De onde virá o destravamento
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De onde virá o destravamento

A crise política é encalacrada, mas há alguns fatores que podem atuar na busca de uma saída

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

02 Julho 2017 | 05h00

A crise política é profunda e devastadora. É sobretudo encalacrada. Não há quem seja capaz de prever como será destravada.

O que se pode dizer é que estão em jogo pelo menos oito fatores que poderão atuar na busca de uma saída. Quais deles prevalecerão e em que proporção é coisa que não dá para prever agora. Mas dá para avaliá-los. Aí vão eles:  

 

Sobrevivência – A maioria dos políticos só pensa em como escapar do naufrágio. Votarão nas reformas e nos projetos de lei caso entendam que façam parte do seu projeto sobrevivência. Há espalhada sensação de que a maioria está no mesmo barco. Na hora em que deve prevalecer a ordem de mulheres e crianças primeiro e o resto depois, difícil contar com alguma solidariedade. E, no entanto, uma saída exigirá um mínimo de coesão política. 

 

Acordão – O sonho de consumo dos políticos é a amarração de um acordão geral por meio do qual possam se livrar de acusações de uso de caixa 2, de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e outras coisas mais. A sustentação das bases do governo no Congresso, a sobrevivência do presidente Temer e a aprovação das reformas são incertas e instáveis. Sabe-se lá do que dependem.

  

Novas surpresas da Lava Jato – Ninguém sabe quais serão e que impacto terão novas delações premiadas e novas denúncias tanto da Operação Lava Jato como de outras instâncias do Ministério Público e da Justiça. Delas dependem a capacidade de resistência do presidente Temer, de quem estiver com ele e, também, os novos passos da oposição. 

 

A voz rouca das ruas – Toda grande mudança política não dispensa forte participação da população. Mas as manifestações estão em baixa e o povão parece cansado da crise, como ficou comprovado nesta sexta-feira com a baixa adesão aos atos de protesto. Perderam sentido discursos contundentes como o de que “o impeachment foi golpe” e o de que “a Lava Jato é seletiva”. Apesar da baixíssima aprovação, não há quem se anime nem sequer a bater panelas para um “fora Temer”. Falta saber se essa situação é temporária, quando serão retomadas as condições para mobilizações de massa e quais serão seus gritos de guerra. 

 

O Supremo e seus imponderáveis – A atuação algumas vezes confusa e rachada lança dúvidas sobre o que pode decidir o Supremo Tribunal Federal e até que ponto se pode esperar da sua capacidade de atuar tanto como poder moderador quanto como organismo definidor de novos procedimentos. No mais, já não se sabe o que seja prova contundente de crime e quando as evidências devem ser desprezadas para que prevaleça o mínimo de estabilidade.  

 

Regras para 2018 – Até o final de setembro deverão entrar em vigor as regras para as eleições gerais de 2018, em atendimento à exigência da Constituição de que devam ser fixadas pelo menos um ano antes. Depois que ficaram proibidas as contribuições de empresas para campanhas é preciso ver como serão as novas condições de financiamento e quem poderá ser candidato a quê. Sem novas fontes, os políticos mais conhecidos deverão levar vantagem sobre aqueles que precisarão mostrar a cara e apresentar-se pela primeira vez ao eleitor.

 

O comportamento da Economia – A solução da crise depende em grande parte de que a crise da política não contamine a economia que hoje opera relativamente descolada. O tombo da inflação, contas externas cada vez melhores, reservas de US$ 370 bilhões, o show do agronegócio, a retomada dos leilões de concessão contrabalançam em parte um quadro geral em que predomina o desemprego de 13,8 milhões, a recessão que já dura três anos e a deterioração das contas públicas. O risco é o de que tudo desande se voltar a inflação e a corrida ao dólar. 

 

O fator tempo – Tudo se passa como se os políticos não levassem em conta a necessidade de urgência para encontrar uma saída. A reforma da Previdência vai sendo desidratada e adiada, o prazo está curto demais para tudo, sobretudo para a definição de regras para as eleições de 2018.  

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É muito enrosco junto e muitas coisas dependem umas das outras. Levante a mão quem tenha clareza sobre como se desenrolará esse processo.

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