Decisão pró-forma, mas unânime, abre espaço para cortes

O calendário das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) é definido no ano anterior e obedece a um critério rígido de periodicidade. São oito por ano, média de um encontro a cada 45 dias, sempre às terças e quartas-feiras.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2016 | 21h53

Daí porque o colegiado formado pela diretoria do BC foi obrigado a realizar, nesta terça e ontem, uma reunião, na prática, pró-forma. Dado o quadro político, não faria sentido alterar a taxa básica em vigor, de 14,25% ao ano. Que motivo, afinal, recomendaria mexer nos juros a menos de 15 dias do provável afastamento por até seis meses da presidente Dilma Rousseff e sua consequente substituição pelo vice, Michel Temer, que se prepara para ocupar o Palácio do Planalto com uma nova equipe econômica e um BC renovado?

Era tão óbvio que os juros básicos seriam mantidos, como de fato ocorreu, que a reunião demorou uma hora menos do que de costume. De tão previsível o resultado, as atenções, nas últimas semanas, se concentraram no voto dos dois diretores que, em reuniões anteriores, discordaram da decisão da maioria de manter a taxa Selic e propunham elevar a taxa em 0,5 ponto. De acordo com a interpretação dos analistas, se eles cedessem, o caminho para o início de um ciclo de cortes estaria aberto.

Com a decisão unânime de ontem pela manutenção da taxa, as discussões sobre o momento em que os juros básicos começarão a cair ganharão agora mais intensidade. Começará em junho, como pensa uma minoria, em julho ou agosto, ainda a aposta da maioria, ou mais para o fim do ano, expectativa de outra minoria? E o ciclo de cortes levará a taxa Selic, de acordo com a aposta otimista de uma minoria, a 12,25% no fim do ano, ou se contentará com um recuo a 13,25%, expresso na mediana do último boletim Focus?

Fundamental para sustentar a esperada retomada da confiança de empresários e investidores com a saída de Dilma, a sinalização de queda nos juros básicos dependerá de outros sinais, principalmente aqueles que Temer, à frente do governo, emitirá sobre o ajuste das contas públicas. Com desemprego em alta, inadimplência elevada e demanda fraca, a alta de preços tem perdido fôlego, o que abre espaço para cortes na taxa básica. Mas a inflação ainda é alta o bastante e a pressão fiscal, com déficits primários crescentes, suficientemente forte para sugerir cautela no ataque aos juros.

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