Gabriela Biló/Estadão e Divulgação
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Pedro Fernando Nery
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De FHC a Felipe Neto, o que abrange o termo social-democrata?

Conceito parecia datado, mas ressurge nas análises do governo Joe Biden e volta a ganhar importância no cenário mundial

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 04h00

Felipe Neto se definiu novamente como social-democrata na semana passada. Acompanhei o anúncio com interesse – afinal, o youtuber tem feito críticas severas ao neoliberalismo (“Derrotar o neoliberalismo é o grande desafio do Ocidente”, twitou para 25 mil curtidas em maio). E neoliberal, mais do que qualquer conceito, parece ser um insulto, o preferido justamente dos detratores da social-democracia no Brasil: basta lembrar do seu expoente mais conhecido, FHC – que faz 90 anos nesta semana. O que afinal abrange esse guarda-chuva que abriga de Fernando Henrique a Felipe Neto? Qual o futuro na geração de Felipe para o modelo sonhado pela geração de FHC?

Lançado recentemente, o livro Social Democratic Capitalism argumenta que é a social-democracia que a história mostrou ser o modelo mais capaz de avançar o desenvolvimento humano. Do professor Lane Kenworthy, da Universidade da Califórnia em San Diego, advoga por um modelo que colha as vantagens do capitalismo em produzir crescimento econômico com a proteção de um Estado de bem-estar social forte, voltado para altos níveis de emprego e baixos níveis de desigualdade.

Para Kenworthy, os países nórdicos seriam os que melhor aderiram ao que chama de “capitalismo social-democrata” (ou capitalismo social, capitalismo de investimento social, flexigurança). Em todos os principais países ricos ocidentais, estariam presentes alguns elementos desse modelo: democracia, capitalismo e educação básica de qualidade. Mas a presença de outros três elementos variaria, com a exceção de Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia, onde o check-list estaria completo.

Esses últimos elementos seriam uma seguridade social ampla e generosa, incluindo saúde e pagamentos para famílias com crianças; serviços voltados ao emprego, incluindo qualificação profissional, intermediação de mão de obra e creches; e regulação flexível para os mercados, incluindo o mercado de trabalho. Esse arranjo – o capitalismo social-democrata – seria amigável ao crescimento econômico, ao passo que uma forte rede de proteção se encarregaria de segurar os que caem.

Na visão de Kenworthy, o crescimento do PIB enriquece os cidadãos, que se desvinculam de tradições e passam a valorizar mais ideais de liberdade e de justiça social. Já o Estado forte e eficiente buscaria equalizar as oportunidades e cuidar das famílias que ficam para trás. O resultado desse capitalismo social seriam sociedades com cidadãos que vivem mais “seguros, educados, saudáveis, ricos, livres e felizes”.

Ano passado, Felipe Neto já se definira como “social-democrata, mas nada a ver com o PSDB”. Dois anos antes, FHC falou em “desencontro conceitual” sobre o nome do partido e sugeriu que seria o PT o partido mais próximo, hoje, da social-democracia europeia. 

Há 30 anos, em uma cartilha sobre o tema, o ex-presidente descreveu a social-democracia como corrente que “reconhece as leis do mercado e o dinamismo da empresa” e que “se preocupa em reforçar e tornar mais eficiente a atuação do Estado nas áreas diretamente ligadas ao bem-estar social”. Acompanhar transformações e eliminar privilégios também aparecem na descrição.

Já para o influencer, a social-democracia talvez seja algo entre o neoliberalismo que critica no Twitter e o comunismo que é incompatível com sua riqueza no YouTube

Por toda parte o termo parecia datado, mas ressurge agora nas análises do governo Joe Biden. Após derrotar democrata-socialistas nas primárias e reacionários republicanos nas eleições gerais, implementa agora uma agenda que é bem mais ousada que a de Obama. “A América está se tornando uma social-democracia”, é a chamada na Foreign Policy. “Os EUA se tornaram um país social-democrata”, anunciou-se no Financial Times.

Pode ser que o governo Biden dê protagonismo ao termo, que incorporaria modernamente uma maior preocupação ambiental. Mais do que os rótulos, o Brasil precisa desesperadamente da agenda – diante da alta histórica da pobreza, da desigualdade de renda e até da desigualdade de felicidade (conforme apresentado ontem pela FGV Social). Como sintetizou o aniversariante da semana, “os nomes são nomes”.

*DOUTOR EM ECONOMIA 

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