Decisão do Copom nesta 4ª não afeta economia, diz Mantega

Para ele, defasagem entre anúncio de decisão sobre juro e impacto na economia impede que isso aconteça

CÉLIA FROUFE, MARISA CASTELLANI E LUCIANA XAVIER, Agencia Estado

17 de outubro de 2007 | 14h54

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta quarta-feira, 17, que, independente da decisão que o Comitê de Política Monetária (Copom) tomar, a medida não afetará o rumo da economia brasileira no curto prazo, em função da defasagem entre o anúncio e seu impacto para a economia real, de seis a nove meses.  Veja também:Ouça a entrevista com Guido Mantega   Segundo ele, o crescimento do País é sustentável e vem sendo impulsionado pela demanda robusta e pelo investimento. "De modo que se trata de um crescimento equilibrado", afirmou o ministro ao Broadcast Ao Vivo, que comemorou nesta quarta sua milésima entrevista. Mantega disse que a demanda hoje depende muito do volume de crédito e este vem crescendo às taxas de 25% este ano em relação ao ano passado. "É uma expansão contínua de crédito que vem nos últimos quatro anos e é ela que vem irrigando a economia, potencializando a demanda agregada", afirmou, acrescentando que o crédito é o principal determinante do aumento da demanda hoje. "Qualquer que seja a decisão do Copom, se continuará reduzindo ou se dará uma parada, não afetará o nível da demanda", acrescentou. O ministro descartou também que a decisão do Comitê nesta quarta possa afetar negativamente o humor do mercado porque as reduções da taxa básica de juros do País, a Selic, ocorrem há dois anos consecutivos (o início do atual ciclo de afrouxamento foi em setembro de 2005, quando a taxa estava em 19,75% ao ano). "É uma nova realidade que estamos vivendo, com a Selic em um patamar bastante razoável, baixo, muito mais baixo do que a média dos últimos anos", afirmou.  Para ele, já é possível identificar que há disposição por parte dos coordenadores da política monetária de serem mais flexíveis e de acomodar o crescimento mais robusto da economia. "Porém, não descuidamos do controle da inflação. Conseguimos um equilíbrio entre política monetária mais flexível e crescimento mais acelerado da economia, que não gera inflação", argumentou. Na avaliação de Mantega, a elevação recente da inflação foi restrita a fatores pontuais. "É claro que houve alguns episódios nos últimos dois meses de elevação inflacionária, que foi muito bem localizada, principalmente nos alimentos", lembrou.  Para ele, no entanto, esta elevação é passageira, já está superada e ocorreu devido a fatores sazonais e questões de entressafra. Ele negou que haja um movimento de inflação estrutural na economia brasileira, mas salientou a existência de movimentos conjunturais, como a disparada do preço do leite, da carne e do trigo recentemente, que, segundo o ministro, dependem de circunstâncias da economia mundial. Mesmo com o aumento da atividade e da constante menção feita pelos diretores do Banco Central em relação ao aumento da demanda, o ministro da Fazenda minimizou seus efeitos altistas para a inflação. "Temos índices de demanda, de nível de consumo, que falam em algo de 10% de crescimento em relação ao ano passado, porém esta demanda não está gerando inflação de demanda porque, em parte, é atendida pela produção nacional", alegou.  Mantega disse que os índices mostram que o nível do uso da capacidade instalada já chegaram ao máximo e voltaram, demonstrando que o volume de investimentos feitos na economia brasileira já está surtindo efeito. "Ao mesmo tempo, temos uma economia aberta, que pode aumentar as importações", continuou, informando que o ritmo de crescimento das compras brasileiras superam os 30% ao ano. "Esta combinação de fatores não gera inflação por causa da resposta que a economia e o comércio exterior permitem que sejam dados", disse.  Energia Mantega afirmou também que o País poderá crescer 5% em média ao ano sem que haja riscos de apagões logístico e elétrico. Ele evitou fazer um prognóstico a respeito de um limite em que a expansão da atividade esbarraria em problemas de infra-estrutura, mas disse que o crescimento do Brasil é tranqüilo sob a ótica do escoamento da produção.  "Com aquilo que temos (em infra-estrutura) e o que estamos produzindo para os próximos anos poderemos crescer tranqüilamente a uma taxa de 5% (ao ano) que não faltarão energia elétrica, rodovias, ferrovias, portos e aeroportos para o transporte dessas mercadorias", afirmou.Mantega afirmou, porém, que a questão da infra-estrutura deve ser uma preocupação permanente para um país que acelera suas taxas de crescimento. "No passado, o Brasil crescia pouco e a demanda por infra-estrutura era menor. Hoje, crescemos em torno de 5% ao ano e é natural que haja uma demanda maior por estradas, ferrovias, portos, aeroportos", considerou. De acordo com o ministro, o governo tem a "real dimensão desse desafio" e resolveu vencê-lo criando o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "O PAC é um grande programa de implantação de infra-estrutura, de logística, de energia, de transportes, de tudo mais", enumerou. Mantega lembrou que o Programa prevê "mais de R$ 500 bilhões" em investimentos nos próximos quatro anos e afirmou que o setor privado terá grande participação nestes investimentos, cabendo ao governo federal, apenas "uma pequena parcela" de investimentos diretos.  Rodovias O ministro comemorou ainda o sucesso do leilão para a concessão de rodovias federais realizado este mês. "A licitação das rodovias, de 2,6 mil quilômetros, é a prova de que o governo brasileiro pretende alavancar o crescimento com investimento privado e público. Não há aquele estatismo que alguns chegaram a sugerir", afirmou, referindo-se a críticas em relação à compra da Suzano pela Petrobras, entre outras. "Está provado que queremos a participação do setor privado desempenhando serviços de utilidade pública, como no caso dos transportes", explicou. Mantega informou também que há a intenção por parte do governo de incentivar a ampliação da participação privada nos investimentos. "Este leilão (das rodovias) foi muito bem-sucedido, porque conseguimos reduzir o custo do pedágio", disse. Ele lembrou que alguns trechos chegaram a ter custo inferior a R$ 1,00 por 100 quilômetros e que este valor é "muito inferior" ao pedágio que é cobrado hoje nos pedágios implantados anos atrás. "Isso demonstra avanço no processo. Pedágio menor significa custo menor de transporte para as pessoas e as mercadorias", disse. Ele negou que esta redução da receita das empresas, em função do pedágio mais barato, possa ter como reflexo um investimento menor das concessionárias porque elas têm o compromisso em investir previsto em contrato. "Elas se comprometem a cerca de R$ 20 bilhões de investimento nos próximos 15 anos. Durante o período da concessão são obrigadas a fazer investimentos, não só manutenção (das rodovias)", explicou. Ele disse que "não há perigo" de as estradas não serem foco de atenção pelos investidores também por conta das regras rigorosas e da fiscalização que será feita pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Mantega mencionou também a licitação do Rio Madeira, que envolverá "vários bilhões de dólares", na construção de duas unidades hidrelétricas. Além disso, informou que novas rodovias passarão por processo de leilão, como ocorreu recentemente, além de licitações e leilões para linhas de transmissão e de geração de energia por parte do setor privado.  "Continuaremos a apresentar novos lotes de concessões para o setor privado, que está reagindo muito bem", avaliou. Ele enfatizou ainda que, o último leilão mostrou que a concorrência entre as empresas aumentou. "Isso é muito saudável porque quem ganha é o consumidor e toda a estrutura produtiva brasileira, com transporte mais barato e rodovias em melhor estado", considerou.  