De volta ao câmbio flutuante

Uma combinação de eventos gerou forte deterioração da percepção dos investidores sobre a economia brasileira

José Marcio de Camargo, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2018 | 04h00

Após um longo período de estabilidade, os últimos 30 dias foram particularmente voláteis para os ativos financeiros no Brasil: forte desvalorização do real, aumentos expressivos das taxas de juros e queda dos preços das ações. Na origem deste processo está a percepção de que a economia americana está entrando em um período de superaquecimento. Com taxas de desemprego historicamente muito baixas, começa a se formar um consenso entre os analistas de que será necessário que o Federal Reserve aumente mais rapidamente as taxas de juros para evitar pressões inflacionárias persistentes.

Com o aumento das taxas de juros o dólar tem se valorizado em relação a outras moedas, principalmente em relação às moedas dos países emergentes, inclusive o real.

Ao mesmo tempo, uma infeliz combinação de eventos gerou forte deterioração da percepção dos investidores sobre a economia brasileira. Diante da desvalorização da taxa de câmbio, o Copom, em sua última reunião, decidiu manter a Selic constante, apesar de ter sinalizado que iria reduzi-la. A percepção dos investidores foi de que o Banco Central (BC) estaria mais preocupado com o nível do câmbio do que com a inflação.

A ata da reunião tentou reverter esta percepção, assegurando que, como o regime é de metas para a inflação, a taxa de câmbio não é um objetivo em si. Entretanto, a explicação não convenceu os investidores. Apesar de a taxa de inflação estar abaixo do piso do intervalo de metas, a inflação de serviços continuar em queda e as expectativas para a inflação, ancoradas, o mercado já precifica forte aumento de juros nas próximas reuniões do Copom, ao mesmo tempo que o ataque contra o real se intensificou. Um comportamento mais próximo de um regime de câmbio controlado do que de metas para a inflação.

A greve dos caminhoneiros e, em especial, a reação tardia, confusa e frágil do governo ao bloqueio das estradas geraram desabastecimento, mal-estar generalizado e forte desaceleração da economia. A ameaça de intervenção nos preços dos combustíveis piorou o ambiente de negócios e sinalizou para os investidores que a não interferência nos mercados, anunciada pelo governo como uma de suas principais diferenças em relação ao governo anterior, poderia ser revertida em momentos de crise.

Com isto, a expectativa de que a retomada da economia e a redução do desemprego pudessem alavancar uma candidatura presidencial comprometida com as reformas estruturais indispensáveis para o equilíbrio fiscal, o crescimento da economia e a manutenção de baixas taxas de inflação parece ter se perdido. Ainda que as pesquisas eleitorais não mostrem movimentos amplos em qualquer direção, para os investidores aumentou a probabilidade de que um candidato não comprometido com as reformas vença as eleições.

Trazer de volta a taxa de câmbio para o jogo, ainda que não intencionalmente, e a greve dos caminhoneiros abriram uma caixa de Pandora que precisa ser fechada. A pergunta é como fazê-lo. Do ponto de vista do Banco Central, duas opções se colocam. 

A primeira, é promover um forte aumento da Selic para tentar segurar a desvalorização cambial. Aumentos marginais dificilmente conseguirão atingir este objetivo. Seria voltar a um regime de câmbio controlado. A nosso ver, um tiro no pé.

A segunda opção seria reagir apenas se e quando as expectativas ameaçarem desancorar e os efeitos de segunda ordem começarem a se fazer sentir (como o BC se comportou em 2016). Hoje, ao contrário de episódios anteriores, a principal âncora para a inflação é a inflação de serviços, que depende basicamente da dinâmica do mercado de trabalho, em especial da taxa de desemprego e do processo de formação dos salários, sendo secundariamente afetada pela desvalorização cambial. Seguir essa linha seria retirar novamente o câmbio do jogo e sinalizar ao mercado que o regime de câmbio flutuante será mantido, mesmo em momentos de estresse.

PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO E ECONOMISTA DA OPUS INVESTIMENTOS

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