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José Roberto Mendonça de Barros
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De relógios a robôs, a indústria avança

A indústria relojoeira suíça é um caso clássico de como um país com custos unitários de mão de obra elevada, comparativamente a países como a China, e câmbio valorizado conseguiu não só recuperar presença no cenário global, como aumentou o valor adicionado por unidade produzida. Essa recuperação se deu no início dos anos 80, liderada pelo Swatch Group, um conglomerado industrial com faturamento líquido anual consolidado em 2014 da ordem de US$ 9 bilhões, cujo acionista controlador é a família Hayek. Com a introdução do relógio a quartzo de baixo custo no mercado, em grande escala por produtores japoneses, no fim da década de 60, a indústria relojoeira suíça passou por uma grande crise, de modo que centenas de pequenos fabricantes fecharam suas portas. As empresas maiores não encerraram suas atividades, mas estavam altamente endividadas com os principais bancos locais.

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2015 | 02h04

Nicolas Hayek (1928-2010), um libanês naturalizado suíço graduado em matemática e física em Lyon (França), especializado em reengenharia de empresas e que, por sinal, trabalhou por um curto período na Volkswagen do Brasil como consultor, foi convidado pelos grandes bancos suíços para inicialmente reorganizar algumas marcas de relógios e empresas produtoras de peças e componentes - que estavam agrupadas em duas holdings, SSIH e ASUAG -, e depois vendê-las. Com um detalhe, os potenciais compradores eram exatamente as empresas japonesas que inundaram o mercado mundial com relógios a quartzo de baixo custo (Seiko e Citizen).

Porém, Nicolas Hayek não só era um técnico brilhante, mas também dotado de grande visão de negócios. Em conjunto com vários investidores adquiriu 51% de uma nova holding, a SMH, fruto da fusão daquelas duas holdings. A SMH foi posteriormente transformada no atual Swatch Group. Qual era a ideia de Hayek? Combinar a alta tecnologia suíça com uma agressiva e inteligente campanha de marketing. Em 1983, foi lançado o Swatch, um relógio movido a quartzo construído com apenas 51 peças e que revolucionou o mercado de relógios de baixo preço. Os primeiros modelos custavam ao redor de 50 francos suíços. Durante muitos anos, as vendas do Swatch foram um enorme sucesso a ponto de relegar os relógios japoneses similares ao segundo ou terceiro lugares no ranking. Com a alta rentabilidade proporcionada pelo Swatch, Hayek usou os excedentes de caixa para investir gradativamente nas outras marcas do Swatch Group e adquirir marcas independentes que atuam no segmento de luxo, revitalizando e valorizando o relógio mecânico de maior valor agregado.

A indústria relojoeira suíça possui historicamente uma estrutura industrial horizontal, isto é, peças, movimentos e acessórios são fornecidos por produtores independentes e especializados. Na realidade, a fabricação de um relógio é resultado da montagem de várias peças e componentes, como ocorre na indústria automobilística. Em geral, o fabricante desenha o modelo, adquire de terceiros o movimento mecânico ou a quartzo, componentes e acessórios, monta e estampa no mostrador a sua marca fantasia.

Omega, Rolex, Cartier e Breitling, por outro lado, que atuam no mercado de luxo e produzem anualmente uma quantidade expressiva de relógios, entre 300 mil (Breitling) e 750 mil (Rolex), mantêm uma estrutura de produção altamente verticalizada, desde a concepção do modelo até a montagem final do relógio, adquirindo de terceiros alguns componentes, cujo custo não justifica ter produção própria.

A introdução do CNC-Controle Numérico Computadorizado na indústria relojoeira proporcionou expressivos ganhos de escala e tornou as peças e componentes mais resistentes, precisos e confiáveis. A robótica também está presente na indústria relojoeira suíça, seja na produção de algumas peças que envolvem fundição e gravação, seja na movimentação de peças e materiais nos estoques.

A recente flutuação do franco suíço mostrou uma valorização inicial superior a 20% frente ao euro, mas que acabou suavizada para a faixa de 10%. O impacto na indústria deverá se dar de duas maneiras: as marcas com custo de produção fortemente denominado em francos suíços, com grande volume de unidades produzidas, promoverão uma pequena elevação de preços, porque há espaço para isso, apesar do custo fixo nas suas unidades ser proporcionalmente maior do que no resto da indústria. Nas empresas menores, muito tradicionais e que também atuam no segmento da alta relojoaria, as margens são maiores e devem ajustar o preço de venda para cima somente para os modelos mais vendidos.

A evolução do setor relojoeiro suíço é um excelente exemplo da grande variedade de estratégias que estão sendo seguidas pela indústria, em todas as regiões do globo. A ordem é avançar, tendo a eficiência, a produtividade e a qualidade como ponto de partida.

Existe uma revolução de materiais e de energia em andamento. Novos equipamentos, como impressoras em 3D e robôs tem um uso cada vez mais generalizado.

Em 2014, a Federação Internacional de Robótica estimou que, pela primeira vez, a demanda global ultrapassou a marca de 200 mil máquinas (225 mil). China e Coreia lideraram o mercado com, respectivamente, 56 mil e 39 mil equipamentos, seguidos por Japão e Estados Unidos, com 25 mil unidades cada, e a Alemanha, com 20 mil. Esses países representaram três quartos do mercado global.

Mais e melhores máquinas trabalharão em sistemas integrados (a internet das coisas), com saltos na qualidade, redução de custos e melhores produtos.

Finalmente, será cada vez maior a integração da indústria e serviços, alterando e alavancando os modelos de negócios.

*ARTIGO ESCRITO COM FÁBIO ANDERAOS DE ARAÚJO, ECONOMISTA, ESPECIALISTA NA INDÚSTRIA RELOJOEIRA SUÍÇA E EDITOR DO WWW.THEMECHANICALWATCH.COM

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