Defensores do Mercosul pedem reformas estruturais

A batalha comercial pela América Latina deve começar na primeira semana de novembro, quando será realizada, em Quito, uma das reuniões ministeriais mais importantes para a consolidação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Nessa guerra, o Mercosul, que parecia representar uma das maiores forças para enfrentar os Estados Unidos, irá enfraquecido, já que vive um de seus piores momentos. Pior, o bloco, do qual fazem parte o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, ainda se debate diante dos novos desafios da integração regional.Onze anos depois de inúmeras tentativas, o sonho de aprofundar e consolidar o comércio entre os quatro países parece ter ido por água abaixo, deixando em evidência as grandes diferenças que existem entre seus defensores e os mais críticos. Neste momento difícil, diz o embaixador Rubens Barbosa, um dos maiores artífices de criação do Mercosul, "é necessário pensar em uma nova arquitetura institucional".Embora sem entrar em detalhes, o embaixador acredita que o Tratado de Assunção e do Protocolo de Ouro Preto, bases fundamentais do Mercosul, precisam ser reestruturados. Fazendo um paralelo com o que ocorreu na Europa no início da década de 60 e no início dos anos 70, quando as negociações comercias nesse Continente ficaram paralisadas durante dez anos por razões políticas, o embaixador diz que o Mercosul precisa continuar avançando, mesmo que apenas por meio de "gestos simbólicos", como o recente acordo automotivo assinado entre o Brasil e a Argentina e a volta do Crédito de Comércio Recíproco (CCR).União Européia"Jean Monet, um dos maiores defensores da unificação européia, propôs, no início dos anos 60 e 70, uma série de ações, na realidade gestos simbólicos, para não deixar morrer a idéia da integração européia e, por meio deles, modificar de forma gradual o Tratado de Roma, que criou a União Européia, como ocorreu recentemente com o Trado de Maastricht", lembra o embaixador do Brasil em Washington. "Inspirado nisso, o Mercosul poderia fazer o mesmo, pelo menos enquanto aguarda a recuperação da economia argentina", explicou o embaixador em entrevista à Agência Estado.Fábio Giambiagi, especialista em temas de integração econômica do BNDES vai além. "Resumiria a minha posição perguntando o que é que os países do Mercosul querem realmente daqui a 10 ou 15 anos", diz o economista. "Será melhor avançar juntos ou separados?". Nesse período, de acordo com ele, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) estará praticamente consolidado e a União Européia terá recebido pelo menos mais dez países. Aí, acrescenta Giambiagi, "estaremos falando de uma Europa com mais de 20 países com apenas uma única moeda, o euro."O economista do BNDES acredita que em 10 ou 15 anos o mundo contará apenas com duas moedas fortes, o dólar e o euro. "A existência de um número gigantesco de moedas, então, será um anacronismo", alerta. Diante disso, sugere Giambiagi, seria melhor o Brasil e a Argentina estarem juntos e definirem, a médio prazo, a integração de suas moedas.Indagado sobre qual seria o "timing" para essa integração monetária, o economista lembra que os europeus levaram 40 anos para criar uma moeda comum. "Porém, tratavam-se de 11 países (hoje, são 12 que fazem parte da zona do euro). Agora, tratando-se apenas do Brasil e da Argentina, pelo menos no início, acredito que em 2006 seria viável", afirma.Alto endividamentoO economista uruguaio Luis Porto acredita, no entanto, que o alto endividamento das economias do bloco, somado aos elevados déficits fiscais e à retração do fluxo de capitais, são elementos fundamentais que precisam ser analisados antes de desenhar cenários de mudanças possíveis na região. "Argentina, Paraguai e Uruguai só poderão enfrentar o problema do endividamento com um aumento considerável de suas exportações, as quais terão ainda de ser diversificadas, incorporando maior valor agregado", diz Porto. De acordo com ele, ficou demonstrado que, exportando apenas commodities, esses países sofrem sérias dificuldades para enfrentar os problemas de endividamento.Quando nasceu o Mercosul, há mais de onze anos, a proposta apresentada mostrava algumas estratégias possíveis, explica o economista uruguaio. "Uma delas era a integração comercial; outra, mais radical, era uma integração mais ampla, global, incorporando acordos de complementação produtiva, coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais, projetos financeiros e produtivos." Onze anos depois de ter optado pelo primeiro caminho, o resultado está aí, um Mercosul frágil, vulnerável às crises externas e dos próprios países do bloco, lamenta Porto.Apesar das dificuldades e dos problemas que surgiram desde a sua criação, entretanto, o embaixador Rubens Barbosa acredita que o Mercosul continua a ser uma aposta do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai e dos sócios não-plenos (Chile e Bolívia). "O Mercosul interessa ao Brasil na medida em que tenha uma política pro-ativa dentro do bloco e da América do Sul", diz o embaixador. "O Mercosul é um nome, é uma marca que deu certo."O embaixador acredita que, no momento, é difícil avançar mais na área comercial, mas afirma que é necessário reconstruir o Mercosul. Para ele, a reafirmação da vontade de avançar e aprofundar a coordenação macroeconômica seria outro gesto importante para não deixar morrer o bloco. Segundo ele, a assinatura de um acordo entre o bloco e a Comunidade Andina de Nações (CAN), previsto para dezembro deste ano, será outro gesto importante.EsquizofreniaO diretor executivo da Prospectiva - Consultoria Brasileira de Assuntos Internacionais, Ricardo Sennes, acredita que os membros do bloco precisam adotar medidas drásticas já que, os últimos oito anos, se transformaram em um período de "esquizofrenia dualista" (Brasil/Argentina). "É necessário limpar toda a mesa e fazer com que várias metas deixadas para trás entrem em operação", sugere. Sennes afirma que trabalhar com um cenário de regressão, os custos de voltar atrás no Mercosul seriam muito caros, principalmente para as empresas que investiram grandes recursos apostando na união aduaneira entre os quatro países.Sennes também não acredita que a Alca venha a atropelar o Mercosul. "A Alca será um acordo limitado e de aplicação lenta", afirma. Para Fábio Giambiagi, do BNDES, a Alca vai forçar uma definição do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. "Se o Mercosul ficar restrito à sua formação atual, será diluído", diz. Para o economista, a Tarifa Externa Comum (TEC), hoje totalmente perfurada, perderá relevância e a área de livre comércio, força. "O Mercosul precisa, de uma vez por todas, se perguntar qual é a melhor forma de se transformar em um grande player comercial e em um bloco de captação de investimentos."Com duas ou mais moedas, esses objetivos ficam difíceis."

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