Decisão a comemorar

A rejeição da indicação do embaixador Guilherme Patriota para representar o Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA) é um marco importante na história diplomática recente do País. Longe de ser mera manifestação de antipatias pessoais, ou reação à alegada arrogância do embaixador, foi decisão que terá implicações sobre a política externa, ou pelo menos deixará o Itamaraty mais cauteloso em futuras indicações ao Senado.

MARCELO DE PAIVA ABREU, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2015 | 02h05

No plano mais geral, o incidente pode ter marcado o início de reorientação da política externa na esteira de outros "arrependimentos" que vêm marcando o segundo mandato de Dilma Rousseff. O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, sempre insistiu na relação estreita que existia entre o modelo econômico lulista e a sua política externa. Com o passar do tempo foi ficando óbvio que, no modelo econômico lulista, corrupção e inépcia na condução da política econômica eram características que dominavam, de longe, a legítima preocupação redistributiva. Não parecia razoável que a reorientação da política econômica e o repúdio da "nova matriz macroeconômica" a partir do início de 2015 continuassem a conviver com as posturas audazes e retrógradas, vendidas como provas de altivez, que ganharam corpo na diplomacia brasileira a partir de 2003.

Em meados do ano passado já havia ocorrido um prenúncio do que estava por vir. Marco Aurélio Garcia e o senador Ricardo Ferraço (PMDB), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa do Senado, haviam trocado farpas tendo como foco o peso relativo do Itamaraty e da assessoria internacional da Presidência e os muitos erros e poucos acertos da política externa brasileira em relação aos vizinhos liderados por diferentes matizes de populismo de esquerda. A resposta de Garcia às críticas pareceu a muitos despropositada e culminou na acusação de que o parlamentar estaria se "escondendo sob o manto da imunidade parlamentar".

O embaixador Patriota serviu sob as ordens de Garcia na Assessoria Especial da Presidência da República. Comunga com seu chefe ideias equivocadas sobre a política externa, mas em formulações ainda mais desabridas. Em artigo em O Globo de 8/7/2012, defendeu com denodo a suspensão do Paraguai e a incorporação da Venezuela no Mercosul. Reivindicou monopólio de patriotismo ao pontificar que "a mania de diminuir o Brasil só pode ser medo de um país grande dar certo". Criticou a diplomacia "menos arrojada de antanho" e, também, os supostos órfãos da Alca - uma ideia fixa de Garcia -, surpreendendo-se "que ainda existam pessoas que prefiram reduzir tarifas a reduzir pobreza". Será que ninguém o ensinou no Instituto Rio Branco que reduzir tarifa pode reduzir pobreza?

Causa surpresa que, com esse retrospecto, o Itamaraty tenha julgado conveniente encaminhar o nome de Guilherme Patriota ao Senado. Seria o primeiro embaixador na OEA desde 2011, quando o embaixador Ruy Casaes foi removido em protesto pelas pressões relacionadas às questões ambientais relativas a Belo Monte. Certamente o cardápio de temas a ser tratados futuramente na OEA envolveria os que foram objeto do embate Garcia-Ferraço. A despeito do conhecido talento articulador do ministro Mauro Vieira, a tarefa de garantir a aprovação era muito difícil. O Itamaraty e Garcia brincaram com fogo e se queimaram.

A reação de Garcia à derrota foi patética. Permitiu-se alegar que a decisão do Senado foi influenciada pela campanha macarthista de setores conservadores e da oposição. O assessor-chefe não consegue perceber que as críticas a ele dirigidas não têm que ver com a sua orientação política, mas, sim, com a inépcia da política externa por ele formulada. A menção a macarthismo é uma alegação barata para amenizar a avaliação dos danos gerados pelas políticas que preconiza. A decisão do Senado Federal deve ser comemorada.

* Doutor em economia pela Universidade de Combridge, é professor titular no departamento de economia da PUC-Rio

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