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De novo a política

Investimento derruba o PIB e cenário político volta a contaminar a economia

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2016 | 05h00

O governo Temer terá de acordar o investimento se quiser mostrar a que veio, nesses dois anos que lhe restam. Em outras palavras, para provar se está montando os pilares de uma “ponte para o futuro”, a palavra de ordem do programa econômico apresentado pelo PMDB, naqueles dias em que o partido começava a sonhar com a chegada ao Planalto como inquilino principal. Ou se vai se limitar a ser apenas uma frágil pinguela, como tem insistido o aliado Fernando Henrique Cardoso.

Os resultados do Produto Interno Bruto (PIB), divulgados na manhã de ontem, confirmam que a travessia está seriamente ameaçada. A queda do PIB aprofundou-se no terceiro trimestre e chegou a 0,8%, em relação a 0,4% nos três meses anteriores. Na comparação com o mesmo período de 2015, a redução atingiu 2,9% e nos 12 meses encerrados em setembro, 4,4%. Pior: o investimento, que dita o ritmo da economia no futuro, depois de um leve respiro no segundo trimestre, com crescimento de apenas 0,5%, voltou a cair – desta vez, a redução foi de 3,1% sobre o trimestre anterior. Com esse resultado, a queda do investimento sobre o terceiro trimestre do ano passado ficou em 8,4% e, nos 12 meses, em 13,5%.

No começo da noite, o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou uma redução de apenas 0,25 ponto porcentual na Selic, a taxa básica de juros. O que comprova que, mesmo sob impacto da recessão, o Banco Central optou pela cautela, principalmente em razão das incertezas quanto à conjuntura internacional alimentadas pela chegada ao poder de Donald Trump. Dois indicadores que expõem uma economia atravessando uma crise de extrema gravidade, e enfrentada com medidas que não só têm efeito limitado como também têm de ser administradas em doses reduzidas.

Com esses entraves, como acordar o investimento? Empresas endividadas, com resultados insuficientes até para cobrir a despesa de juros, certamente não estão por aí correndo atrás de investimentos. Tanto assim que a nova lei de concessões teve de abrir uma brecha para que empresas que não estejam conseguindo cumprir seus contratos – leia-se sócios de empreiteiras enredadas na Lava Jato – possam devolver as concessões para que sejam relicitadas. É preciso muita garantia e muito incentivo para despertar o chamado “espírito animal” dos empresários. E, nesse sentido, o cenário político, visto como um fator pró-crescimento logo após o impeachment, volta a preocupar.

O País foi dormir mergulhado na comoção provocada pela tragédia da Chapecoense e amanheceu ontem perplexo com a madrugada de votações no Congresso. Dominado por uma súbita onda de produtividade, os deputados aprovaram quase por unanimidade o texto básico do pacote anticorrupção, mas votaram uma série de emendas que, na prática, derrubam vários pontos da proposta, incluindo a possibilidade de coibir abusos de juízes e procuradores.

Por mais que a crise exija urgência na tomada de decisões, por mais que caiba de fato ao Congresso negociar e alterar propostas que estejam em votação e por mais que não haja medidas “imexíveis”, não há como ignorar que se desenrolou ali mais uma batalha da guerra entre Legislativo e Judiciário. Com um enorme potencial de riscos para a estabilidade política do País.

Ironicamente, o pacote ficou mesmo sem a anistia ao caixa 2, o que pode servir como argumento para quem defende que foi honrado o compromisso assumido naquela entrevista conjunta concedida no último domingo pelo próprio Temer e pelos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Rodrigo Maia.

A aprovação da PEC do teto de gastos públicos em primeiro turno no Senado, também na noite de terça-feira, pela qual houve tanto empenho do Planalto nos últimos dias, acabou ficando em segundo plano. Se havia dúvidas sobre a capacidade do governo de enfrentar a crise fiscal do País, elas se ampliaram. Há incertezas agora sobre a capacidade do governo de controlar a pressão que vem das ruas e de dentro de casa – ou seja, das suas próprias bases.

Nesse quadro, imagine-se então na pele de um investidor. O mais provável é que ele respire fundo e aguarde para ver onde tudo isso vai dar. E a retomada da economia fica para depois.

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