Decisão dos BCs não afetam o País

A decisão dos bancos centrais dos Estados Unidos, da Europa, da Inglaterra, da Suíça e do Canadá, de injetarem mais liquidez no mercado não surpreendeu, pois isso já havia sido acertado em meados de novembro, na reunião dos G-20, em Cape Town. Mas levantou novas dúvidas e preocupações. A interpretação dos analistas é que os bancos centrais estão reconhecendo as verdadeiras repercussões da crise no mercado financeiro que, até agora, não contaminou o desempenho da economia real. Ao mesmo tempo, a medida foi recebida com cautela. A maior parte dos analistas acredita que se trata apenas de medida provisória (o próprio Fed admite isso, no seu comunicado). Isso não aliviará as tensões por muito tempo. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos vai oferecer US$ 24 bilhões agora e, no dia 20, mais US$ 40 bilhões aos bancos centrais da Europa e da Suíça para que emprestem aos bancos - inclusive alguns americanos -, aumentando a liquidez do sistema.COORDENAÇÃO, O IMPORTANTEEra unânime entre os analistas que um dos aspectos mais importantes da medida foi o início de uma ação concentrada, que até então não existia. Agora, estão agindo e falando juntos, revelando mais agressividade ao contrário do que vinham fazendo. Era a frente única e unida que faltava."A forma de empréstimo, é uma evolução no modo de o Fed tratar a crise. Entretanto, o que é revolucionário mesmo é o nível de coordenação dos bancos centrais", comenta Drew Matus, do Lehman Brothers. Para ele, contina estranho que o Fed não tenha "simplesmente atendido à expectativa do mercado, de um redução de 0,50 ponto no juro básico, na terça-feira".Havia muitos pessimistas, "isso é apenas um paliativo", e outros otimistas. Entre estes, Brian Gendreau, do ING Investmento Management, para quem "se isso é o começo do fim da crise financeira, o crescimento (econômico) externo não será ameaçado e as pessoas irão se juntar novamente no mercado globalizado". A maioria, porém, espera ainda muita tensão por algum tempo.Resumindo, o que fizeram agora está bom, mas deve ser apenas o começo de uma nova estratégia, que começa tarde.E PARA NÓS?A última decisão do Fed de reduzir em 0,25 ponto o juro e, agora, a dos outros quatro europeus e canadense, mais capitalizados em dólares, muito pouco afeta o Brasil. Se a cotação dos títulos do Tesouro americano recuar, as captações externas brasileiras seriam beneficiadas (elas se baseiam no papel americano, mais juros) e, em caso contrário, seriam prejudicadas. Mas em ambas as hipóteses, apenas levemente. Qualquer oscilação não afetaria muito os empréstimos de empresas brasileiras feitos no exterior.DINHEIRO SEGUE ENTRANDOMais importante é que o fluxo de capitais externos deve continuar aumentando em face da grande liquidez internacional. Como grande liquidez, se com a crise imobiliária está havendo uma redução do crédito nos EUA e na Europa? Aqui, uma explicação: não está havendo falta de recursos no sistema internacional, mas, sim, o chamado "empoçamento", contenção em alguns níveis do sistema (crédito de risco ou ligado a ele). Continua havendo, porém, enormes volumes de recursos circulando pelo mundo em busca de oportunidades mais rentáveis e relativamente seguras. E o Brasil oferece ambos, lucro rápido obtido pelo diferencial entre a taxa de juro interna (elevada) e externa, (agora mais baixa,) e uma nova segurança de que o governo não vai mudar nada de uma forma para outra, como no passado.Vejam, até outubro, os investimentos diretos estrangeiros acumularam US$ 32,1 bilhões, e devem chegar a US$ 35 bilhões, em dezembro, um recorde. Nas bolsas, as aplicações estrangeiras, estimuladas por novos lançamentos, chegaram, até outubro, a US$ 19,04 bilhões ante apenas US$ 6,9 bilhões no mesmo período do ano passado. Tem mais, as aplicações de renda fixa receberam US$ 22,7 bilhões até aquele mês, lembra Daniela Milanese, da Agência Estado, em matéria na Economia do Estado, de ontem. É verdade que desde outubro os investidores estrangeiros reduziram drasticamente suas posições em ativos brasileiros, prevendo desdobramentos maiores na crise de crédito nos EUA, onde terão de cobrir perdas, mas, mesmo assim, o saldo continua positivo. Eles estão saindo não por temerem o mercado brasileiro, mas para se cobrirem no exterior. E só sairão mais se o cenário financeiro (ainda não econômico) externo se agravar muito, o que não está sendo previsto, pelo menos no momento.Muito mais importante é que o afluxo de investimentos diretos continua se mantendo, num movimento que deve virar o ano. As saídas de investimentos financeiros ainda não preocupam. Poucos esperam que o Banco Central venha a reduzir os juros na sua próxima reunião, mantendo assim a atratividade de maior renda para os investidores financeiros.Para nós, neste momento, é esperar que os bancos centrais - principalmente o americano - acertem reduzindo juros para estimular o crescimento, temendo menos uma inflação ainda não assustadora, e que as economias européia e americana, voltem a crescer e a importar. Só assim estaremos mesmo livres de grande choques a médio prazo.*E-mail: at@attglobal.net

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