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De que lado Campos Neto está?

Sabatina serviu de palanque dos senadores mais do que para conhecer novo chefe do BC

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2019 | 04h00

A sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado para confirmar Roberto Campos Neto ao cargo de presidente do Banco Central deu poucas pistas sobre como será a política monetária sob sua gestão, especialmente em um ambiente em que as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano vêm sendo reduzidas e a inflação segue surpreendendo para baixo.

Aliás, a inflação foi um tema secundário ou, melhor, de quase nenhum interesse dos senadores, que focaram suas perguntas em assuntos tão díspares como o spread bancário e a competição (ou a falta dela) entre os bancos, o crescimento das fintechs, a redução dos depósitos compulsórios, a política de subsídios bancados pelo Tesouro Nacional e as reservas internacionais.

Houve até uma discussão acalorada entre os senadores sobre a Previdência rural. Como sempre, a sabatina serviu mais de palanque para os senadores do que uma oportunidade de conhecer mais a fundo o que pensa o novo chefe do BC.

Nas poucas declarações sobre temas que envolvem a política monetária, Campos Neto seguiu na linha da continuidade da sinalização que vinha sendo dada por Ilan Goldfajn, seu antecessor. O novo presidente do BC repetiu a expressão “cautela, serenidade e perseverança” na condução da política monetária, além de destacar a importância no avanço de reformas, em especial a da Previdência, para a redução das incertezas.

A primeira conclusão que se pode tirar desse discurso de continuidade é: se Campos Neto não disse nada que pudesse indicar que faria algo diferente do que a atual gestão do BC vem fazendo, é provável que na primeira reunião do Copom a ser presidida por ele, marcada para os dias 19 e 20 de março, não somente a taxa Selic será mantida em 6,50%, como também o teor do comunicado que acompanha a decisão permanecerá praticamente idêntico ao da última reunião.

Mesmo porque, até a próxima reunião do Copom, há o feriadão do carnaval e é pouco provável que a reforma da Previdência – um catalisador importante para as decisões do BC sobre os juros ao longo deste ano – consiga avançar muito nas próximas semanas a fim de alterar o cenário para a inflação e a política monetária.

É verdade que, em seu pronunciamento na CAE, Bruno Serra Fernandes, indicado para o cargo de diretor de política monetária do BC, deu uma ênfase marginal maior à atividade econômica do que à inflação quando disse que “entramos em um processo de recuperação resiliente, mas que tem se mostrado até o momento também bastante gradual”.

Alguns analistas chegaram a interpretar essa declaração de Fernandes como “dovish”, jargão financeiro em inglês para caracterizar uma postura mais frouxa em termos de política monetária. Mas, sem uma explicação mais elaborada sobre o tema, fica difícil o mercado formar uma opinião sólida e clara sobre a postura do novo comando do BC em relação ao balanço de riscos.

Por enquanto, o que se pode dizer da sabatina de Campos Neto é que sua gestão promete ser de continuidade mais do que de revolução nas diversas políticas adotadas pelo BC, incluindo a Agenda BC+.

Isso não quer dizer que os investidores terão de ficar no escuro até a próxima reunião do Copom para saber mais sobre o que pensa Campos Neto. É muito provável que ele, após ter sido confirmado no cargo, comece a dar entrevistas e que as perguntas sejam mais específicas e aprofundadas sobre temas como a recuperação mais lenta do que o esperado da economia brasileira neste ano, a dinâmica da inflação em patamar abaixo da meta do BC e a aprovação tardia – ou não – de uma reforma da Previdência mais ou menos robusta.

Como desde a indicação de seu nome para a presidência do BC, no fim do ano passado, Campos Neto não fez nenhuma declaração pública sobre temas macroeconômicos – ou mesmo em encontros privados com participantes do mercado financeiro –, o que ele falará em entrevistas poderá ter grande impacto nos preços dos ativos. Isso porque, diante da recuperação lenta da economia e da inflação bem comportada, crescem as apostas para corte da taxa de juros. Muitos, todavia, acreditam que não há espaço para isso. A dúvida é: de que lado está Campos Neto?

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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