visão de fora para o desafio do crédito

Startup reduz juro com empréstimo com garantia

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2019 | 05h00

Sergio Furio nunca tinha pisado no Brasil quando decidiu abrir uma startup de crédito no País. Formado em administração de empresas, o espanhol trabalhava numa consultoria nos Estados Unidos quando resolveu empreender. O primeiro passo foi pesquisar áreas e mercados com potencial de crescimento. Nessa busca, ele conheceu sua atual esposa, uma brasileira que abriu os horizontes de Furio para o mercado nacional. Foi ela quem mostrou as carências do setor de crédito no Brasil, com falta de recursos e juros altos.

Ao desembarcar no Brasil em 2012, contratou um grupo de seis pessoas para ajudar a desenvolver o projeto, que nasceu como BankFacil. Investiu R$ 200 mil no primeiro ano e criou uma plataforma que comparava as melhores taxas e condições de crédito no mercado. Dois anos depois já tinha 20 funcionários e, no ano seguinte, conseguiu um aporte de R$ 25 milhões de investidores estrangeiros. 

Em 2016, então com 100 funcionários, Furio decidiu ir além e transformar o negócio numa fintech de crédito com garantia. O BankFacil virou, então, Creditas e fez mais duas grandes captações, de R$ 60 milhões e R$ 190 milhões. Desde o início, a empresa teve R$ 600 milhões de aportes – recursos que ajudaram a startup crescer. Hoje a fintech tem 570 funcionários e uma receita 5 vezes maior que a registrada em 2017. A carteira de empréstimos alcançou R$ 500 milhões no ano passado. “Em três anos, queremos ser 30 vezes maiores do que somos hoje; e em 10 anos, 100 vezes maiores.”

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As próximas candidatas a ‘unicórnio’

A lista de empresas bilionárias brasileiras deve aumentar

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2019 | 05h00

A lista de empresas bilionárias deve aumentar no Brasil. A expectativa é que, neste ano, até 7 companhias superem a marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado. “Em mais 1 ou 2 anos, serão cerca de 20 empresas classificadas como unicórnio (companhias que valem US$ 1 bilhão em valor de mercado)”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), Amure Pinho. “E quase todas elas terão capital externo. São raras as companhias que conseguem crescer sem recurso estrangeiro.”

Entre as candidatas potenciais para se tornar um unicórnio estão PSafe, Creditas e Resultados Digitais. As três empresas têm crescido de forma acelerada nos últimos anos e estão na mira dos investidores. Em oito anos, a PSafe – dona de antivírus para smartphones e tablets – captou US$ 87 milhões no mercado e vale R$ 1 bilhão. A empresa, criada por Marco DeMello, já acumulou mais de 200 milhões do downloads de seus aplicativos em todo o mundo.

A Resultados Digitais – plataforma de marketing digital voltada para empresas menores – também captou algo em torno de R$ 90 milhões. Fundada em 2011, a companhia já tem 680 funcionários, 12 mil clientes e está presente em São Paulo, Joinville e Florianópolis (SC), Bogotá (Colômbia), Cidade do México e São Francisco (EUA). “No ano passado, crescemos 60% em faturamento; e temos condições de manter o ritmo, já que o mercado a ser conquistado, apenas no Brasil, é amplo”, diz André Siqueira, fundador da startup. 

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