Decisão de Ottawa afetou empresa canadense que cria gado no Brasil

A Brascan, empresa canadense com presença centenária no Brasil, aliou-se ao coro de protestos contra a decisão do governo de Canadá de suspender as importações de carne do Brasil e mandar recolher o produto nos supermercados por conta de um alegado "risco teórico" de contaminação do gado brasileiro pela BSE, a chamada doença da "vaca louca". Uma alta fonte da Brascan revelou ontem ao "Estado" que a empresa enviou uma mensagem ao embaixador do Canadá em Brasília, Jean-Pierre Juneau, para "lamentar" expressar seu "espanto" diante da medida. A Brascan agiu não apenas porque tem interesse em proteger o clima de negócios entre os dois países, que ajudou a fomentar talvez mais do que qualquer companhia ao longo das décadas. (O nome Brascan é uma combinação do nome dos dois países.) Hoje, um dos negócios da Brascan que mais crescem no Brasil é a pecuária, o que torna a medida de Ottawa contra a carne brasileira um tiro no próprio pé. A empresa cria 25 mil cabeças de gado nelore em duas fazendas, em Minas Gerais e em São Paulo. Há apenas três semanas assinou o contrato de compra de mais duas grandes propriedades, na região da cidade paulista de Presidente Prudente, com o objetivo de ampliar seus negócios no setor e entrar no mercado exportador. A carne produzida pelas fazendas da Brascan é vendida no mercado interno.De acordo com uma fonte da empresa, em Toronto, a decisão apanhou os executivos da Brascan de surpresa. "Nós temos grande estima pelo Brasil e por nossa relação com o País e ficamos perplexos com a decisão, que pode, obviamente, afetar os nossos próprios negócios", afirmou um executivo. A crise criada pela decisão canadense, que colocou os dois países mais próximos do que nunca de uma guerra comercial, deverá ser um dos principais tópicos de discussão durante a reunião do conselho da diretoria da Brascan, hoje, na sede da empresa, em Toronto.Disputa bilateral - Antes mesmo do episódio da carne, Juneau, que está no momento em Ottawa, já vinha recebendo críticas à atuação do governo canadense por causa da azeda disputa bilateral em torno das políticas de subsídios oficiais à Bombardier e à Embraer. Pessoas presentes a uma reunião que Juneau teve na semana passada, em Toronto, com executivos dos setores industrial e financeiro com negócios no Brasil, representantes do Bank of Nova Scotia, da Associação Canadenses de Importadores e Exportadores e de várias empresas cobraram uma posição mais construtiva do governo de Ottawa e do próprio Juneau.Sem entrar no mérito do assunto, Nobina Robinson, diretora-executiva da Fundação Canadense para as Américas (FOCAL), uma organização não governamental que se dedica ao fomento das relações entre o Canadá e a América Latina, também lamentou a iniciativa de Ottawa contra a carne brasileira. "É supreendente que dois meses antes da Cúpula das Américas (marcada para abril, em Quebec), outros interesses em jogo não tenham entrado nos cálculos políticos das pessoas que tomaram essa decisão", disse ela. Robinson afirmou que "Juneau e os funcionários da embaixada do Canadá em Brasília procuram ter uma atuação construtiva, mas o problema está em Ottawa." As declarações do presidente Fernando Henrique Cardoso sobre o impacto negativo da ação canadense para a negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), o principal tópico da Cúpula de Quebec, aumentaram a preocupação de organizações como a Focal quanto ao resultado da reunião, que já não parecia promissor antes mesmo do curto-circuito nas relações Brasil-Canadá e será realizada sob o protesto de dezenas de milhares de manifestantes anti-globalização.

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