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De tombos, quedas e trambolhões

As turbulências no mercado de ações chinês não são, necessariamente, presságio de uma derrocada econômica. Mas levantam questões que vão muito além das fronteiras do país asiático

The Economist

03 Setembro 2015 | 16h43

Geralmente é das autoridades monetárias a tarefa de acalmar as bolsas de valores em momentos de pânico. Na semana passada, porém, algumas horas depois da eclosão de um pandemônio que tivera início na Ásia, espalhava-se pela Europa e ameaçava levar de roldão o mercado americano, o CEO da Apple, Tim Cook, resolveu intervir. "Posso garantir que em julho e agosto continuamos a registrar forte crescimento em nossos negócios na China", escreveu ele em e-mail endereçado ao canal de notícias financeiras CNBC. "Continuo acreditando que a China representa, a longo prazo, uma oportunidade sem precedentes."

Quando Cook chegou à conclusão de que era importante vir a público e dizer o que pensava da situação da segunda maior economia do mundo, as perspectivas do país asiático estavam sob fogo pesado. Depois de algumas semanas andando de lado, a bolsa de valores de Xangai sofrera uma queda formidável. O governo chinês, a que até então eram atribuídos poderes quase mágicos para fazer crescer a economia, dava a impressão de não saber onde havia posto a varinha de condão. Aumentavam as suspeitas de que o período de expansão econômica superlativa - que já dura décadas, apesar de ter perdido ímpeto nos últimos tempos - talvez estivesse chegando ao fim. Assim, a notícia de que os consumidores chineses continuavam dispostos a adquirir novos iPhones e relógios ultramodernos serenou os ânimos de uma maneira que pronunciamentos e mais pronunciamentos oficiais de Pequim não teriam podido fazer.

Passado o susto, os investidores tentam olhar para além das encomendas de iPhone, a fim de aquilatar o real estado da economia chinesa - e mundial. Em termos de impacto global, uma "aterrisagem forçada" da China corresponderia hoje a uma depressão (período de recessão grave e prolongada) da economia americana. Nos últimos anos, diversos países, de Austrália a Angola, enriqueceram escavando seus subsolos e mandando para a China as riquezas que encontraram debaixo da terra. Do segmento de automóveis ao de artigos de luxo, inúmeras empresas passaram a procurar a China para expandir seus negócios. A economia do país asiático tem oferecido a contribuição mais estável ao crescimento da economia mundial. Mas, vai continuar assim?

Há motivos, não resta dúvida, para se acreditar que a China passa por dificuldades. As exportações estão em baixa; os empréstimos problemáticos, em alta; e o setor industrial encontra-se em seu momento mais frágil desde a crise financeira global de 2007-8. Sem nunca terem inspirado muita confiança, os anúncios feitos pelo governo chinês, indicando que a economia estaria crescendo a um ritmo de 7% ao ano, agora são recebidos com sarcasmo.

Ainda mais alarmante é a maneira como esses pontos de tensão parecem estar se manifestando no mercado financeiro chinês. Em 11 de agosto, o banco central da China pegou os investidores de calças curtas ao desvalorizar o yuan, cuja cotação é "guiada" por meio de intervenções regulares da autoridade monetária. Num único dia, a moeda registrou variação superior à que costuma ter na maior parte dos meses. A desvalorização parece ter sido consequência de uma mudança técnica na administração do câmbio. Mas, por um problema de comunicação, muitos entenderam que se tratava do primeiro tiro numa guerra cambial de proporções mundiais. De lá para cá, o nervosismo tomou conta do mercado. Somada ao pessimismo dos investidores com as perspectivas da economia chinesa, a desvalorização fez com que as saídas de capital disparassem.

E ainda há a carnificina diária nas bolsas de valores. O governo chinês despejou pelo menos 1 trilhão de yuans (US$ 156 bilhões) no mercado, comprando ações para tentar estabilizá-las. Foi em vão: os papéis voltaram a cair, e com mais virulência ainda. O receio é que esse turbilhão seja reflexo de falhas mais profundas nos alicerces da economia chinesa e que o edifício inteiro corra risco de desabamento.

