Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

De volta aos trilhos

O investimento privado em ferrovias deve ganhar embalo

The Economist

21 de dezembro de 2015 | 03h00

Como categoria de ativo, as ferrovias têm um histórico perturbador. Na Grã-Bretanha, durante a década de 1840, a coqueluche das estradas de ferro fez com que muitos investidores incautos amargassem prejuízos vultosos. O episódio merece lugar de destaque entre as maiores bolhas especulativas da história. Mas, como nos últimos anos as ações e os títulos de crédito vêm sendo negociados a preços proibitivos, aumentou o interesse por ativos “alternativos”. Além disso, estão para ser implementadas modificações legais que facilitam a execução de garantias que fazem piuííí. 

Assim, é possível que em breve os investidores voltem a pôr dinheiro em locomotivas e vagões de passageiros e carga.

Atualmente, é bastante reduzido o investimento privado em ativos ferroviários – consequência, em parte, do fato de que, em todo o mundo, a maioria das estradas de ferro está nas mãos do Estado. Segundo novo estudo da consultoria Roland Berger, dos € 10,8 bilhões (US$ 14,4 bilhões) gastos entre 2011 e 2013 com locomotivas e vagões na Europa, 87% saiu dos cofres públicos. Tamanha dependência em relação ao Estado significa que os investimentos no setor são irregulares e espasmódicos, acontecendo quando há recursos disponíveis, não quando são necessários. Na Romênia, por exemplo, a estatal ferroviária ainda mantém em circulação locomotivas a vapor fabricadas há 60 anos.

A escassez de recursos públicos precipitou a desregulamentação. Na União Europeia (UE), o quarto pacote de reformas do setor ferroviário tem por objetivo a liberalização completa de todos os mercados domésticos até 2019. Não devem faltar operadoras interessadas. O transporte de passageiros tende a gerar um faturamento estável, mesmo quando a economia local sai dos trilhos (o transporte de cargas é mais suscetível a trombadas em caso de desaceleração econômica). Além do mais, a participação do setor privado se dá por meio das chamadas parcerias público-privadas, que normalmente incluem uma garantia de retorno.

Por sua vez, a desregulamentação deve estimular o crescimento de companhias que oferecem leasing de locomotivas e vagões para operadoras, diz Howard Rosen, do Rail Working Group, associação que representa o setor ferroviário.

Foram empresas com esse perfil que impulsionaram a expansão das companhias aéreas de baixo custo nos anos 90, desobrigando-as dos gastos com aquisição de aviões novos. Há um bom número de bancos e outras instituições dispostos a investir nisso.

Até o momento, o investimento privado no setor era desestimulado pela insegurança associada aos ativos ferroviários, que são de difícil identificação e se deslocam facilmente entre fronteiras, de uma jurisdição para outra. A convenção sobre garantias internacionais incidentes sobre equipamentos móveis, conhecida como Convenção da Cidade do Cabo, é um tratado internacional que garante aos credores segurança jurídica para a eventual retomada de bens de capital que cruzam fronteiras — mas o grosso de suas normas diz respeito a aeronaves. Agora, um aditamento ao tratado, em vias de ser ratificado, institui um sistema similar para ativos ferroviários. As cláusulas adicionais criam um registro centralizado de números de série — algo que já existe para aviões, mas não para os itens que compõem um trem. Isso deve reduzir riscos e custos para os investidores privados.

O protocolo já foi ratificado pela EU e aguarda a validação de seus países-membros. Nações de fora da Europa também devem assiná-lo. De fato, as oportunidades são ainda maiores na América Latina e no Sudeste Asiático, onde o investimento privado é quase inexistente, embora as ferrovias sejam mais necessárias que nunca. É pouco provável que os ativos ferroviários voltem a ser a coqueluche do mercado, mas o sinal para o capital privado talvez esteja prestes a ficar verde.

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