Déficit em conta corrente tem pior julho da história

Resultado da conta de transações correntes ficou em US$ 4,5 bi; para agosto, déficit esperado é de R$ 2,5 bi

Fabio Graner e Fernando Nakagawa, da Agência Estado,

23 de agosto de 2010 | 10h30

O déficit em conta corrente registrado em julho deste ano, em US$ 4,499 bilhões, é o pior para os meses de julho desde o início da série histórica do Banco Central, de acordo com dados divulgados nesta segunda-feira, 23. O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, informou pouco que prevê para o mês de agosto um déficit em conta corrente de US$ 2,5 bilhões.

Antes do mês passado, o pior julho até então era o de 1997, quando o déficit em transações correntes havia somado US$ 3,072 bilhões. Ainda de acordo com a série histórica, o pior mês registrado até hoje é dezembro de 2009, quando o rombo das contas externas somou US$ 5,950 bilhões.

Apesar do resultado, Altamir disse não enxergar risco de uma crise futura no balanço de pagamentos por conta do aumento do déficit em conta corrente. Segundo ele, o fato de o Investimento Estrangeiro Direto (IED) não cobrir todo o saldo negativo na conta corrente, o que tem sido feito com ajuda dos empréstimos externos e dos investimentos em ações e renda fixa, não é um problema em si mesmo, porque os empréstimos tomados são de prazo mais longo.

Altamir destacou ainda que o IED deve ter uma aceleração, motivada pela exploração do pré-sal e por conta da Copa do Mundo e da Olimpíada do Rio de Janeiro. O técnico salientou que o perfil do IED atualmente é mais voltado para bens comercializáveis, que, futuramente, vai gerar mais exportações e melhorar a conta corrente.

Projeção

O resultado de julho da conta de transações correntes do balanço de pagamentos do País ficou dentro das estimativas de US$ 3,3 bilhões a US$ 5,9 bilhões colhidas junto a 6 instituições consultadas pelo AE Projeções. O número ficou colado à mediana negativa de US$ 4,625 bilhões.

O resultado foi bastante superior ao déficit registrado em julho de 2009, que havia ficado em US$ 1,623 bilhão. Em junho de 2010, o resultado negativo somou US$ 5,180 bilhões. Segundo o BC, o déficit do mês passado foi gerado pela conta de serviços e rendas, que amargou saldo negativo de US$ 6,053 bilhões. Esse valor foi parcialmente compensado pelo resultado da balança comercial, que foi superavitário em US$ 1,357 bilhão e pelas transferências unilaterais correntes, que trouxeram US$ 197 milhões.

No acumulado de janeiro a julho, a conta corrente tem déficit de US$ 28,261 bilhões (2,51% do Produto Interno Bruto), ante US$ 8,8 bilhões em igual período de 2009. Nos 12 meses até julho de 2010, o saldo de transações correntes é negativo em US$ 43,764 bilhões, ou 2,24% do Produto Interno Bruto (PIB).

Câmbio favorável e renda elevaram déficit na conta de turismo

O recorde no déficit da conta de turismo internacional é gerado pelo aumento da renda dos brasileiros e o câmbio favorável. "Na conta de serviços, a conta de viagens internacionais é a que tem maior participação relativa na piora dos números", afirmou Altamir.

O chefe do Departamento Econômico deu como exemplo a piora do resultado de transações correntes nos sete primeiros meses do ano. Segundo ele, comparado ao resultado de igual período de 2009, o rombo das contas externas cresceu US$ 19 bilhões. "Desses US$ 19 bilhões, a conta de serviços e rendas contribuiu com US$ 11,6 bilhões, sendo que a conta de viagens internacionais teve participação de US$ 2,72 bilhões", disse Altamir.

Na conta de viagens, o déficit cresce "pelo crescimento da renda interna e do cambio favorável", cita Altamir. "Você tem dois fatores auxiliando o aumento dos dispêndios no exterior e, no outro lado, a renda externa tem prejudicado o turismo receptivo", cita o chefe do Departamento Econômico do BC, ao lembrar que a economia internacional ainda sofre os efeitos da crise, o que reduz a capacidade do turista internacional de visitar o Brasil.

Segundo dados do BC, de janeiro a julho, as receitas obtidas com turistas internacionais em viagem ao Brasil cresceu 12% na comparação com igual período de 2009. Já as despesas de brasileiros no exterior saltaram 56% na mesma base de comparação.

Altamir destacou também que houve diminuição no saldo de transferências multilaterais sobretudo porque cresceu a remessa de recursos do Brasil para os Estados Unidos. Em julho, as transferências de recursos para o País - de brasileiros para que trabalham em outros países - somou US$ 353 milhões em julho. Ao mesmo tempo, a remessa de estrangeiros no Brasil para seus países de origem totalizou US$ 175 milhões, a cifra mais alta da série. Segundo ele, o montante remetido aumentou porque há mais executivos norte-americanos trabalhando no País e que remetem parte do salário para aquele país.

Lucros e dividendos atingem US$ 1,8 bilhão

As remessas de lucros e dividendos somaram em julho US$ 1,802 bilhão. Em julho do ano passado, as remessas somaram US$ 1,724 bilhão. No acumulado de janeiro a julho deste ano, as remessas somam US$ 16,769 bilhões, volume 33,27% superior ao verificado em igual período de 2009.

As despesas com juros no mês passado foram de US$ 1,545 bilhão, ante US$ 1,708 bilhão um ano antes. No acumulado de 2010 até julho, o pagamento de juros a credores externos foi de US$ 6,233 bilhões, montante 7,15% maior do que o verificado nos sete primeiros meses do ano passado.

Taxa de rolagem fica de 255%

A taxa de rolagem dos empréstimos externos de médio e longo prazos em julho ficou em 255%, segundo o BC. Em julho do ano passado, esse indicador ficou em apenas 24%. A taxa de rolagem de bônus, notes e commercial papers foi de 416%, enquanto dos empréstimos diretos, de 82%. De janeiro a julho, a taxa de rolagem, segundo o BC, foi de 225%, ante 66% em igual período de 2009. Bônus, notes e commercial papers no ano têm rolagem de 220%, enquanto empréstimos diretos, 239%.

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