Quer dizer que chegou a hora da crise chinesa? É pouco provável. Mesmo com a economia da potência asiática enfrentando problemas graves, o tumulto financeiro é enganador. Faz tempo que as bolsas chinesas são vistas como meros cassinos, e com razão. Proporcionalmente ao tamanho da economia do país, elas são pequenas, correspondendo, em valor transacionável, a um terço do PIB da China. Nos países desenvolvidos, a correspondência é superior a 100%. Em outras palavras, entre as ações e os fundamentos da economia, a relação é tênue. Quando, nos doze meses encerrados em junho, elas triplicaram de valor, isso não era reflexo de uma melhora fantástica nas perspectivas de crescimento econômico. Da mesma forma, o colapso de agora não é consequência de uma súbita deterioração da conjuntura.

Os chineses investem menos de 20% de seu patrimônio pessoal ou familiar em ações; a alta do mercado pouco fez para estimular o consumo; sua queda, agora, pouco fará para desaquecê-lo. É bem verdade que os investidores contraíram muitos empréstimos para comprar ações quando as coisas iam bem, e algumas dessas dívidas dificilmente serão pagas. Mas os valores comprometidos com operações de crédito desse tipo representam apenas 1% do total de ativos dos bancos - um impacto potencial que, por desagradável que seja, nem de longe tem caráter sistêmico.

O fato é que, na economia chinesa, o mercado imobiliário é muito mais importante do que o acionário. As garantias sobre as quais se amparam o sistema financeiro são compostas, em sua ampla maioria, de imóveis residenciais, terrenos e propriedades rurais, que também desempenham papel muito mais decisivo no estímulo ao crescimento. Acontece que a profusão de manchetes pessimistas sobre as ações acabou por relegar a um segundo plano uma série notícias dando conta do reaquecimento do mercado de imóveis. Faz três meses que os preços dos imóveis residenciais estão em alta em toda a China. E, dois meses depois da primeira queda das bolsas de valores, a tendência continua ascendente.

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Faz tempo que as bolsas chinesas são vistas como meros cassinos
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Infelizmente, são reduzidas as chances de que isso venha a se traduzir numa aceleração significativa do setor de construção civil, já que as incorporadoras chinesas ainda precisam se livrar do excesso de imóveis acumulados durante a febre de construção dos últimos anos. De qualquer forma, a estabilização dos preços contribui para diminuir o risco de um crash do mercado imobiliário - algo que, para a China, teria consequências tão funestas quanto um crash do mercado de ações nos Estados Unidos ou no Japão.

De fato, há quem pense que a China já sofreu a aterrissagem forçada tão temida pelos economistas. Esses observadores chamam a atenção para a fragilidade presente numa ampla gama de indicadores físicos, usados como medidas alternativas para acompanhar o crescimento do PIB chinês, tendo em vista a reduzida confiabilidade dos dados governamentais. O volume de cargas transportadas pelo sistema ferroviário caiu, o consumo de eletricidade é anêmico e os preços no atacado estão atolados na deflação. Some-se isso tudo, dizem os céticos, e o crescimento chinês não parece passar de 2% ou 3% anuais.

Essa avaliação macambúzia resulta de uma simplificação excessiva da economia chinesa. A indústria pesada do país está, sem sombra de dúvida, em apuros. A região nordeste, onde se concentram as siderúrgicas, encontra-se à beira da recessão. Mas a China é um país continental, e sua economia não é impulsionada apenas pela construção de casas e ferrovias. O setor de serviços, cuja fatia do PIB atualmente supera a do setor industrial, tem tido crescimento acelerado. As vendas no varejo continuam sólidas, como Cook, da Apple, fez questão de salientar. É quase certo que o crescimento efetivo da economia chinesa seja inferior ao divulgado pelo governo, mas parece estar num intervalo capaz de garantir uma aterrissagem suave.

Além disso, se os mercados voltarem a ser sacudidos por turbulências, a China têm como administrá-las. Na terça-feira, o banco central chinês cortou os juros e reduziu o depósito compulsório dos bancos. Mesmo com essas medidas - as mais recentes do ciclo de afrouxamento monetário iniciado no fim do ano passado -, a taxa básica de juros ainda é de 4,6% ao ano, e a alíquota do compulsório para os grandes bancos está em 18%. Tudo indica que a autoridade monetária chinesa continuará a cortar ambos os índices, reduzindo os custos de financiamento para os tomadores de empréstimos e aumentando o volume de recursos que os bancos têm à disposição para ofertar crédito. São instrumentos a que a maioria das economias ocidentais já não pode recorrer.

