Decisões econômicas e ganhos políticos

Opinião

Jorge J. Okubaro, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h06

Ao mergulhar numa fase de hiperatividade econômica que poderia ser descrita como desenvolvimentista, o governo Dilma denota ter chegado à conclusão de que os efeitos da crise externa estão sendo mais amplos e intensos do que esperava. Isso o tem forçado a buscar respostas rápidas para diferentes problemas e, por isso, vem procurando agir intensamente em diferentes campos. Embora às vezes o governo pareça estar seguindo um plano algo desconexo no plano econômico, pode haver uma lógica política por trás de seu comportamento.

Tendo descoberto, talvez tardiamente, a importância que, quando efetuados com presteza e eficácia, os investimentos públicos podem ter para a dinamização da economia e para a eliminação de problemas que afetam o crescimento, o governo passou a falar nisso com insistência. Não custa lembrar que, há muito tempo, é exatamente isso o que têm dito, e cobrado do governo, os que pensam no futuro.

Ampliar os investimentos públicos, especialmente na área de infraestrutura, é importante neste momento em que, temerosas quanto à profundidade, extensão e duração da crise internacional, as empresas particulares congelaram seus planos de expansão e modernização. Mas isso poderia ter sido feito há muito mais tempo. Num país que incorre em imensos custos de logística e transporte - pois ainda carece de uma malha viária ampla e segura, de ferrovias, de aeroportos e de portos com maior capacidade e eficiência - e perde competitividade, investimentos públicos são necessários sempre, não apenas quando a situação econômica se deteriora.

O governo descobriu também que boa parte dos Estados se comportou de maneira responsável do ponto de vista financeiro nos últimos anos e, por isso, está em condições de obter novos empréstimos para investir em obras. Para atrair os governos estaduais ao esforço de ampliar os investimentos, às pressas, abre-lhes os cofres dos bancos oficiais.

Por ter dado certo até agora, e ter-lhe assegurado grande prestígio popular, o governo continua a insistir no estímulo ao consumo, com seguidas medidas destinadas a ampliar a oferta de crédito, com o aumento dos prazos dos financiamentos e com a contínua redução dos juros cobrados pelos bancos oficiais. A manutenção do nível de emprego e de renda da população tem contribuído para assegurar bons resultados a essa política do governo.

É bom que um número cada vez maior de brasileiros tenha acesso a bens que lhes propiciem melhores condições de vida. Essa é uma das boas mudanças pelas quais o Brasil vem passando nos últimos anos. Mas, como dados recentes mostram que as vendas do varejo continuam a crescer (em abril, elas foram 6% maiores do que as de abril de 2011), pode-se começar a pensar que estimular ainda mais o consumo nessa situação é como chover no molhado.

Já não são poucos, ademais, os que apontam os limites da eficácia desse tipo de estímulo. Citam-se o esgotamento da capacidade de endividamento de boa parte das famílias e o aumento da inadimplência como fatores que podem retirar eficácia das medidas de apoio ao consumo. Pesquisa da Federação do Comércio do Estado de São Paulo mostrou que, em maio, o número de famílias paulistas com contas em atraso representava 21,5% do total, 7,1 pontos porcentuais mais do que em maio de 2011. Isso mostra dificuldades crescentes para honrar os compromissos financeiros.

Há o risco de que, intensas e excessivas - mas às vezes atrasadas -, as medidas extraordinárias do governo percam o foco, tenham menos eficiência do que suas ações convencionais e acabem produzindo um conjunto disforme.

Ressalve-se, no entanto, que, naquilo que contém de mais sólido, essa azáfama do governo já tem um ganhador: ele próprio. Suas ações tendem a ser vistas como positivas pela população em geral, pois parecem destinadas a beneficiá-la diretamente, e por boa parte do mundo político, a começar pelos governadores, por seus fiéis seguidores no Congresso e nas Assembleias Legislativas e, por extensão, por boa parte de seus eleitores.

É como se, anunciando a criação de proteção forte para a economia e para a população, o governo criasse para si a poderosa proteção política. É uma atitude inteligente, reconheça-se. Ou astuciosa.

O colunista Celso Ming está em férias. 

JORNALISTA, É AUTOR DE O SÚDITO (BANZAI, MASSATERU!) (EDITORA , TERCEIRO NOME)

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