Defensor de aperto maior, Levy se ausenta

Depois de negociar pessoalmente ponto a ponto do ajuste fiscal, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, decidiu não participar nesta sexta-feira, 22, do anúncio do corte de Orçamento da União de 2015.

LORENNA RODRIGUES, Estadão Conteúdo

23 Maio 2015 | 00h06

Durante uma hora e meia, entre a abertura do auditório do Ministério do Planejamento e o início da coletiva de anúncio dos cortes de gastos no Orçamento, o nome de Levy permanecia em uma placa sobre a mesa do palco ao lado do anfitrião, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Mas Levy não foi.

O ministro, que encarna o ajuste fiscal do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, defendia um contingenciamento maior do que os R$ 69,9 bilhões anunciados. Mesmo com o expressivo valor do corte, a ausência do ministro foi vista nos bastidores como um sinal de que ele não ficou nada satisfeito com o tamanho da tesourada.

A versão oficial é a de que o titular da Fazenda não compareceu porque estava gripado. Outra versão que circulou é a de que o Palácio do Planalto pediu para que ele não participasse para ser poupado da agenda negativa do governo. Outra explicação ventilada por fontes do governo é a de que o ministro deixou de aparecer para evitar que o tema da entrevista se tornasse tributária, já que hoje foi publicada uma medida provisória aumentando a Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL) para as instituições financeiras.

O governo ainda não apresentou uma explicação oficial para a elevação do tributo, que vai atingir bancos e outras instituições financeiras, como corretoras de câmbio e valores mobiliários e sociedades de crédito, por exemplo.

Mensagem. Após a disputa interna no governo pelo tamanho do contingenciamento, Levy enviou uma mensagem a jornalistas na qual dizia: "Volto novo na segunda".

Até hoje pela manhã, contudo, a presença do ministro na entrevista coletiva era certa. A agenda de Levy foi alterada às 10h18 para incluir o compromisso.No início da tarde, pouco antes do anúncio, o ministro da Fazenda ligou para Barbosa para avisar que não iria. Nos anos anteriores, o titular da Fazenda participou dos anúncios de contingenciamento.

Nas negociações, Levy defendia um congelamento maior do que o estabelecido no decreto, entre R$ 75 bilhões e R$ 80 bilhões. Para ele, quanto maior as derrotas no Congresso Nacional, maior teria que ser o bloqueio dos gastos. Já o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, e o da Casa Civil, Aloizio Mercadante, queriam algo em torno de R$ 60 bilhões.

Levy saiu confiante da reunião na última segunda-feira, 18, com a presidente Dilma Rousseff, e disse que o corte ficaria na faixa dos R$ 70 bilhões a R$ 80 bilhões. Ao longo da semana, assessores presidenciais e da equipe econômica davam como certo que o corte ficaria dentro da "faixa Levy", acima dos R$ 72 bilhões. No final das contas, o valor final ficou, por poucos milhões, abaixo até mesmo do piso defendido por ele em público.

Para Barbosa, Levy justificou a ausência com problemas de agenda e uma forte gripe. "Não leiam isso como mais do que uma gripe, por favor."

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