Decisão da CVM não muda tendência para Bolsa

Uma medida estabelecida pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na quinta-feira passada, permitindo que as empresas de capital aberto possam diferir o efeito da alta do dólar nos resultados financeiros de 2001 nos próximos quatro anos, fez com que a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) acumulasse uma alta de 6,30% em dois dias. Mas o resultado não significa uma reversão da tendência de baixa, segundo os analistas. O diretor da BankBoston Asset Management, Júlio Ziegelmann, avalia que a reação dos investidores com a medida não tem fundamento técnico, já que o diferimento do prejuízo não agrega valor para empresa. "O valor da companhia é o mesmo, pois ela continua gerando o mesmo lucro", explica.Para o diretor da Unibanco Asset Management, Jorge Simino, o ritmo econômico mundial no próximo ano e o impacto deste cenário no mercado interno devem ter importância maior para o mercado acionário brasileiro. "A melhora nos últimos dias foi apenas um efeito pontual da medida", afirma o diretor.Simino destaca que mesmo em um período mais curto, um mês aproximadamente, é muito difícil avaliar qual será o comportamento para a Bolsa. Ele explica que, com o dólar em patamares elevados, assim como as taxas de juros, uma recuperação da Bolsa é totalmente descartada. Os investidores optam por aplicações mais seguras e o preço das ações, assim como o volume de negócios na Bolsa, tende a cair fortemente.Economia em baixa: dólar sobe e Bolsa caiTambém o recuo do dólar nos últimos dias é considerado por Simino como um movimento momentâneo. Segundo ele, nem toda a alta acumulada é resultado apenas de especulação. "Há sim muitas incertezas em relação às perspectivas para a economia mundial e os investidores, apreensivos, aumentam o volume de dólares em carteira como forma de segurança contra outras notícias negativas", afirma. Simino acredita que um intervalo justo de variação para a moeda norte-americana, levando-se em conta os fundamentos econômicos e a dependência de capital estrangeiro em 2002, é de R$ 2,40 a R$ 2,60. Acima disso, segundo o diretor, pode ser considerado um exagero.Nos próximos meses, o comportamento para o dólar está profundamente relacionado ao cenário externo, ou seja, ao encaminhamento dos conflitos militares entre os Estados Unidos e os grupos terroristas. De acordo com Ziegelmann, o cenário menos desfavorável é uma ação norte-americana restrita a uma região, em um período curto e sem novos ataques terroristas. "Nesta situação, a confiança do consumidor norte-americano, e, em conseqüência, a atividade econômica dos Estados Unidos e de toda a economia mundial, se recuperaria mais rapidamente. Com isso, as bolsas de Nova York reverteriam a tendência atual, começando a operar em alta e a Bovespa seguiria a tendência", avalia o diretor da BankBoston Asset Management.Ao contrário, se as retaliações norte-americanas tomaram dimensões maiores, com envolvimento de regiões produtoras de petróleo, o desaquecimento econômico mundial pode aprofundar-se. Para o Brasil, isso significa atividade econômica mais fraca, pressão sobre o dólar, sobre as taxas de juros e queda mais forte na Bovespa. O cenário externo tem forte influência sobre os mercados no Brasil devido à forte dependência de capital estrangeiro - em 2002, o País precisa de US$ 50 bilhões para fechar suas contas. "Caso haja um desaquecimento mais forte da economia mundial, o País poderá ter dificuldades em atrair dólares", explica Simino.Veja nos links abaixo as perspectivas para a Bovespa, os setores menos prejudicados pelas incertezas externas e as ações mais recomendadas pelos analistas neste momento.

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