Do lado fiscal, apesar de todo o falatório sobre a adoção de medidas de "mini-estímulo", o governo chinês vem se comportando com admirável frugalidade. A meta estabelecida para 2015 corresponde a um déficit de 2,3% do PIB, pouco acima da meta do ano passado. Mas, até o mês de julho, as contas públicas estavam no azul, com a arrecadação superando os gastos do governo.

Pondo ordem na baderna. Mesmo que a China consiga segurar as pontas agora, resta o receio de que o país enfrente uma desaceleração mais acentuada à frente. Os desafios envolvidos na administração da economia não são pequenos. O governo ainda tenta pôr ordem na baderna de endividamento deixada pelo pacote de estímulo de 2009, quando uma onda colossal de investimentos foi implementada para debelar os efeitos da crise financeira global.

Alguns cálculos indicam que o endividamento atingiu mais de 250% do PIB, tendo praticamente dobrado ao longo dos últimos sete anos. Aumentos dessa magnitude foram prenúncio de crises em outros países, do Japão à Espanha. Ao mesmo tempo, algumas tendências estruturais estão se voltando contra a China.

Sua população economicamente ativa, por exemplo, começou a encolher.

Diversas reformas poderiam ajudar a China a explorar novas fontes de crescimento: permitir a competição em pé igualdade entre empresas privadas e estatais; promover o respeito às leis para que os empresários tenham mais confiança na hora de investir; e relaxar os controles de residência que restringem o livre fluxo de sua população. No momento, porém, essas mudanças vão de encontro à necessidade que o Partido Comunista, de forma reflexiva, tem de impor limites à sociedade chinesa.

O turbilhão dos últimos dois meses deixou muita gente sem saber se há no governo chinês propensão, ou mesmo capacidade, para implementar reformas. Apesar de todos os defeitos do sistema político do país asiático, era comum que os observadores externos enxergassem nos líderes chineses muita competência para produzir crescimento rápido e eliminar riscos. Agora a opinião não é tão consensual.

A reação desastrada do governo à queda nas bolsas de valores causou sério abalo a essa aura de competência. As autoridades proibiram as vendas a descoberto e suspenderam as ofertas públicas iniciais de ações; operadores do mercado e jornalistas estão sendo alvo de investigações, por serem suspeitos de disseminar boatos. Empresas estatais recompraram suas ações. O banco central emprestou recursos a uma agência que se comprometeu a fazer o mercado subir de novo. A imprensa estatal garantiu que a "escrete nacional" triunfaria. Não triunfou. O mercado caiu ainda mais, corroendo as reservas do governo, bem como sua credibilidade.

Mais dia menos dia, as bolsas de valores da China vão se reerguer, e é possível que o fiasco da desvalorização cambial acabe se tornando apenas uma memória distante; mas o prejuízo político será duradouro. Os episódios das últimas semanas levantaram dúvidas perturbadoras sobre o compromisso das autoridades chinesas com as reformas de mercado que se fazem necessárias para garantir a saúde de longo prazo da economia do país. Um estranho editorial publicado há alguns dias no Diário do Povo, jornal que faz as vezes de porta-voz do Partido Comunista, afirma que, embora a intenção original do presidente Xi Jinping fosse fazer reformas profundas, ele encontrou resistências "maiores do que se poderia imaginar". Há quem desconfie que antigas lideranças do Partido estão lançando uma reação contra Xi, cuja campanha anticorrupção o transformou no líder chinês mais poderoso desde Deng Xiaoping. Outros dizem que a questão é que, temerosos com a campanha anticorrupção, os funcionários públicos cruzaram os braços, com medo de fazer o que quer que seja.

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O turbilhão dos últimos dois meses deixou muita gente sem saber se há no governo chinês propensão, ou mesmo capacidade, para implementar reformas.
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As mais importantes autoridades governamentais e partidárias evitaram falar sobre o caos que varreu os mercados, fomentando especulações sobre a existência de divergências no topo da hierarquia do regime. É provável que o primeiro-ministro Li Keqiang, que supervisionou a tentativa fracassada de oferecer sustentação ao mercado de ações, seja bastante alvo de críticas.

