David Moir/EFE
David Moir/EFE

De iPhone para iCar

A Apple está entrando no setor automobilístico, mas o caminho para a gigante de tecnologia é acidentado

The Economist, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2015 | 02h02

Depois de redefinir os segmentos de computadores pessoais e telefones celulares, a Apple mira um novo alvo móvel. Segundo reportagem do Wall Street Journal, a menina dos olhos do setor de tecnologia pretende lançar um carro elétrico em 2019. Há anos especulava-se que a Apple cultivava ambições automotivas. A empresa vem contratando verdadeira horda de engenheiros para trabalhar no projeto, que atende pelo codinome de Titã e emprega 600 funcionários.

Com cerca de US$ 200 bilhões no bolso, a Apple dispõe de recursos mais que suficientes para se engajar em um novo empreendimento. Suas legiões de fãs vivem à espera de novidades que virem manchete de jornal. O relógio inteligente Apple Watch, produto mais recente da companhia, não fez o sucesso estrondoso previsto por alguns analistas, e o evento de mídia que a Apple organizou no início deste mês foi meio chocho, trazendo basicamente aperfeiçoamentos de produtos já existentes. Lançar um carro seria algo bem mais ousado e, em tese, lucrativo: as vendas mundiais do setor automotivo somaram cerca de US$ 2 trilhões em 2014.

Acontece que vender carros não é a mesma coisa que vender telefones. O ciclo de reposição de um iPhone se estende por dois anos apenas, enquanto o apego dos consumidores por seus carros é muito mais duradouro. Para que o negócio valha a pena, os automóveis da Apple teriam de gerar lucros comparáveis aos de seus produtos atuais. No entanto, margens brutas em torno de 40%, como as que a empresa obtém atualmente, são impensáveis para a maioria das companhias que produzem automóveis em larga escala. As margens da BMW, que entre as montadoras é uma das mais lucrativas, giram em torno de 20%.

Mais importante ainda é o fato de que a regulamentação no setor automobilístico é muito maior do que no de eletrônicos de consumo, como o bafafá em torno da Volkswagen deixou claro na semana passada. E a tendência é que o respeito a padrões de segurança e a limites de emissão de poluentes seja alvo de fiscalização cada vez mais rigorosa. Se isso implica sérios desafios até para a mais experiente das montadoras, que dirá para uma novata no ramo.

Riscos. O talento que a Apple tem para desenvolver dispositivos móveis certamente será uma vantagem, uma vez que a conexão com a internet é atributo cada vez mais importante no universo automobilístico. Mas os riscos a que os motoristas de carros totalmente conectados estarão sujeitos serão de natureza bem diversa daqueles que os usuários de smartphones enfrentam hoje em dia. Na semana que passou, soube-se que aplicativos comercializados na App Store da Apple haviam sido contaminados por vírus, incluindo dois dos mais vendidos na China. Por mais constrangedores que sejam, ataques desse tipo não provocam tragédias. Se malwares semelhantes invadissem um iCar, as consequências poderiam ser fatais.

Preocupações como essa não são suficientes para fazer com que as empresas de tecnologia desistam de acelerar forte para entrar no negócio automotivo. Com seus veículos elétricos de alto padrão, a Tesla, criada pelo bem-sucedido empreendedor do segmento de tecnologia Elon Musk, abre o cortejo. O Google, por sua vez, vem se dedicando ao desenvolvimento de um carro de condução autônoma e de um sistema operacional para automóveis, e contratou recentemente um antigo executivo da indústria automobilística para coordenar seu projeto de carros autoconduzidos. Talvez a Apple tenha resolvido entrar no setor em parte por não querer deixar nas mãos de seu arquirrival o controle do painel de instrumentos e dos sistemas operacionais dos carros. A competição entre as duas empresas está virando corrida de automóveis.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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