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De empreiteira a petroleira: os planos da mineira Cowan

Empresa fundada por Walduck Wanderley já tem blocos no Brasil e na Namíbia; meta é fazer do petróleo seu principal negócio

NAIANA OSCAR, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2013 | 02h04

Os móveis em jacarandá, o chão forrado com tapete grosso, as miniaturas de avião na estante e as cadeiras estilo Luiz XV continuam na sala da presidência, como deixou Walduck Wanderley, o folclórico fundador do grupo mineiro Cowan, que morreu em 2004, aos 72 anos. Walduck ficou conhecido não só por ter construído uma das maiores empreiteiras de Minas, mas por suas excentricidades. Não escondia o fascínio por mulheres (dizem que mantinha, ao mesmo tempo, mais de 30 namoradas) e por dinheiro (no banheiro de casa, o papel higiênico estampava uma nota de US$ 100).

Formulador contumaz de frases de efeito, Walduck dizia que não existem freiras no mundo das empreiteiras. E embora tenha erguido seu império com base em contratos públicos, chegou no início dos anos 2000, após a crise que se abateu sobre o setor de construção, com a convicção de que não podia mais depender tanto das obras de infraestrutura que fazia para o governo. Desde então, o Grupo Cowan tenta diversificar suas atividades e se reinventar.

Começou disputando concessões de saneamento básico em parceria com a Queiroz Galvão. Partiu para a administração de rodovias, incluiu no portfólio a operação de pequenas centrais hidrelétricas, criou uma mineradora, mas só agora, sob o comando da segunda geração, parece ter descoberto um caminho para se desvencilhar das obras públicas.

Sem fazer alarde, a empresa, que neste ano deve faturar R$ 1 bilhão, vem investindo na exploração de petróleo no Brasil e na Namíbia. No último leilão da Agência Nacional de Petróleo (ANP), realizado duas semanas atrás, a Cowan adquiriu, por R$ 7,5 milhões, em parceria com a Petrobrás, seis blocos em terra - nas Bacias do Espírito Santo e de Tucano Sul, na Bahia. Juntos, os blocos ocupam uma área total de 650 km². "Somos a única empresa brasileira, nesta rodada, que vai operar blocos para a Petrobrás", diz Guilherme Santana, ex-superintendente de planejamento da ANP e diretor da Cowan Petróleo e Gás. Ele foi contratado pelo grupo mineiro em 2008, dois anos depois de a família Wanderley ter decidido criar uma petroleira.

Óleo e Gás. A empresa fez a primeira investida - frustrante - no setor de petróleo em 2006. A Cowan arrematou quatro blocos, mas nunca obteve a concessão deles porque a rodada foi cancelada. Só no leilão do ano seguinte, conseguiu adquirir os dois primeiros blocos.

A estreia da Cowan no setor se deu já sob o comando de Saulo Wanderley. Irmão mais novo de Walduck e sócio dele na empresa, Saulo comprou a participação das duas filhas do fundador e hoje detém 100% do capital do grupo. Há cerca de dois anos, assumiu a presidência do conselho e passou o bastão para Saulo Wanderley Filho, de 40 anos, que está na empresa desde 2005 e foi um dos principais responsáveis pela entrada da Cowan no mundo do petróleo - embora nunca tenha sido um entendido no assunto.

Saulo Filho sempre trabalhou no setor de alimentação. Ajudou a levar a rede Forno de Minas (do genro de Walduck) para São Paulo e comprou a fabricante de suco de frutas Tial, na qual detém 50%. Foi um amigo de infância quem incentivou Saulo Filho a levar a Cowan para a exploração de petróleo. Esse sim, conhecia do negócio.

O amigo é o geólogo mineiro Marcio Mello, fundador da HRT - petroleira de capital aberto que vem enfrentando um período nebuloso, depois de ter frustrado o mercado ao não encontrar óleo nos blocos em que opera. Há duas semanas, Mello teve de renunciar ao cargo de presidente da empresa, sob pressão dos acionistas, descontentes com os resultados da companhia. "Começamos praticamente juntos na área, mas seguimos caminhos diferentes", diz Saulo Filho. "A começar pelo fato de que temos recursos próprios para investir e não pretendemos captar dinheiro na bolsa tão cedo."

Cinco anos atrás, a Cowan se associou a Mello para explorar um bloco na bacia do Espírito Santo. Hoje a HRT detém 10% de participação nessa área, onde já foi notificada a descoberta de petróleo. "Embora sejam muito próximas, não há como comparar a trajetória da HRT com a da Cowan", diz um concorrente. "A família Wanderley tem se mostrado muito cautelosa e conservadora."

A tacada mais ousada da empresa mineira até agora foi o investimento na Namíbia. Como a ANP ficou muito tempo sem fazer novos leilões no País, a Cowan partiu atrás de áreas na costa africana. Lá, opera dois blocos no mar, que juntos somam 11,2 mil km² - área superior aos 10 mil km² que a OGX, de Eike Batista, detém na costa brasileira. A Cowan já investiu quase US$ 20 milhões na região e prevê desembolsar mais US$ 52 milhões em 2014. O primeiro poço deve ser perfurado em 2015. "A Namíbia é uma nova fronteira de exploração. Para se ter uma ideia, até agora, só foram perfurados 10 poços na região. Para descobrir petróleo na Bacia de Campos, foi necessário perfurar mais de 100", diz Guilherme Santana.

Também entusiasmado com o negócio, o sobrinho de Walduck não faz planos modestos para a petroleira da Cowan. Ele quer levar adiante o que o tio tentou fazer no início da década passada: depender menos das obras de infraestrutura. Hoje, a construtora responde por 45% do faturamento do grupo - e 90% dos contratos são públicos. "Em dez anos, petróleo será o nosso principal negócio", diz Saulo Filho.

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