De olho nas condições de temperatura e pressão

Se as condições atuais de temperatura e pressão externas - ainda favoráveis ao País - permanecerem nos próximos meses, não há dúvida de que o consumidor brasileiro terá outro bom ano em 2011, fazendo com que seu grau de endividamento suba a níveis recordes. Entende-se que a elevação do endividamento não é mau presságio, mas componente intrínseca e legítima do capitalismo moderno.

Cenário: Fabio Silveira, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

O primeiro grande motivo de respaldo à referida perspectiva decorre, evidentemente, da firme trajetória da massa salarial, que segue em alta.

A segunda maior razão para a consolidação de um horizonte de evolução crescente do endividamento do consumidor no próximo ano deriva do cenário de estabilização do juro básico (Selic). Se o mesmo ficar estável em 10,75% ao ano e, assim, o nível real de juro permanecer no nível de 5,5% ao ano (abaixo, portanto, das desconfortáveis taxas de 8% ou 9% vigentes em passado não distante), o volume de crédito à pessoa física pode crescer mais 14% sobre 2011, além do impressionante incremento de 23% previsto para este ano em relação a 2009.

O conceito de crédito à pessoa física abrange, entre outras, as modalidades de crédito consignado, pessoal e aquisição de veículos.

Mas, como dito no início deste artigo, a confirmação do cenário requer, antes de tudo, que as condições externas não sejam objeto de piora mais significativa. O mundo econômico-financeiro atual sustenta-se em um intrigante ambiente de equilíbrio instável, em que eventos de maior impacto - como uma crise fiscal na Europa, a eclosão de pequeno surto de inadimplência em bancos chineses ou uma alta consistente dos juros americanos - pode suscitar drásticas alterações nas rotas financeiras globais.

Em casos desse tipo, em que a temperatura sobe e a pressão aumenta, o Brasil terá de operar com velhos e conhecidos parâmetros macroeconômicos: desvalorização da taxa de câmbio, aumento da inflação, elevação dos juros, encurtamento do prazo de financiamento, desaceleração do crescimento do produto e do emprego.

A hipótese de piora importante do cenário internacional é ainda minoritária, mas, se ocorrer, é inequívoco que a fragilidade estrutural de nosso setor externo se tornará mais nítida, provocando sérios danos em nosso infante mercado de crédito ao consumidor. Ou será que estamos efetivamente convencidos de que o Brasil é amplamente imune a intempéries dessa natureza?

SÓCIO-DIRETOR DA RC CONSULTORES

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