De volta à realidade

Quarta-feira foi Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que entendeu ser necessário pregar mais cautela para o resto do mundo. Advertiu que a crise não acabou, que o desemprego pode aumentar, que há muita indigestão financeira a enfrentar.Ontem foi a vez de Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu (BCE) de admitir que a situação da área do euro está bem pior do que a que predomina no epicentro da crise, os Estados Unidos, uma vez que o tombo do PIB do bloco não será de apenas 2,7%, como antes se previa, mas de 4,6%, com ameaça de aumento do desemprego.Há algumas semanas havia uma espécie de euforia no ar. As apostas em que a economia mundial estivesse em franca recuperação se multiplicavam em todo o planeta. A velocidade com que os capitais abandonaram os refúgios de segurança em busca do risco mostrou isso. Agora, os presidentes dos dois maiores bancos centrais do mundo se viram na obrigação de trazer os agentes econômicos de volta à realidade.A euforia anterior foi uma reação ao restabelecimento do princípio de que nenhuma instituição capaz de provocar risco sistêmico pode quebrar. Em setembro do ano passado, esse pacto informal entre os dirigentes dos países avançados foi rompido quando o então secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, deixou que o banco de investimentos Lehman Brothers fosse à falência. Os resultados foram catastróficos. De lá para cá, não quebram mais nem grandes bancos de depósitos (caso do Citigroup), nem sociedades de crédito imobiliário (caso do Northern Rocks), nem seguradoras de porte (AIG), e nem mesmo grandes empresas (GM e Chrysler). Enfim, a sensação de que não há mais grandes riscos a temer trouxe alívio e, além disso, a percepção de que aventuras financeiras voltaram a ser autorizadas.A intervenção do Estado está custando caro. Só o Fed enfiou US$ 2 trilhões no mercado financeiro americano. O Tesouro dos Estados Unidos está rodando um déficit público que, neste ano, deverá ultrapassar o US$ 1,8 trilhão. O alto custo pode não ser o maior problema. Há coisas mais graves a temer. Existe o risco de que novas bolhas estejam sendo assopradas e, mais do que isso, há a possibilidade de que um turbilhão inflacionário possa estar em formação.Agora, quem está chamando o resto do mundo de volta às leis da vida é Bernanke, o presidente do Fed. E isso não deixa de ser contraditório, na medida em que Bernanke foi até agora quem mais inundou os mercados com alta liquidez, quem mais usou o arsenal do seu banco central para financiamentos então condenáveis numa autoridade monetária e foi quem mais veio apregoando o princípio de que grandes instituições não podem quebrar. Por aí se vê que o momento não é mais de enaltecer a pronta, agressiva e eficiente intervenção do Estado no combate ao incêndio. A ocasião é de procurar o limite para isso e a maneira de restabelecer o princípio, hoje suspenso, de que as escolhas têm de garantir retribuição. Se forem acertadas, terão o prêmio merecido. Se forem equivocadas, terão o castigo, também merecido. ConfiraCara e focinho - O gráfico mostra como a curva de valorização do real coincide com a dos preços da soja. Assim, o câmbio parece mais relacionado com os preços das commodities do que com a evolução dos juros.

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