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Wesley Siqueira saiu do Peixe Urbano para trabalhar no grupo Guararapes em plena quarentena FOTO: arquivo pessoal

De startups ‘cool’ para varejistas com décadas de estrada

Empresas tradicionais que resistiam ao home office decidiram se adaptar para contratar novos funcionários que trabalharão à distância

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2020 | 05h00

Em meio à quarentena, a busca por profissionais de tecnologia continua aquecida. Mesmo empresas tradicionais que sempre resistiram ao home office decidiram se adaptar para contratar novos funcionários que trabalharão à distância por um futuro ainda indefinido.

Foi no dia da determinação da quarentena em Florianópolis, onde vive, que Wesley Goulart Siqueira, 38 anos, tomou a decisão de sair da startup de cupons Peixe Urbano, empresa em que trabalhava havia 8 anos. Ficou sabendo da vaga na Guararapes, dona da Riachuelo. Em questão de dias, participava do processo seletivo. “Meu medo era ter de viajar a São Paulo para fazer entrevista e ter de entrar em quarentena”, lembra.

Isso não foi necessário, pois todo o processo de contratação foi online. A entrevista de emprego foi por telefone. E o envio dos equipamentos necessários para iniciar as atividades ocorreu rapidamente, mesmo com as restrições ao transporte rodoviário. Apesar de exercer uma função de coordenação – gestão de sistemas –, Wesley não tem, por ora, previsão de mudar-se para São Paulo, onde fica a sede da empresa. “A Riachuelo não tinha tradição de trabalhar em home office, mas se adaptou de forma rápida. Para mim, uma das coisas que contaram foi a oportunidade de trabalhar em uma transformação digital de um negócio.”

Demissão inesperada

Embora atuando em um setor em que há escassez de mão de obra, o início da quarentena foi tenso para a publicitária Maitê Peres Gonçalves, 28 anos. Ela foi surpreendida ao ser demitida do banco digital C6, no início do mês passado. 

O período de desemprego, no entanto, foi bem curto: 15 dias depois, foi chamada para trabalhar na Via Varejo, dona da Casas Bahia e do Ponto Frio. Maitê é UX writer e escreve textos de telas de aplicativos. “Muitas pessoas foram dispensadas do C6 e passaram a ser sondadas por outras empresas.”

A maior dificuldade, para ela, é trabalhar à distância no emprego novo. Ela começou a trabalhar no início de maio e, assim como Wesley, da Guararapes, ainda não colocou os pés na nova empresa. 

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Profissional de tecnologia troca startup por empresa tradicional em meio à crise

Onda de demissões em empresas iniciantes, como a unicórnio Gympass e o banco digital C6, tem levado profissionais do setor, habituados a escolher onde trabalhar, a assumir posições nas empresas tradicionais em busca de maior segurança

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2020 | 05h00

Em um país que mesmo antes da pandemia de coronavírus tinha desemprego próximo de 12%, a falta de mão de obra em tecnologia permitia que esses profissionais pudessem escolher onde trabalhar. Essa vantagem competitiva não deve desaparecer no longo prazo – na semana passada, a consultoria McKinsey divulgou estudo prevendo que o Brasil terá escassez de 1 milhão de trabalhadores no setor até 2030. Mas, no curto prazo, com milhares de demissões em startups por causa da pandemia de coronavírus, até esse grupo passou a valorizar o fator segurança. E muitos estão trocando startups por companhias tradicionais. 

O presidente da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), Amure Pinho, admite a ofensiva de grandes negócios por trabalhadores formados nas 13,5 mil empresas nascentes do País. “Muitas startups tiveram de demitir e isso colocou muita gente competente à disposição das companhias que buscam acelerar seus projetos digitais”, afirma. Entre as empresas que estão aproveitando os dias de isolamento social para tentar “virar a chave” para o digital estão Grupo Boticário, Guararapes (controladora da Riachuelo) e Via Varejo (dona da Casas Bahia).

O trabalho de quem “caça” esse tipo de profissional foi facilitado pelas circunstâncias, segundo Luana Castro, responsável pela área de TI na consultoria de recursos humanos Michael Page. Segundo estudo da consultoria, a demanda por profissionais se estende por todos os níveis hierárquicos – de analistas que recebem a partir de R$ 4 mil a executivos de ciência de dados que podem ganhar quase R$ 30 mil. E ela diz que a busca de empresas tradicionais por esses profissionais está compensando o fechamento de vagas em startups. “Essas pessoas não têm problemas em se recolocar. Isso não mudou”, ressalta a executiva.

