Andy Rain/EFE
Andy Rain/EFE

De frango a doces, desabastecimento de produtos afeta Reino Unido

Falta de caminhoneiros, causada pelo Brexit e por outros fatores, desfalca estoques de supermercados e restaurantes britânicos

Eshe Nelson e Stephen Castl, The New York Times

29 de agosto de 2021 | 05h00

Por todo o Reino Unido, um problema que vinha ocorrendo lentamente desencadeou uma crise na cadeia de abastecimento nas últimas semanas, com restaurantes, supermercados e empresas do setor de alimentação avisando seus clientes de que produtos populares ficarão temporariamente indisponíveis por causa da escassez de caminhoneiros.

Os milkshakes do McDonald’s, o frango da rede Nando’s, os doces Haribo e o leite estão entre os produtos que ficaram mais escassos no país durante o verão. Mas o problema vai além dos alimentos: praticamente toda a indústria vem se queixando de problemas de entrega. E as organizações já vêm alertando que as dificuldades na logística podem prejudicar a chegada de brinquedos e produtos para o Natal que são cruciais para os almoços e jantares de família no final do ano.

A escassez de motoristas do setor de carga que persiste há um longo tempo foi exacerbada pelo êxodo pós-Brexit de trabalhadores da União Europeia. Além disso, existem problemas para treinar novos motoristas por causa da pandemia. E há anos o setor de transporte de carga tem tido dificuldade para atrair novos condutores para uma ocupação mal paga e que exige longas e extenuantes horas de trabalho.

“Cerca de 90% de tudo o que consumimos no Reino Unido chega na carroceria de um caminhão”, disse Rod McKenzie, diretor de políticas na Road Haulage Association, que representa o setor de transporte rodoviário, e que calcula que há uma escassez de 100 mil caminhoneiros. “Se não houver motoristas suficientes – e temos notícias de grandes companhias com centenas de caminhões parados –, menos produtos serão entregues”.

No início do verão na Inglaterra, a empresa de doces alemã Haribo disse estar com problemas para enviar seus doces para as lojas britânicas. Arla, uma grande produtora de laticínios, teve de reduzir suas entregas a um quarto do habitual. Na semana passada, a popular cadeia de restaurantes Nando’s fechou 50 dos seus restaurantes por causa da falta do seu famoso frango peri-peri. Esta semana a loja de cafés Costa, e uma outra cadeia de cafés, foram as últimas a registrar escassez dos seus produtos por causa dos problemas com a rede de fornecimento.

Iceland, uma grande rede de supermercados, também está soando o alarme no caso do Natal, alertando que os varejistas precisam começar aumentar seus estoques no início de setembro, mas pelo contrário, as prateleiras estão ficando vazias. Richard Walker, diretor da rede, disse que sua empresa está com falta de 100 caminhoneiros para trabalharem em tempo integral.

“Isso está impactando toda a cadeia de fornecimento diariamente”, disse Walter à BBC. “Tivemos entregas canceladas pela primeira vez desde o início da pandemia – cerca de 30 a 40 entregas por dia”.

Os Estados Unidos também lutam com a escassez de caminhoneiros; a crise é similar no tocante aos anos que essa crise vem se formando, com as empresas de transporte não conseguindo atrair novos caminhoneiros. Na Grã-Bretanha, a idade média de um motorista de caminhão é de 50 anos. Há seis anos, o Chartered Institute of Logistics and Transport disse que somente 2% dos caminhoneiros tinham menos de 25 anos e que em 2022 o setor necessitaria de mais 1,2 milhões de empregados.

Além disso, depois do referendo do Brexit, em 2016, o valor da libra despencou, tornando menos lucrativo para os europeus do continente, – incluindo os caminhoneiros – trabalhar no Reino Unido, levando alguns a retornarem ao seu país natal. A tendência foi exacerbada pela pandemia, quando muitos preferiram ficar mais perto de suas famílias.

E mais obstáculos surgirão à medida que o Reino Unido introduzir inspeções de alimentos e de outros produtos que entram no país vindos da Europa continental no final do ano.

As empresas têm aumentado os salários e oferecido bonificações para atrair mais motoristas. Tesco, a maior rede de supermercados da Grã-Bretanha, está oferecendo bonificações de mil libras (equivalente a cerca de US$ 1.370) para os motoristas que se candidatarem antes do final de setembro, prometendo mais aumentos de salários durante seis meses. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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