Defendendo o livre comércio

Nas últimas décadas, experimentamos um aumento sem precedentes das trocas comerciais e do fluxo de investimentos na produção entre os países. Resultado de uma maior liberalização comercial e da abertura aos investidores estrangeiros, esse crescente fluxo de bens e de inversões na produção permitiu a expansão dos mercados domésticos pela incorporação de mercados externos cada vez mais abertos.Para atender a essa maior demanda, foram necessários novos investimentos, ampliando-se, assim, as oportunidades de emprego e redundando em maior crescimento econômico.A criação de riquezas e a redução da pobreza decorrentes deste ambiente de maior abertura comercial e maior liberdade para o investimento na produção são incontestáveis, não obstante o proveito tenha sido desigual entre os diferentes países.O Brasil foi um dos beneficiários desse ambiente de liberalização, ainda que em menor grau do que poderíamos de fato ter sido, tendo em vista a inadequação de algumas políticas macroeconômicas. Mesmo assim, é inequívoca a contribuição do comércio exterior para o crescimento econômico brasileiro recente.Porém muitos outros países, justamente os mais necessitados, ficaram à margem desse processo e auferiram pouco ou nenhum proveito da conjuntura favorável, em grande medida por causa das imperfeições e das distorções do mercado global.A Rodada Doha tinha como um dos seus principais propósitos a inclusão desses países aos benefícios do livre comércio, por meio da eliminação ou da redução das já referidas imperfeições e distorções.Preocupa-nos o impasse existente que retarda de forma indefinida a conclusão da Rodada Doha no momento em que surgem sérias ameaças no sentido de se estancar, ou até mesmo reverter, a liberalização comercial. Os sinais de recrudescimento do protecionismo, que ameaçam reverter os ganhos obtidos, demandam atenção.Enquanto os benefícios do livre comércio são difusos e permeiam a sociedade como um todo, há setores localizados que vocalizam sua insatisfação, mormente em situações de contração do mercado, como a que ora vivemos.Há também setores - mesmo dentre os mais dinâmicos e eficientes - que, diante da deslealdade de seus competidores internacionais e das ilegalidades por eles cometidas, perdem espaço e veem sua sobrevivência comprometida, e se queixam com razão.As pressões por proteção ou por mecanismos de recuperação de competitividade crescem, especialmente nos países mais afetados pela atual crise econômica, elevando a tentação de buscar solução pela via do protecionismo, que se materializa sob diversas formas. Esse erro já foi cometido no passado e as consequências foram enormes e de longa reversão.É preciso que o livre comércio seja defendido de forma veemente.Mas a melhor maneira de defendê-lo é defender o comércio correto, legal e leal.Uma eficaz arma de redução da pobreza, de geração de emprego e de criação de riqueza é o comércio realizado dentro de condições corretas, aquele que cria meios para que os participantes do mercado ajam dentro de balizas similares, levando ao compartilhamento equânime dos benefícios decorrentes.A isonomia competitiva deve ser buscada por meio de parâmetros similares nas políticas tributárias, de proteção ambiental, trabalhistas, cambiais, de custo e acesso ao financiamento, dentre outras. Os subsídios também devem ser condenados - eles impedem condições equilibradas de acesso aos mercados e desestabilizam injustamente a competição.A solução da crise que vivemos, bem como a diminuição de sua duração, passa necessariamente pela expansão dos mercados globais, e não por sua contração.É necessária mais que a manutenção, e sim a ampliação do livre comércio. Porém, livre comércio não deve ser qualquer comércio, mas sim o comércio correto. *Josué Christiano Gomes da Silva é presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e da Coteminas - O colunista Celso Ming está em férias.

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