De repente, a baixa do dólar
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De repente, a baixa do dólar

Apesar das incertezas que pairam sobre a economia brasileira, o dólar tem se desvalorizado frente ao real

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2022 | 05h01

Agasalho é para quando faz frio. Com o dólar, também. Se aumentam as incertezas na economia, a tendência é buscar refúgio nas moedas estrangeiras e só fazer o caminho inverso quando tudo estiver melhor.

Mas agora parece acontecer o contrário. Embora tanta coisa por aqui aponte para mais incertezas e para a busca de porto seguro, o comportamento do câmbio mostra mais oferta de dólares do que procura.

Há semanas, as cotações do câmbio interno engataram marcha à ré. O dólar, que começou o ano a R$ 5,57 para venda, fechou na sexta-feira a R$ 5,24. Só neste início de 2022, a moeda americana já encostou nos R$ 5,17 e acumula queda de 5,98% ante o real.

Não é preciso esticar a conversa sobre as ameaças que pairam sobre a economia brasileira: é a perspectiva de forte deterioração das contas públicas, especialmente se os políticos decidirem aumentar os subsídios aos combustíveis; é a renitência da inflação; a perspectiva de baixíssimo crescimento do PIB; e é a temporada esperada de solavancos, hoje difíceis de pré-avaliar, que vêm à medida que as eleições se aproximam.

O afluxo de dólares aumentou, carregado por três canais. O primeiro tem a ver com operações especulativas. É a chegada de dólares para serem trocados por reais no câmbio interno e automaticamente aplicados em títulos de renda fixa que voltaram a render juros generosos. 

Alguém poderia objetar que os juros internos começaram a subir em março e, no entanto, só na virada do ano produziram efeito no câmbio. Por quê? É que essa mudança de tática por parte do investidor leva algum tempo para ganhar relevância.

O segundo canal que traz esses dólares extras é a necessidade de capital de giro por parte de exportadores que reduziram a tomada de empréstimos no mercado interno, onde estão mais caros, e os substituíram por entrada dos dólares que vinham sendo mantidos no exterior.

O terceiro canal que trouxe moeda estrangeira para o Brasil compõe a percepção de que os ativos brasileiros, entre os quais os da Bolsa Brasileira (B3), estavam baratos e que convinha comprá-los.

Não dá para saber até onde vai a baixa do dólar em relação ao real. As incertezas estão aí e podem aumentar. Além disso, os grandes bancos centrais, especialmente o Fed (o banco central dos Estados Unidos), começarão o processo de aumento dos juros e isso pode reduzir a atratividade das aplicações em reais. A crise da Ucrânia pode ter um desfecho desestabilizador. E sabe-se lá quantas besteiras mais o governo pode aprontar para tentar melhorar suas condições eleitorais.

Ou seja, não dá para contar indefinidamente com o agasalho do dólar em tempo de calor.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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