Déficit comercial chega a setor menos inovador

Pela primeira vez, indústria apura saldo negativo até nos segmentos de média-baixa tecnologia, que agregam menos valor aos produtos

Raquel Landim, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

A indústria brasileira está perdendo espaço não apenas nos setores mais inovadores, mas também naqueles de menor valor agregado. Pela primeira vez, a indústria de média-baixa tecnologia teve um saldo negativo na balança comercial.

Levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) aponta que esse segmento amargou déficit de US$ 8,2 bilhões em 2010, uma reversão comparado com o superávit de US$ 3,6 bilhões em 2009. Em 2006, o superávit foi de mais de US$ 10 bilhões.

Nesse segmento, estão produtos como borracha, carvão, derivados de petróleo, construção naval e produtos metálicos. O forte apetite do mercado brasileiro por derivados de petróleo e os altos preços do carvão contribuíram para o fraco resultado.

"A situação é crítica. O governo tem que agir no curto prazo, mas também com reformas estruturais", disse Pedro Passos, presidente do Iedi e do conselho de administração da Natura. Ele atribui as dificuldades da indústria à carga tributária, aos juros altos e ao câmbio forte.

Conforme noticiou o Estado na sexta-feira passada, a indústria da transformação registrou um rombo recorde de US$ 37 bilhões nas trocas com o exterior em 2010, conforme o Ministério do Desenvolvimento. Pelos cálculos do Iedi, o déficit foi de US$ 34,8 bilhões.

"Estamos perdendo boa parte do valor agregado da indústria", disse Rogério César de Souza, economista-chefe do Iedi. Os bens de maior intensidade tecnológica possuem uma cadeia produtiva mais longa, o que significa maior geração de empregos e mais inovação.

Para Lia Valls, pesquisadora do instituto de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o déficit no setor de média-baixa tecnologia é sinal de que "o Brasil começou a importar todo o espectro de produtos." Ela não acredita, no entanto, que o País atravesse uma "desindustrialização clássica", dada a robustez do mercado interno.

O Brasil tradicionalmente é deficitário em bens de alta e média-alta tecnologia, mas nunca os valores atingiram os patamares atuais. Nos dois segmentos, os déficits chegaram, respectivamente, a US$ 26,2 bilhões e US$ 39,3 bilhões.

Nesses segmentos, estão setores importantes para a economia, como carros, máquinas químicos (média-alta tecnologia), farmacêutica, material de informática, e equipamentos eletrônicos (alta tecnologia). Só a indústria aeronáutica obteve superávit: US$ 681 milhões.

O principal responsável por amenizar o rombo na balança da indústria é o setor de baixa tecnologia, particularmente os alimentos processados, como açúcar, carnes ou suco de laranja, que registraram um saldo de US$ 33 bilhões. Em contrapartida, os setores têxtil, calçados e couro tiveram seu primeiro déficit no ano passado: US$ 215 milhões.

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