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Déficit de confiança

Mesmo que o governo Dilma tivesse algum plano para conduzir o Brasil para fora da crise, dificilmente conseguiria liderar um movimento de recuperação

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2016 | 21h00

É muito baixa a probabilidade de que os principais problemas da economia sejam superados neste ano. Talvez não sejam nem no próximo. Confira:

A encalacrada fiscal tem tudo para se aprofundar. Como o professor Mansueto Almeida demonstrou na edição do Estadão desta terça-feira, o governo precisa de um aumento de arrecadação de R$ 160 bilhões para fechar suas contas deste ano, um volume altamente improvável de ser atingido, num cenário que aponta para direção contrária, para forte quebra de arrecadação.

O outro problema, principal causa do anterior, é a nova retração do PIB em 2016, de 3,01% para ficar com as últimas projeções registradas pelo Boletim Focus. Também não há ninguém no governo apostando em crescimento econômico. A produção industrial seguirá em queda livre. O único setor da produção que, apesar de tudo, continua avançando é a agropecuária. Mas ele não tem densidade para puxar a economia. (Pesa apenas 5% no PIB.)

Algumas forças vêm puxando para baixo a inflação. As duas mais importantes são a redução do consumo e o esgotamento do processo de ajuste dos preços administrados, aqueles que são reajustados de acordo com a determinação do governo. Mas a inércia continua forte. Em toda a economia, prevalecem os movimentos de defesa de empresários e de prestadores de serviços contra a perda de patrimônio, que acabam, por sua vez, realimentando a própria inflação. E há a ação da desvalorização cambial e do aumento de impostos, especialmente pelos Estados. Todas as projeções confiáveis são de que a inflação fechará o ano de 2016 acima do teto da meta. O Boletim Focus aposta em 7,26%.

O desemprego, que fechou o ano em 6,9% da força de trabalho, caminha rapidamente para os 10%. Este é um movimento inexorável, único jeito que têm a indústria e o setor de serviços de evitar a escalada de custos e o baixo dinamismo da demanda.

Além do agronegócio, já citado, o outro grande setor da economia em franca recuperação é o das contas externas. O rombo em conta corrente deve cair à metade neste ano e pode ser zerado em 2017. Mas é um setor que não tem tração suficiente para virar o jogo.

Nenhum desses problemas nem o conjunto deles seria suficiente para enterrar a economia, como está acontecendo, não fosse a dominância do mais grave deles: o da falta de confiança no comando da política econômica.

Nenhum dos grandes problemas da Argentina está resolvido e, no entanto, lá o jogo virou apenas porque o novo governo Macri conquistou a confiança dos argentinos e dos credores do país.

Por aqui, não há atuação desse fator porque o governo Dilma tende a seguir até 2018 sem estratégia. Até mesmo decisões inadiáveis, como a da reforma da Previdência, estão sendo recebidas com vaias e panelaços. E, mesmo que tivesse algum plano para conduzir o Brasil para fora da crise, dificilmente conseguiria liderar um movimento de recuperação que alargasse os horizontes e levasse o empresário a investir.

CONFIRA

Aí está a evolução da cotação do dólar no câmbio interno desde janeiro.

Nova escorregada

O dólar voltou ontem a enfraquecer. Fechou a R$ 3,9158, já mais perto dos R$ 3,90 do que dos R$ 4,00. Duas são as forças que puxam para baixo: a melhora das contas externas e a decisão do Fed de não retirar mais dólares do mercado, pelo menos por enquanto. Mas há duas puxando para cima: o agravamento das contas públicas e a iminência de novo rebaixamento da dívida brasileira, desta vez pela agência Moody’s. Difícil de prever quais forças prevalecerão.

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