O próprio Xi dificilmente escapará de questionamentos. Ao contrário da maioria de seus antecessores, que deixaram a economia sob o comando de primeiros-ministros, o atual presidente se envolveu profundamente na tomada de decisões econômicas. Xi coordena órgãos criados com a missão de formular propostas de reformas econômicas e financeiras. É difícil, portanto, que ele consiga se esquivar de ser responsabilizado quando as coisas dão errado.

Se, depois de alguns meses de instabilidade, a China conseguir levar adiante sua agenda de reformas, o país ainda estará em condições de realizar a incrível façanha de abrir e modernizar sua economia sem sofrer uma crise mais grave. Mesmo que seja bem-sucedida nisso, porém, haverá consequências negativas para outros países. A economia chinesa está se reequilibrando, ainda que lentamente, e vem deixando para trás o modelo de crescimento baseado em investimentos para adotar um modelo de crescimento alimentado pelo consumo. O país ainda tem muitas casas, estradas e aeroportos para construir, mas é evidente que o foco não será mais esse.

Um novo equilíbrio. Em razão disso, é provável que a demanda do país por commodities tenha atingido seu ápice e nunca mais volte aos níveis observados ao longo da última década. E isso é uma má notícia para as empresas e os países que prosperaram nesse período, vendendo montanhas de minério de ferro, cobre e carvão para os chineses. O declínio no consumo da China terá consequências gigantescas: o país absorve cerca de metade de todo o alumínio, níquel e aço - e quase um terço do algodão e do arroz - produzidos no planeta.

Pode-se argumentar que, para algumas economias emergentes, a perspectiva de uma desaceleração chinesa ainda é menos problemática do que a realidade da retomada do crescimento americano. A anemia generalizada que pautou a recuperação dos países ricos depois da crise financeira de 2007-8 garantiu anos e anos de taxas de juros extremamente baixas. O estímulo monetário foi impulsionado por medidas de "afrouxamento quantitativo" (QE, na sigla em inglês) - compras de títulos com o intuito de tornar ainda mais frouxa a política monetária. Com a rentabilidade dos títulos deprimida nos Estados Unidos, os investidores, à procura de retornos mais satisfatórios, saíram à caça de títulos dos mercados emergentes.

Os dias de dinheiro americano barato parecem contados. O programa de QE do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) foi encerrado no ano passado, e a autoridade monetária americana agora cogita elevar a taxa de juros pela primeira vez desde 2006. Essa possibilidade levou ao fortalecimento do dólar, que, ao longo dos últimos dois anos, teve valorização média ponderada de 17%, na comparação com as moedas de seus parceiros comerciais, e se valorizou ainda mais que isso ante as moedas dos mercados emergentes.

É uma mudança para lá de drástica, já que as expectativas de elevação dos juros nos Estados Unidos são apenas modestas. De qualquer forma, o capital já começou a deixar os mercados emergentes. Se, e quando, o Fed elevar os juros, os investidores passarão imediatamente a repatriar mais recursos.

Os países mais vulneráveis a tal revés da fortuna são os que exibem déficits em conta corrente relativamente grandes - em outras palavras, aqueles que recorrem ao capital estrangeiro para cobrir a diferença entre o que gastam e o que faturam em suas transações externas. Por sua vez, os países mais expostos às mudanças na economia chinesa são os exportadores de commodities que fornecem a matéria-prima para as vigas de aço e os tubos de cobre em que se apoiou o boom da construção civil no país asiático.

O Brasil sofre dos dois lados. A desvalorização do real frente ao dólar foi de quase um terço no ano passado, e chega a quase 50% quando se toma como referência o mês de maio de 2013, quando o Fed sugeriu pela primeira vez que pretendia interromper seu programa de aquisição de títulos de dívida - causando um pequeno tremor de terra nos mercados emergentes, apelidado, à época, de "taper tantrum" (expressão que, com alguma liberdade, pode ser traduzida como "manha do desmame"). O banco central brasileiro elevou os juros para 14,25%, a fim de combater a inflação causada pela desvalorização do real. A economia do país está em recessão. Secou o investimento em mineração e na exploração de petróleo.

As moedas dos países vizinhos cujas economias são igualmente dependentes das exportações de commodities, como Argentina e México, também sofreram forte desvalorização em relação ao dólar. Entre as moedas dos mercados emergentes, só o rublo - abalado pelo colapso nos preços do petróleo e pelas sanções estabelecidas por conta da atuação da Rússia na crise da Ucrânia - tem desempenho pior que o dos "tatus" latino-americanos. Malásia e Indonésia, duas nações exportadoras de commodities geograficamente próximos da China, também foram colhidas pelo vagalhão de investidores se desfazendo de posições em suas moedas.

