De volta aos anos 80

Análise: Sergio Vale

É ECONOMISTA-CHEFE DA MB ASSOCIADOS, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h05

Quando não existe planejamento de longo prazo, quando as palavras reforma e privatização são demonizadas, quando o governo passa a fantasiar taxas de crescimento robustas, parece que estamos inexoravelmente de volta aos anos 80. Já estávamos conformados com o retorno vigoroso aos anos 70, mas o governo não precisava ir tão longe e tentar repetir a "pacoteira" década seguinte.

Vamos tirar desse retorno apenas a hiperinflação, que desorganizava a economia e impedia qualquer planejamento por parte das empresas. Mas, incrivelmente, o governo está conseguindo, sem o aumento sistemático de preços, bagunçar novamente o planejamento das empresas. Parece cada vez mais que o trabalho arduamente conquistado de dar previsibilidade para a economia está esmorecendo.

Reformas econômicas mudam a perspectiva de longo prazo da economia. A criação de agências reguladoras, por exemplo, junto às privatizações, deu sinais de garantia de investimentos para diversos setores. O aumento da competitividade teve o mesmo papel, como vimos na Petrobrás.

Mas pacotes são fenômenos de curto prazo, feitos para estimular a economia naquele momento, quando muito. E dá-lhe redução indiscriminada de IPI para os que conseguirem ser ouvidos pelo governo. Ou então que se encha o BNDES de mais recursos do Tesouro.

Simplesmente não crescemos, hoje, por dois fatores. Primeiro, a crise europeia, cujo pior ainda não aconteceu, joga contra a expectativa de investidores e do setor financeiro, que trava novos projetos. Segundo, não temos reformas profundas desde o segundo ano do governo Lula. Países que mantiveram um padrão constante de reformas conseguiram crescer muito mais do que nós, e não precisamos ir longe para exemplificar. Basta ver Colômbia, Peru e o eterno exemplo chileno. Quem foi para o lado de mais intervenção estatal está vendo a economia afundar, vide Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador. Nossa posição hoje é em cima do muro, mas cada vez mais o governo parece olhar o modelo destes últimos como interessante. A insistência em pacotes intervencionistas que selecionam setores ganhadores leva o setor privado a uma nociva e autodestrutiva dependência do Estado.

Ao insistirmos na miopia de política econômica, retrocedemos, perdemos espaço para países que estão seguindo o caminho correto. Mas talvez desse retorno aos anos 80 possamos esperar que mais a frente a ficha caia e alguém passe a repetir o bom legado reformista dos anos 90. Que ela apenas não se repita como farsa, como tem sido feita até agora.

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