Decisões de governos latinos podem frear fluxo de investimentos

A ONU, em seu relatório anual sobre investimentos, alerta que medidas tomadas por governos latino-americanos nos últimos meses deverão contribuir para frear o fluxo de investimentos estrangeiros aos países da região em 2006 e, eventualmente em 2007. As Nações Unidas destacam, acima de tudo, as medidas tomadas pelos governos da Bolívia e da Venezuela no setor de gás e petróleo como exemplos de ações que podem dar um sinal negativo os investidores.Nos países da América do Sul, o aumento de investimentos em 2005 foi de 20%, principalmente graças ao crescimento econômico da região que coincidiu com uma expansão da economia mundial. Nesse período, os investimentos na Colômbia aumentaram em 227%, 95% na Venezuela, 81% no Uruguai, 65% no Equador, 61% no Peru e 9% na Argentina. O que a ONU alerta, porém, é que novas leis colocando exigências à entrada de investimentos podem frear essa tendência.Em maio deste ano, o governo de La Paz tomou a decisão de nacionalizar suas jazidas de gás natural. Enquanto isso, a Venezuela incrementou o controle estatal sobre PDVSA e iniciou uma renegociação de concessões. No Chile, as taxas para a exploração de cobre por empresas estrangeiras aumentaram em 5% enquanto a Argentina estendeu sua lei de emergência econômica para todo o ano de 2006, permitindo maior envolvimento em negociações de concessão de serviços públicos. Em abril deste ano, o Equador ainda renegociou seus contratos com as empresas petrolíferas estrangeiras e conseguiu recuperar em maio uma área na Amazônia ocupada pela Occidental Petroleum Company. Destaque: recursos naturais e privatizaçõesSegundo a ONU, o fluxo importante de investimentos direitos na América Latina nos anos 90 ocorreu exatamente no setor de recursos naturais e na privatização de serviços públicos. Hoje, essas duas áreas contam com regras mais rígidas impostas pelos governos da região. A entidade contou 21 novas leis de investimento na América Latina desde 2005, das quais apenas sete eram positivas aos investidores, entre elas a decisão do BNDES no Brasil de incentivar a entrada de recursos no setor automotivo. A ONU admite que mudanças nas posturas dos governos latino-americanos ocorreram porque o crescimento econômico até o início desta década não havia sido traduzido em ganhos para a população ou em um combate real da pobreza. As estratégias mais intervencionistas ainda foram facilitadas nos últimos anos por um aumento nos preços das commodities e balanças comerciais favoráveis. Com o aumento dos preços, principalmente de petróleo e gás, muitos governos se sentiram fortalecidos para barganhar melhores contratos com as empresas estrangeiras e rever acordos da década de 90. Segundo a ONU, o fato de estar menos dependentes do capital estrangeiro criou a sensação em alguns governos de que poderiam endurecer os regimes de investimentos e ter um papel mais ativo na economia. Na Venezuela, além da recuperação de 32 áreas de exploração de petróleo que estavam em mãos privadas, o governo criou uma estatal para refinar açúcar e empresas em outras áreas.PerspectivasMas, de acordo com os analistas da ONU, a situação pode ter um efeito negativo e criar incertezas entre os investidores. Para 2006, a previsão já é de queda para o fluxo para toda a região em comparação à 2005. Nos primeiros seis meses, a entidade registrou uma queda de 19% no valor de aquisição de ativos de empresas locais comparado com mesmo período de 2006. Há ainda uma tendência a uma queda no valor das aquisições no setor de serviços, que conta com um volume de investimentos estrangeiros bem inferior a de outras regiões. A Suez sai de Argentina por uma disputa com o governo, enquanto a Telecom Itália abandonou suas atividades no Peru e no Chile. A mudança no comportamento de alguns governos desde o início do ano ainda deve ter um impacto nas negociações comerciais. Enquanto a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) não caminha, novos grupos são formados, como o que reúne Cuba, Bolívia e Venezuela. A ONU ainda destaca que Caracas deixou a Comunidade Andina e se aliou ao Mercosul. Isso sem contar com as diferenças internas entre os países da região por causa dessas novas condições de investimentos que estão afetando não apenas empresas espanholas ou americanas, mas companhias brasileiras, como a Petrobras.

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