Depois de dois anos de mercado francamente vendedor, essas moedas começavam a parecer baratas na comparação com benchmarks convencionais. Isso não impediu, porém, que elas caíssem ainda mais nas últimas semanas, quando se agravaram as preocupações com a economia chinesa. O peso colombiano, o ringgit malaio e o rublo foram algumas das moedas que mais sofreram perdas na semana passada.

A terceira (e não exatamente desejável) cesta de ovos. Apesar de ser uma exportadora de commodities, a África do Sul, em razão de deficiências em seus sistemas de transportes e de geração de energia, pouco se aproveitou do boom de matérias-primas dos últimos anos. É um país que, junto com a Turquia, se encaixa melhor na categoria de mercados emergentes que são prejudicados por dependerem de capitais especulativos para financiar grandes déficits em conta corrente. Suas economias apresentam tendências inflacionárias e baixos níveis de poupança interna. Também têm em comum a propensão a ir bem quando os fluxos globais de capital são abundantes e a enfrentar dificuldades nos momentos em que, como agora, os investidores começam a ser mais criteriosos na hora de escolher onde amarrar o burro.

Ironicamente, alguns dos países que vêm se mostrando mais resistentes às últimas turbulências financeiras são aqueles que têm os mais fortes laços comerciais com a China, como Coreia do Sul, Cingapura e Taiwan. Todos eles exibem sólidos superávits em conta corrente e reservas cambiais saudáveis, de modo que não precisam se preocupar com eventuais fugas de capitais causadas pela elevação dos juros nos Estados Unidos. E, por serem importadores líquidos de matéria-prima, beneficiam-se da queda nos preços das commodities.

Não obstante isso, suas moedas sofreram quedas depois da desvalorização do yuan, em meados de agosto, e em suas economias começam a aparecer algumas rachaduras. Em Cingapura, o crescimento do PIB está abaixo de 2%, o menor ritmo nos últimos três anos. Levantamentos com gerentes de compras sinalizam queda na produção industrial em Taiwan e na Coreia do Sul.

Além disso, em todos os países asiáticos, os preços no atacado estão em queda, indicando que suas indústrias ostentam excesso de capacidade instalada. Na China, esses preços recuam sem parar há 41 meses; na Coreia do Sul e em Taiwan, o declínio já dura 35 meses e, em Cingapura, 31 meses, observa Chetan Ahya, do banco Morgan Stanley. A queda nos preços faz com que as empresas enfrentem mais dificuldades para pagar as dívidas contraídas quando, com a economia ainda de vento em popa, resolveram ampliar sua capacidade de produção.

Na Índia, apesar das outras fontes de pressão inflacionária, os preços ao produtor estão em queda. O país é um dos poucos mercados emergentes que atravessam um bom momento. Seus laços comerciais com a China não são tão extensos como o de outras economias asiáticas e, por serem importadores líquidos de petróleo, os indianos tiram vantagem dos preços baixos da commodity (causados mais pelo excesso de produção na Arábia Saudita e nos Estados Unidos, do que pelos tropeços da economia chinesa). Seu vice-ministro de Finanças fala até mesmo em pegar o bastão do crescimento acelerado da China. O perigo é que esse tipo de bravata seja indício de uma falta de disposição para implementar as reformas de que a Índia tanto precisa, mas que não parecem sair do lugar.

Com grande parte do mundo emergente em dificuldades, alguns analistas começam traçar paralelos com a crise asiática de 1997-98. No entanto, muitos dos fatores que contribuíram para a violência daquela trombada e para a brutalidade com que a recessão subsequente se abateu sobre os emergentes asiáticos não estão presentes hoje. Os ausentes mais célebres são as âncoras cambiais - instrumento muito popular em meados da década de 90. A ilusão de estabilidade cambial que elas ofereciam levou a um acúmulo de dívidas denominadas em dólar. Quando o influxo de capitais secou, as âncoras se romperam. As moedas asiáticas perderam rapidamente valor, elevando o custo das dívidas em dólar a níveis estratosféricos.

