Adriano Machado/ Reuters
Adriano Machado/ Reuters

Debate econômico perdeu o rumo e está ao sabor da improvisação, irresponsabilidade e oportunismo

O que se vê é o vale-tudo de uma cacofonia de disparates desconexos, que o País, atônito, nem sequer consegue acompanhar

Rogério L. Furquim Werneck*, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2021 | 04h00

Já não há como ter ilusões. O debate que norteia a condução da política econômica no País desandou de vez. Já não há compromisso com a sensatez nem busca persistente de racionalidade e coerência. O que se vive é um clima de vale-tudo em que, sem qualquer sinal de constrangimento, membros do governo, parlamentares bem posicionados e líderes empresariais se permitem defender, à luz do dia, propostas completamente estapafúrdias, ao sabor da improvisação, do oportunismo e da irresponsabilidade.

Nem sempre foi assim. Basta ter em mente três momentos distintos da história recente do País: o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, a parte inicial do primeiro mandato de Lula e o governo Temer. Em cada um desses períodos havia uma equipe econômica de alto nível, com respaldo inequívoco do presidente da República, apta a formular e manter um discurso claro e coerente, capaz de pautar não só o resto do governo, como a bancada governista no Congresso. Não é que não tenha havido incidentes nesses três períodos. Claro que houve, e muitos. Mas a impressão que se tinha é de que o debate permanecia quase todo o tempo nos trilhos.

Talvez não seja uma coincidência que os três períodos mencionados tenham sido precedidos de situações críticas bastante sérias, que deram lugar a governos vacinados, ao menos temporariamente, contra a improvisação na condução da política econômica: a crise cambial do início de 1999, a crise de confiança de 2002 e o descalabro deixado por Dilma Rousseff, em 2016. FHC, Lula e Temer – cada um a seu modo – tinham tido visões aterradoras do abismo.

Num país de memória tão curta, já estamos de volta às estripulias à beira do despenhadeiro. A equipe econômica já não conta com o mesmo apoio que teve de início. E já não consegue manter narrativa estruturada que possa pautar o discurso do resto do governo ou da bancada governista no Congresso. Muito pelo contrário, o que se vê é o vale-tudo de uma cacofonia de disparates desconexos, que o País, atônito, nem sequer consegue acompanhar.

Não há, aqui, espaço para explorar em detalhe o que há de pior neste festival de despropósitos. Para começar, basta prestar atenção nas propostas irresponsáveis de alteração da já irresponsável PEC dos Precatórios, para torná-la passível de ser aprovada no Senado. E se inteirar das ideias sem pé nem cabeça que vêm sendo brandidas – do Planalto ao Congresso – contra a preservação do alinhamento de preços internos de derivados de petróleo a preços internacionais. Um verdadeiro circo de horrores. 

* ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE HARVARD, É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

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