China Daily|Reuters
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De novo na moda

Investidor volta a se interessar pelo mercado emergente, mas há quem diga que recuperação não veio para ficar

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2016 | 05h00

Os mercados emergentes estão de volta. Faz 20 anos que as bolsas de valores dos países em desenvolvimento entram e saem de moda, acompanhando o humor dos investidores, que alternam entre o entusiasmo ingênuo com suas perspectivas de crescimento no longo prazo e o súbito alarme com os riscos que lhes são inerentes. Este ano, os mercados de ações emergentes voltaram a ficar de bem com a vida, tendo proporcionado ganhos de mais de 13%.

É uma mudança abrupta em relação ao ânimo predominante entre 2010 e 2014, quando investir no mundo em desenvolvimento era algo tão comum quanto realizar exames antidoping no atletismo russo. Nesse período, a atenção dos investidores parecia ter se fixado nos aspectos negativos desses países. Diversas economias emergentes, incluindo a chinesa, davam a impressão de estar perdendo o embalo. As nações exportadoras de commodities foram prejudicadas pela queda nos preços das matérias-primas. Países que faziam sucesso entre os investidores, como Brasil e Turquia, voltaram a viver crises políticas.

Acontece que, mais dia menos dia, sempre chega o momento em que não há má notícia que não esteja contabilizada nos preços das ações. Pelos cálculos do Robeco, um grupo holandês de gestão de fundos, os mercados emergentes atualmente embutem um desconto de 30% em relação às bolsas dos países desenvolvidos, considerando seus índices preço/lucro prospectivos (isto é, a razão entre os lucros previstos para o ano que vem e os preços das ações).

E é possível que venham mais boas notícias por aí no campo dos fundamentos econômicos. Em suas projeções de abril, o FMI prevê uma pequena melhora no crescimento dos países emergentes em 2016, quando seus PIBs somados devem registrar expansão de 4,1% (ante 4% em 2015), e uma recuperação mais vigorosa em 2017, quando essas economias devem crescer conjuntamente 4,6%. Uma notícia particularmente boa é que o PIB de duas economias que vivem situação delicada, Brasil e Rússia, deve parar de encolher no ano que vem. Além disso, depois de longo período em declínio, as exportações das economias emergentes dão sinais de estar se estabilizando: em maio, o volume aumentou 3% em relação ao exportado no mesmo mês do ano passado.

Apesar de os preços do petróleo terem exibido fragilidade nas últimas semanas, os das matérias-primas em geral parecem ter encontrado um ponto de equilíbrio. Isso é importante, uma vez que muitos países em desenvolvimento são exportadores de commodities.

A consequência é que o entusiasmo dos investidores está renascendo. O levantamento mensal que o Bank of America Merrill Lynch faz entre gestores de fundos mostra que, ao contrário do que vinha acontecendo desde 2013, quando a maioria dos fundos consultados dizia operar com uma exposição aos mercados emergentes abaixo do normal, de maio para cá a maior parte passou a atuar com exposição acima do normal – ainda que o otimismo atual nem de longe se compare com o que se via antes da crise financeira de 2008.

Os mercados emergentes também estão se beneficiando da busca generalizada por retornos mais polpudos. Com as taxas de juros perto ou abaixo de zero em diversos países e trilhões de dólares em títulos públicos sendo negociados com rentabilidade negativa, os investidores estão dispostos a arriscar um pouco. Em razão disso, as moedas e os títulos públicos dos países em desenvolvimento também estão em alta.

Historicamente, o momento mais perigoso para alguém pôr dinheiro em mercados emergentes é quando o entusiasmo dos investidores se encontra em seu nível mais elevado e as bolsas desses países estão sobrevalorizadas em relação às do mundo desenvolvido. Nenhum desses sinais de alerta está soando atualmente.

Cautela. Apesar disso, é prudente que os investidores não se deixem levar pela crença ingênua de que, só porque estão crescendo em ritmo mais acelerado que os países desenvolvidos, as economias em desenvolvimento são necessariamente uma aposta mais lucrativa. Estudo feito por Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton, da London Business School, mostra que, entre 1900 e 2013, houve na realidade uma correlação negativa entre o crescimento econômico per capita registrado ao longo de períodos de cinco anos e os retornos, ajustados pela inflação, gerados pelos mercados acionários dos países emergentes.

Uma explicação para tal anomalia é que o mercado de ações de um país não é reprodução exata de sua economia: há muitas empresas que nem têm ações listadas em bolsa. Outro fator é que, às vezes, nem todo o benefício do crescimento corporativo chega ao bolso dos investidores minoritários. Há algum tempo, John-Paul Smith, da consultoria Ecstrat, mantém-se pessimista em relação aos mercados emergentes. E não mudou de opinião agora, pois não acredita que o regime de governança corporativa desses países venha a sofrer mudanças capazes de favorecer os investidores minoritários.

Uma das maiores ameaças à atual recuperação dos mercados emergentes seria a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas deste ano. O candidato republicano vem fazendo ameaças – como a de romper o Acordo de Livre-comércio da América do Norte ou de abandonar a Organização Mundial do Comércio – que afetariam diretamente o crescimento econômico dos países em desenvolvimento. E há ainda suas propostas de política externa, incluindo a disposição de abandonar as alianças militares de que os EUA participam no exterior. Na opinião do Citigroup, Coreia do Sul e Taiwan seriam particularmente prejudicadas por tal decisão – da qual a Rússia provavelmente seria a única beneficiária.

A natureza errática dos pronunciamentos de Trump também pode criar certa aversão ao risco entre os investidores globais. E os mercados emergentes tendem a perder quando os investidores ficam mais cautelosos. Em suma, ainda é cedo para dizer que essa recuperação veio para ficar.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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