Atualmente, é muito maior o número de países emergentes que operam com câmbio flutuante. Diferentemente do que aconteceu em 1997, as recentes levas de capital que se transferiram dos países ricos para os mercados emergentes, foram aplicadas, sobretudo, em títulos denominados em moeda local. Os estrangeiros detêm entre 25% e 50% do estoque de títulos públicos no Brasil, na Turquia, na África do Sul, na Indonésia, na Malásia e no México. Por algum tempo, o impulso por trás dos fluxos de capital significava que os investidores dos países desenvolvidos desfrutavam de um ciclo virtuoso de títulos de dívida em alta e moedas valorizadas. Agora esse ciclo se tornou vicioso, mas foram as moedas (e, por conseguinte, os compradores, não o emissores dos títulos), que absorveram a maior parte do ajuste. Hoje, os países emergentes dispõem de reservas cambiais muito mais fornidas e saldos em conta corrente mais saudáveis - do que nos anos 90.

Isso explica por que não se nota no mais recente tombo sofrido pelos mercados emergentes a severidade da crise de 1997-98. Mas, pelo menos num aspecto, ele é mais preocupante. O peso dos mercados emergentes no PIB mundial é muito maior hoje, em grande medida por conta da dimensão assumida pela economia chinesa. Um crescimento menor na China agora é sentido com mais intensidade nos países ricos. Portanto, não deixa de ser motivo de inquietação o fato de que, no primeiro semestre deste ano, o comércio internacional tenha sofrido sua maior queda desde 2009.

Há ainda outra diferença em relação ao fim dos anos 90. Nos últimos tempos, a busca por rentabilidade em lugares exóticos levou alguns dos fundos de pensão dos países ricos às paragens mais remotas do universo de investimentos: os mercados de "fronteira", que costumam ser mais pobres e contam com sistemas financeiros menos desenvolvidos do que a maioria dos países emergentes. Foi em países africanos ricos em recursos naturais que essa fronteira se mostrou mais agitada. Países que pouco tempo antes haviam se livrado do fardo de endividamentos excessivamente dispendiosos, viram-se, de uma hora para a outra, em condições de contrair empréstimos a juros baixos, ainda que em dólar. Dezesseis países da África subsaariana já emitiram esse tipo de título em moeda estrangeira, diz Stuart Culverhouse, da corretora Exotix. Com as receitas das commodities em queda, talvez não seja muito fácil saldar essas dívidas. Empresas que contraíram empréstimos em dólar podem enfrentar problemas similares - incluindo algumas companhias chinesas, cujas emissões foram realizadas por meio de obscuros arranjos offshore.

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é provável que a demanda da China por commodities tenha atingido seu ápice e nunca mais volte aos níveis observados ao longo da última década
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Exatamente quando os tombos, quedas e trambolhões provocados pelo fim do dinheiro fácil vão parar de acontecer é algo que depende muito do Fed. Antes da semana passada, os mercados acreditavam que eram de 50% as chances de que os juros americanos subiriam em setembro; agora essa probabilidade está mais perto de 25%. Figurões como o ex-secretário do Tesouro americano Larry Summers e o presidente do Fed de Nova York Bill Dudley já se mostram céticos quanto a uma elevação no mês que vem.

Nada impede, porém, que o Fed vá em frente e aumente os juros. A economia dos Estados Unidos está bem protegida contra o choque chinês: só 8% das exportações americanas, o equivalente a 0,7% do PIB, têm como destino a China. Ao falar sobre o momento ideal para subir os juros, a presidente do Fed, Janet Yellen, geralmente concentra sua atenção no mercado de trabalho americano, e não nas agruras de economias distantes. Se os dados sobre a situação do emprego, a serem divulgados em 4 de setembro, mostrarem forte crescimento nos postos de trabalho, é bem capaz que o Fed ignore a volatilidade dos mercados internacionais e suba os juros.

Depois da "manha do desmame" de 2013, o "pega-pra-capar" da alta dos juros sempre esteve no horizonte das possibilidades. Isso afetou todos os mercados emergentes - incluindo a China. O crash da bolsa de Xangai não foi um sinal de que a economia chinesa está à beira do precipício. Apesar disso, as autoridades de Pequim escolheram uma má hora para jogar fora boa parte da credibilidade que haviam conquistado: perderam o título de mãos mais seguras da economia mundial.

© 2015 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Da Economist.com, traduzido por Alexandre Hubner, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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