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De olho na popularidade

Se caso Coaf não mostrar um estrago nas pesquisas, adesão do Congresso é mais provável

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2019 | 04h00

Apesar do perfil bem mais conservador de um Congresso bastante renovado, os investidores ainda não estão completamente convencidos de que o grau de adesão dos novos parlamentares à agenda econômica liberal do governo Jair Bolsonaro terá o mesmo apoio esperado para a pauta de costumes, incluindo temas como família e educação.

Essa dúvida passou a pesar mais nos últimos dias com as revelações recentes do episódio das movimentações financeiras atípicas envolvendo o filho do presidente e senador eleito Flávio Bolsonaro e o seu ex-assessor Fabrício Queiroz, apuradas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Os investidores estão mantendo o sangue frio diante dos últimos acontecimentos envolvendo o filho do presidente e afirmam que estão monitorando a situação. Mas admitem que as próximas pesquisas de popularidade e de aprovação do presidente Bolsonaro devem deflagrar uma reação mais forte nos preços dos ativos.

Para o mercado financeiro, os números da popularidade do presidente devem ditar as expectativas sobre a aprovação de medidas importantes no Congresso, como a reforma da Previdência.

Isso porque uma das perguntas no radar dos investidores é: sem trégua no noticiário de jornais e de emissoras de rádio e TV, como os parlamentares que estão assumindo o mandato vão reagir a novas revelações do caso Coaf e a um eventual desgaste na imagem do governo Bolsonaro?

Reagirão esses parlamentares de maneira diferente do que sempre se observou quando um governo imerso numa crise política tenta aprovar uma medida importante no Congresso, cobrando um preço no batido “toma lá dá cá”?

Não à toa, cresceu muito a expectativa em relação ao fim do recesso na Câmara dos Deputados e no Senado, no dia 1.º de fevereiro, quando haverá a eleição para a presidência das duas Casas.

Por enquanto, os investidores brasileiros ainda mantêm um otimismo quanto à aprovação da reforma da Previdência, atribuindo uma probabilidade de 70% de que isso aconteça ainda neste ano.

Quanto à adesão à reforma da Previdência, a única certeza do mercado é que 135 dos 513 deputados federais são da oposição. A dúvida paira sobre os 378 deputados restantes, mas a margem é confortável, pois são necessários 308 votos para a aprovação de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC).

“Considerando os que se abstêm e os que são contra o projeto, todos os que não são de esquerda e de oposição têm de apoiar a reforma da Previdência, caso contrário não passa na Câmara”, adverte um executivo de uma grande administradora de recursos em São Paulo.

Se, de um lado, os investidores estão confiantes de que a proposta da reforma apresentada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, será mais ambiciosa, de outro, o sentimento é que a versão final será diluída quando da última votação no Congresso.

Mesmo assim, a esperança é de que essa versão final ainda seja mais dura nas mudanças para a aposentadoria e outros benefícios previdenciários do que o projeto do governo Michel Temer que se encontra no Congresso e que, se tivesse sido aprovado, teria resultado numa economia de R$ 480 bilhões em dez anos.

Mesmo numa versão mais diluída, os investidores não creem numa adesão automática dos novos parlamentares à reforma da Previdência, como se espera o apoio à pauta de costumes mais conservadora, cujas medidas em geral não envolvem matérias constitucionais. Isto é, basta uma maioria simples para aprovação e não três quintos de apoio, como a de uma PEC.

É uma incógnita ainda para os investidores como vão se comportar os deputados de partidos como o Novo e o Podemos em relação à reforma da Previdência. Até mesmo a postura do PSDB gera dúvidas.

Ainda mais se o episódio Coaf resultar numa crise política mais séria envolvendo o Palácio do Planalto. O desconforto de aliados do presidente é crescente. E as explicações dadas até agora pelo senador eleito Flávio Bolsonaro e pelo seu ex-assessor não colocaram uma pá de cal em definitivo sobre as suspeitas.

Mas o que interessa é avaliar qual será o desgaste do caso Coaf sobre a popularidade do presidente Bolsonaro. Se as pesquisas de aprovação de governo e de popularidade não mostrarem estrago no apoio dos eleitores, a adesão do Congresso à agenda econômica fica mais provável. Caso contrário, aprovar a reforma da Previdência será mais difícil.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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