Nova realidade no mercado

O que mudou, segundo a especialista, foi a disposição em ouvir propostas de negócios tradicionais. “Antes, era comum o profissional nem retornar o contato. Agora, está todo mundo conversando.” Demissões em startups como a unicórnio Gympass, a Max Milhas e o banco digital C6, obrigaram esses profissionais a mudar de postura. “O fator segurança passou a entrar na conta”, diz Luana, da Michael Page.

Com 50 vagas abertas em TI, o banco Bexs é uma espécie de “mix” de empresa tradicional e startup, uma vez que mais recentemente se especializou principalmente em processar pagamentos de produtos e serviços comprados no exterior, apesar de ter 30 anos de estrada. O presidente do Bexs, Luiz Henrique Didier Júnior, afirma que hoje está “um pouco mais fácil” de encontrar profissionais. “Antes, disputava a preferência com as startups. Agora, minha briga é com as grandes empresas tradicionais.”

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Mão de obra chega para ‘virada’ online do varejo

Entre as empresas que estão roubando profissionais de startups estão o Grupo Boticário e as donas da Riachuelo e da Casas Bahia

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2020 | 05h00

Enquanto a maior parte das lojas está fechada por causa do combate à epidemia do coronavírus, os departamentos de recursos humanos seguem na ativa nos bastidores para contratar centenas de profissionais de tecnologia para colocar em pé projetos digitais de gigantes do comércio tradicional. E estão conseguindo atrair profissionais que até pouco tempo atrás atuavam em startups. 

A Guararapes, dona da Riachuelo, montou em 15 dias um novo aplicativo de venda online. A solução permite a venda por celular, WhatsApp e por meio de uma rede de clientes criada por funcionários. Segundo o diretor executivo de tecnologia e inovação da empresa, Carlos Eduardo Alves, isso só foi possível porque, mesmo nesse período de isolamento social, a companhia continua com o pé no acelerador quando o assunto é RH.

No ano passado, a Guararapes adicionou 438 trabalhadores para à equipe. E, ao longo de 2020, planeja mais 140 contratações. “As pessoas estão em busca da segurança de empresas mais estabelecidas. Só não está mais fácil ainda de contratar porque várias grandes companhias estão indo a mercado para tirar projetos online do papel”, diz o executivo. Ou seja: a Guararapes agora disputa essa mão de obra com seus pares. 

A gigante de eletroeletrônico, por exemplo, Via Varejo contratou 200 profissionais em plena quarentena. A companhia acelerou o processo de transformação digital iniciado no fim do ano passado. “Com a pandemia, decidimos acelerar os planos”, diz Rosi Purceti Balabram, diretora de pessoas e performance. A gigante tem ido atrás de profissionais que trabalhavam em startups. 

A dona da Casas Bahia e Ponto Frio trabalha atualmente em nada menos de 400 estratégias para se tornar mais digital. “Estamos na contramão da crise. Queremos sair dela mais fortalecidos. Por isso, aceleramos nossos planos”, diz Rosi. A Via Varejo tenta recuperar o terreno perdido para o Magazine Luiza, sua concorrente direta e referência em atuação digital no varejo brasileiro.

O Grupo Boticário tem mais de 3 mil lojas, mas também está focado no desenvolvimento de soluções online. A expansão da área de inovação consumirá R$ 300 milhões e resultará em 200 contratações. Entre os projetos atuais está a construção de um novo app para as revendedoras porta a porta. Hoje, 37% das receitas da companhia já têm origem do segmento digital.

Captação de talentos 

Durante a pandemia, as varejistas têm feito ofensivas para captar pessoas que trabalhavam em negócios digitais. Foi o que ocorreu com Tatiane Fukuda, de 39 anos. Ela trocou a startup especializada em logística Loggi pela Via Varejo em plena quarentena. 

Com experiência em desenvolvimento de softwares, Tatiane recebeu uma proposta para ser chefe da área de qualidade de software das lojas físicas e do e-commerce da Via Varejo. 

A executiva começou a trabalhar na semana passada. “Foi muito rápido. “Não vejo a Via Varejo como uma empresa tradicional. Ela busca acelerar sua transformação para avançar sobre o concorrente”, ressalta.

A Via Varejo, aliás, virou negócio de família para Tatiane. Seu marido deixou uma startup de educação pela varejista. Em tempos de coronavírus, os dois trabalham juntos – e de casa.

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