Debate: o Banco Central deve subir o juro para controlar a inflação?

SIM

O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2015 | 09h40

*Alessandra Ribeiro

Infelizmente, o remédio é amargo, mas a direção da política monetária está correta. É fato que uma parte da conta a ser paga, especialmente neste ano, advém da própria leniência do Banco Central (BC) com a inflação. Entre 2011 e 2014, o IPCA médio foi de 6,2%, mesmo com todo o represamento das tarifas, com destaque para energia elétrica, gasolina e transporte público.

Neste ano, a inflação está sendo afetada não só pelo “desrepresamento” dos preços administrados, mas também pela depreciação do câmbio que afeta a dinâmica dos preços livres. A Tendências projeta alta de 15,2% para o conjunto de preços regulados, o que inclui a expectativa de elevação de 57% nos preços de energia elétrica. Diante desses ajustes, o IPCA deve subir 8,9% este ano, 2,4 pontos porcentuais acima do teto da meta. Nesse contexto, ao elevar a taxa de juros, o BC está tentando limitar a propagação desses ajustes de preços, tendo em vista o objetivo de entregar a inflação na meta de 4,5%. 

A política monetária atua por meio de três canais: expectativas de inflação, taxa de câmbio e atividade econômica. É fato que, para um BC com praticamente a mesma equipe e o resultado entregue no passado, a batalha com as expectativas é mais árdua. O BC precisa sustentar um tom bem mais duro no combate à inflação, acompanhado de medidas concretas como a elevação da Selic, em contraposição ao que seria necessário a um BC com credibilidade.

Sem sombra de dúvida que há custo e ele é elevado. A atividade tem de enfraquecer ainda mais e o desemprego aumentar. Mas é melhor que isso seja feito agora para concentrar o “pagamento da conta” no curto prazo, criando condições para a economia reagir mais à frente.

Ainda que a convergência para o centro da meta ao fim de 2016 seja pouco provável, o BC deve ser bem-sucedido no sentido de entregar uma inflação bem menor, de 5,4%, o que embute uma expectativa de desaceleração de preços livres de 7% para 5,3% ao fim de 2016. A inflação deve convergir para a meta em 2017, o que abre espaço para o início do ciclo de queda dos juros a partir de meados do próximo ano.

*É ECONOMISTA E SÓCIA DA TENDÊNCIAS

CONSULTORIA INTEGRADA.

NÃO

*Fabio Silveira 

Não A eficácia da atual política de controle da inflação brasileira deve ser questionada. Novos acréscimos dos juros básicos em pouco contribuirão para levar o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) a convergir para o centro da meta anual de inflação (4,5%) em 2016. 

Nos últimos 25 meses, a taxa básica de juros, a Selic, avançou 6,5 pontos porcentuais, atingindo o patamar de 13,75% ao ano. Nesse mesmo intervalo, a expectativa de inflação para os próximos 12 meses subiu de 5,6% para 6,1%. A ideia de focar o controle dos preços apenas na utilização crescente da restrição monetária chegou ao limite.

Concentradora de renda, a contínua majoração da Selic vem perdendo eficácia. Pior. No lugar de apontar para baixa consistente dos preços, vai comprometer a recuperação econômica esperada para 2017! Cabe um alerta: o PIB brasileiro, em 2015, já está fadado a ter queda da ordem de 2%, a maior desde 1990; e, no próximo ano, deve crescer menos do que 1%. 

O mais razoável é interromper o atual ciclo de aperto monetário e esperar os efeitos contracionistas das últimas majorações de juros sobre a demanda agregada. Isso porque, além da relativa estabilidade cambial observada desde março, a perspectiva de novo aprofundamento da recessão será inócua para aliviar parte da alta dos preços. Principalmente, daqueles que continuam submetidos à lógica da indexação, majorados com base na inflação passada e retroalimentando a inflação futura. 

Há muitos preços, tarifas e contratos que são corrigidos pela variação anual do IGP (Índice Geral de Preços), cuja elevação é provocada, em boa medida, por choques de oferta agrícola (secas) e de energia (racionamentos).

Ao mesmo tempo, é fundamental que as autoridades monetárias adotem uma agenda de ações de curto, médio e longo prazos, procurando desmontar, paulatinamente, a utilização dos mecanismos de indexação que há quase 60 anos vicejam no sistema brasileiro de preços. O cumprimento dessa “missão” exigirá muita criatividade e perseverança. E convém ser iniciado agora. 

*DIRETOR DE PESQUISA ECONÔMICA DA GO

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