De incerteza em incerteza, a economia vai levando...

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De incerteza em incerteza, a economia vai levando...

Só não sabemos até que ponto a economia brasileira consegue resistir assim

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2017 | 21h00

A vida como ela é levou os romanos a concluir que a paternidade é sempre incerta (“pater semper incertus”), princípio que caducou depois que apareceu o teste de DNA.

Porém, no mundo dos negócios, apesar de todas as tentativas dos economistas, não há o que elimine definitivamente a incerteza. Quem está nessa vida, fica sempre sujeito a riscos, alguns mais e outros menos. Não fosse assim, o mercado de seguros não teria prosperado.

No Brasil de hoje, a incerteza passou a ser elemento especialmente relevante para quem prospecta o futuro, mesmo o de curto prazo. Mas, ao contrário do que parecia há algumas semanas, os estragos produzidos pela falta de previsibilidade parecem reduzidos. De incerteza e incerteza, a economia vai levando. É um ambiente encruado, mas não de franca deterioração.

Assim como a previsibilidade é sempre desejada, há, também, sempre um nível máximo de insegurança que empreendedores e pessoas comuns se dispõem a correr. Mas ela não está visível e esse é outro fator de incerteza.

A maior insegurança que paira hoje sobre a economia é de natureza política, como tem sido reconhecido até pelo Banco Central. Ninguém sabe quem será presidente da República no último trimestre deste ano. O administrador das finanças do governo, Henrique Meirelles, pode conduzir o navio no piloto semiautomático, mas só até certo ponto.

Não sabemos até que ponto a economia brasileira consegue resistir assim. Não dá para sustentar a tese sempre repetida, na qual insistem tantos analistas, de que esta é a maior crise econômica do Brasil em mais de 50 anos. Isso pode valer para o emprego, hoje recorde, que alcança mais de 14 milhões de pessoas, 13,6% da força de trabalho.

Mas não vale para o que mais importa. A maior firmeza dos fundamentos da economia. O rombo externo está em queda e é amplamente financiado pela entrada de capitais. Não há fuga de moeda estrangeira, não só porque há US$ 370 bilhões em reservas externas, mas, também, porque sobram dólares no mercado global. A inflação bate em retirada e deve fechar o ano abaixo do centro da meta, de 4,5%. Os juros básicos estão caindo e podem passar para 2018 na casa dos 8% ao ano. Não há treme-treme nas finanças do sistema bancário.

Apesar de tudo, o PIB já é positivo, as safras agrícolas mostram saúde e produtividade, a indústria dá sinais mais consistentes de retomada. Nesta terça-feira, o setor de veículos mostrou resultados positivos em maio. Assim, a relativa capacidade de resistência nesta crise tem a ver com a melhora dos fundamentos da economia.

Mas convém não exagerar. É descabida a ideia de que a trajetória da economia possa descolar-se da crise política, como aconteceu na Itália após a 2ª Grande Guerra. A hemorragia só não é tão forte quanto as de crises anteriores. Governo e economia vão perdendo forças, porque as contas públicas têm problemas, a dívida vai aumentando, e não há perspectivas de solução a curto prazo, embora a qualquer momento possa surgir uma surpresa, da Operação Lava Jato ou de outra fonte.

De todo modo, é possível que, por falta de opção, empresários e pessoas comuns aprendam a tolerar uma economia sujeita a tais instabilidades. Quem viver verá.

CONFIRA:

>> Tombo também no IGP-DI

Outro indicador de inflação, o velho IGP-DI, cujo nome e sobrenome é Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna, veio negativo em maio: queda de 0,51%, graças ao tombo nos preços no atacado, segmento que pesa 60% nesse medidor de inflação. Sua métrica é a mesma do IGP-M, usado para reajustar aluguéis e contratos financeiros. Como muito do atacado se transfere também ao varejo, ajuda a firmar a tendência de queda também no IPCA, que é o custo de vida e é o critério de meta de inflação.

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