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De férias forçadas, metalúrgicos evitam pensar em recessão

Com angústia do futuro, funcionários da GM apelam para pescaria ou inventam coisas para fazer em casa

Sergio Pompeu, O Estado de S. Paulo

09 de novembro de 2008 | 11h24

Faz 20 anos que Hélio Paggi, de 50, acorda invariavelmente às 4h30 em dias úteis. Pintor de veículos, ele sai de casa, na Vila Linda, Santo André, às 5 horas, caminha meia quadra e espera um dos ônibus que levam funcionários de todo o ABC para a fábrica da General Motors, em São Caetano. A rotina meticulosa - "trabalho das 6h15 às 15h18" - foi quebrada duas vezes recentemente, por férias coletivas de 10 dias em outubro e por uma licença, que começou na segunda-feira e só termina no dia 18. Mas o relógio biológico é implacável. "É uma maldição. Dá 4h30 e não tem como eu voltar a dormir." O jeito é entrar na internet e esperar até a mulher e os dois filhos, ambos funcionários da GM, levantarem, lá pelas 7 horas. "Aí eu começo a inventar coisa para fazer." No início das férias coletivas, Hélio ainda acompanhava atentamente o noticiário econômico ou telefonava para os colegas para especular sobre a situação da montadora. "Mas, se você fica o tempo todo pensando no que vai acontecer, entra em desespero." Nos últimos dias, ele arriscou passar camisas ("ô coisa complicada") e aprender a cozinhar. "O único prato que recebeu um elogio foi o macarrão alho e óleo. Na verdade, meio elogio." Como Hélio, entraram em licença na semana passada 5 mil funcionários da GM de São Caetano diretamente ligados à produção - ao todo, a unidade tem 11.383 empregados. Parte dos dias de descanso forçado será remunerada e parte, debitada num banco de horas. Funcionários com horas extras a receber terão o saldo reduzido. Outros ficarão devendo e terão de fazer jornadas semanais superiores à atual, de 40 horas. Tudo isso em tese. Porque, inseguros, os funcionários não sabem o que vai acontecer nas próximas semanas, se ainda estarão empregados para fazer hora extra ou não. A montadora anunciou quarta-feira o segundo Plano de Demissão Voluntária (PDV) desde setembro. E fontes do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano afirmam que a empresa dará novas férias coletivas em dezembro. A GM, por meio de sua Assessoria de Imprensa, não confirmou a possibilidade de interrupção da produção em dezembro. Tampouco divulgou a redução de pessoal esperada com os dois PDVs.  Encalhe A empresa atribui a licença à necessidade de ajustes, depois da queda nas vendas provocada pelo enxugamento do crédito, no início do outubro. Mas não divulga dados sobre a queda nas vendas nem o número de veículos em estoque. Segundo integrantes do sindicato, o centro de logística terceirizado da GM no ABC estava cheio, com 5.300 veículos, em 20 de outubro, quando começaram os dez dias de férias coletivas. O total caiu para 4.200 com a paralisação de outubro, mas já tinha subido para 4.750 em 31 de outubro, a sexta-feira anterior ao início da licença remunerada. As fontes do sindicato dizem que a empresa viu o número de carros faturados por dia para revendedoras cair de um pico de 1.200 para cerca de 600. "Essa crise é a pior de todas para nós, porque foi inesperada", diz Hélio, do alto de suas duas décadas de empresa. "Até outro dia, só falavam em produção, produção. Até criaram o terceiro turno. E, de uma hora para a outra, tudo parou."  Babá full time José Francisco Góis de Souza, o Zé, de 30 anos, conseguiu encontrar um lado bom nesse período de incertezas. Virou babá full time do filho Danilo, de 2. "Tô adorando. Até porque, tempos atrás, a gente ficava 15, 20 dias sem se ver direito." Funileiro no terceiro turno da GM, Zé costuma sair de casa, no Jardim Itaussu, bairro pobre da periferia de Mauá, às 22h30 e volta às 7h30. Só revê no fim da tarde a mulher, Roseli, de 27, que levanta às 5 horas para trabalhar num fabricante de equipamentos industriais de São Caetano e deixa Danilo com a irmã durante o dia. "Minha cunhada saiu lucrando nessa. Ela adora o Danilo, mas cuidar desse menino cansa." Zé vai falando nos intervalos das aparições do filho na cozinha. Apoiando o pezinho nos puxadores das gavetas, Danilo sobe na pia, enche um copo de plástico na torneira e vira num gole só, espirrando água no chão. Zé, paciente, tira o menino da pia. Danilo sobe de novo, estica-se todo para alcançar o armário e pega um pacote de bolachas. O tempo todo, Zé acha graça. "Ele é muito esperto, não é? Ninguém diz que só tem 2 anos. Por estes dias, inventou que eu tenho de ensinar ele a ler." A situação de Zé, na verdade, é mais vulnerável que a de outros colegas na fábrica. O contrato dos 1.500 funcionários do terceiro turno, criado em 28 de abril, tem validade de 12 meses. Não há nenhuma garantia de que será renovado. "Como todo mundo, ando cismado. A saída é pensar positivo, ter fé em Deus", diz Zé, na cozinha bem montada da residência modesta - na parede, a mulher, evangélica, pendurou um quadro com os dizeres "Em Minha Casa Servimos ao Senhor".  Apesar de "pensar positivo", Zé anda evitando o noticiário sobre a crise na TV. "Só tenho visto desenho." Desenho? É a senha para Danilo. "Capau, capau?", pergunta. "Tá bom, filho, vamos lá ver o desenho do Picapau", responde o pai. O Jardim Itaussu fica num vale, perto da divisa com São Paulo, que fica coberto por uma espessa neblina nos fins de tarde. Nas encostas, há trechos coalhados de casas, pelas quais se chega por ruazinhas inacreditavelmente íngremes, e outros de mata preservada. Zé mora no alto do morro, a uns 80 metros do fundo do vale, onde vive um colega de fábrica, o pintor Jair Nery de Andrade, de 44 anos, 24 de GM. "Olha, a pior coisa em férias coletivas ou licenças é arranjar o que fazer. Se passar o dia inteiro em casa, a gente acaba se enervando, aí arruma briga com a mulher e desanda tudo de vez", diz Jair, casado com a ex-segurança e ex-motorista de ambulância Jeane, com quem tem três filhos. Nesse aspecto, de arranjar o que fazer, o também pintor da GM Odair Rogério, de 51, até que deu sorte. Já estava reformando a casa, em Ribeirão Pires, quando veio a licença. "Se soubesse que ia ter essa complicação toda, não teria gasto o dinheiro, mas, por causa da obra, tenho minha terapia." Estes dias, Odair tem feito sua "terapia" no muro dos fundos da casa, de 12 metros de extensão. "Primeiro fiquei passando massa fina, bem tranqüilo, devagarinho, para ficar um negócio decente. Agora comecei a pintar." Pesqueiro Na quarta-feira, Odair, Hélio e a família de Jair fizeram um programa típico dos moradores da região: foram a um pesqueiro em Suzano, tentando esquecer as preocupações em meio ao verde, a vacas e garças. Parte da conversa, como em todos os cantos do planeta, girou sobre a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, ocorrida na véspera. "Para eles, é uma novidade parecida com a vitória do Lula no Brasil", teorizou Hélio, engatando depois uma discussão sobre a atuação do governo na crise. "Ninguém tá achando que a culpa é do Lula. Mas também não tinha nada que o presidente ficar falando que a crise causaria no máximo uma marolinha. Todo mundo sabia que essa confusão toda ia bater aqui."

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