André Dusek/Estadão
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Decisão do Copom estará no foco das atenções na semana que vem

Expectativas estão altas para a primeira reunião do Copom após a autonomia do Banco Central

José Márcio Camargo*, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2021 | 04h00

Na próxima semana o Copom fará sua primeira reunião após a aprovação da autonomia formal do Banco Central, que concede mandatos fixos para os dirigentes da instituição, o que faz com que a autoridade monetária se torne menos vulnerável a intervenções do executivo. O resultado desta reunião será de grande importância para o futuro da política monetária, pois existem fatores que justificam a manutenção da taxa básica de juros, assim como fatores que justificam o início da normalização da política monetária, com aumento das taxas de juros.

No primeiro caso, além dos altos níveis de ociosidade e da elevada taxa de desemprego, os indicadores de atividade mostram desaceleração neste início de 2021, principalmente por causa do agravamento da pandemia, introdução de medidas de restrição à mobilidade urbana e lockdowns localizados em diferentes cidades e Estados, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.

Da mesma forma, não apenas a taxa de desemprego continua bastante elevada, apesar do forte crescimento da ocupação no segundo semestre de 2020, assim como a desaceleração da atividade deverá levar a uma redução no ritmo de geração de postos de trabalho no primeiro trimestre de 2021. Em outras palavras, não existem sinais de que a economia brasileira esteja próxima a uma aceleração inflacionária em razão do excesso de demanda, o que justificaria a manutenção da Selic nos níveis atuais.

De outro lado, existem fatores importantes que indicam a necessidade de iniciar o processo de normalização da política monetária e aumento da taxa Selic. Primeiro, o aumento acentuado dos preços das commodities em geral, inclusive do petróleo. Historicamente, como o Brasil é um grande exportador de commodities, aumentos de seus preços tendem a gerar melhora nos termos de troca do País e, em consequência, valorização da taxa de câmbio, o que, em parte, compensa os efeitos dos aumentos de preços das commodities sobre a inflação. Entretanto, por causa do elevado risco fiscal percebido pelos investidores, o reduzido diferencial das taxas de juros entre o Brasil e os países desenvolvidos e emergentes, o real tem sido fortemente pressionado, desde o início da pandemia em março de 2020. A intervenção do presidente da República na Petrobrás e a decisão do ministro Edson Fachin de anular todas as condenações do ex-presidente Lula na Operação Lava Jato agravaram este quadro de incertezas, gerando mais desvalorização cambial. A dúvida entre os investidores é se a intervenção na Petrobrás é pontual ou se indica uma mudança mais estrutural da política econômica em direção a uma estratégia mais populista, dúvida agravada com a volta do ex-presidente Lula ao cenário político-eleitoral.

Com o aumento da incerteza fiscal e a forte desvalorização do real as expectativas para a inflação em 2021 já estão acima da meta e começam a influenciar as expectativas para 2022, indicando risco de desancoragem das expectativas inflacionárias e perda de credibilidade da autoridade monetária.

A aprovação do pacote de estímulo fiscal de US$ 1,9 trilhão nos Estados Unidos e o sucesso do programa de vacinações, que tem gerado aceleração da economia americana, aumentaram as expectativas de inflação no país com consequente aumento das taxas de juros dos títulos de longo prazo do Tesouro americano, o que pressiona as taxas de câmbio dos países emergentes, inclusive do Brasil.

A evolução das expectativas para a inflação e o risco de perda de credibilidade são dois fatores fundamentais. A manutenção da taxa básica de juros em um contexto de risco de desancoragem das expectativas geraria a percepção entre os investidores de que a decisão foi influenciada por interferência política, em um momento em que a autoridade monetária acaba de ganhar autonomia operacional.

Neste contexto, apesar do elevado desemprego e ociosidade, em nossa avaliação a decisão correta é aumentar a taxa Selic em 0,5 ponto de porcentagem em sua próxima reunião.

*PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO E ECONOMISTA-CHEFE DA GENIAL INVESTIMENTOS

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