Reservas Mantega afirmou que o Ministério da Fazenda e o Banco Central estudam a criação de um fundo soberano com o objetivo de aproveitar o grande volume de reservas internacionais - que na segunda-feira estavam em US$ 162,426 bilhões. "Deveremos anunciar esse fundo dentro de 30 dias", adiantou o ministro à Agência Estado. Mais tarde, durante almoço no Grupo Estado, o ministro acrescentou que, em sua avaliação, o Brasil precisaria acumular aproximadamente US$ 180 bilhões em reservas para a obtenção do grau de investimento e o que excedesse este patamar poderia ser direcionado ao fundo. "Não chegamos ao limite (das reservas). Elas continuarão crescendo nos próximos anos", afirmou. "É uma necessidade, uma imposição, uma boa utilização dessas reservas", acrescentou. Mantega explicou que certos princípios serão observados para a implantação desse fundo, que terá de manter liquidez e segurança. "Não podemos sair por aí comprando títulos de segunda linha, mas vamos continuar comprando títulos de primeira linha totalmente seguros e que farão com que as reservas continuem sendo um fiador da baixa vulnerabilidade de que hoje o Brasil goza", ressaltou. O ministro disse ainda que não há um desenho definitivo deste fundo que está sendo estudado com conjunto com o BC, mas descartou a possibilidade de ele ser nos mesmos moldes existentes hoje na China. "A diferença deste fundo com o da China é que aquele país compra empresas e faz investimentos", disse, acrescentando que o brasileiro deverá utilizar uma pequena parcela em diversificação de aplicações financeiras. Ele descartou a possibilidade de haver investimentos em ações, mas acrescentou que compras de debêntures são viáveis. "Devemos continuar com aplicações financeiras, que indiretamente poderão alavancar investimentos produtivos", disse. Ele enfatizou que os recursos não serão aplicados em infra-estrutura, mas exemplificou como poderá ser uma forma de diversificação, citando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). "Pode-se comprar um título do BNDES e o BNDES poderá utilizar recursos para estimular investimentos fora do Brasil", exemplificou. Apesar de o fundo continuar concentrado em ativos financeiros, Mantega destacou que não há necessidade de os investimentos serem restritos aos treasuries (títulos do Tesouro americano). "Aliás, perdemos com toda essa desvalorização do dólar", salientou. Desta forma, o fundo não deve causar despesa primária. Estas aplicações serão restritas a uma parte pequena do fundo, cuja parcela ainda não foi definida. "Mas precisamos garantir o investment grade, então teremos de continuar com o crescimento do volume de reservas", destacou. Antes de ser anunciado, o projeto passará pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.   Banco do Sul O ministro disse também acreditar que a criação do Banco do Sul será benéfica à América do Sul. "O Banco do Sul não vai ser um banco para financiar aventuras", afirmou o ministro durante o almoço no Grupo Estado. No início das discussões sobre o tema, a criação do Banco do Sul não tinha o apoio do ministro, que defendia a utilização dos bancos regionais já existentes, como o BNDES.  Segundo o ministro Mantega, as empresas brasileiras são as que têm mais capacidade de investimentos na América do Sul e isso deve colocar o Brasil com posição de destaque dentro do banco.  O ministro explicou que o voto no banco deverá ser por aporte financeiro de cada País, mas lembrou que isso não deve ser um risco ao Brasil nem aos outros integrantes. Segundo ele, deverá haver uma cota padrão para fazer parte da sociedade e que se um país quiser colocar mais dinheiro no banco poderá fazê-lo não por meio de participação, mas da compra de títulos.  O Banco do Sul foi idealizado pela Venezuela com objetivo de financiar iniciativas regionais de desenvolvimento e como uma opção regional ao Banco Mundial (Bird) e ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), cujas sedes ficam em Washington. O Banco do Sul deverá ter a participação da Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai e Venezuela e deve começar a funcionar em 3 de novembro, com sede em Caracas, na Venezuela. Na semana passada, a Colômbia pediu o ingresso formal como sócio do Banco do Sul.

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