Déficit externo bate recorde em abril

Gastos de brasileiros em viagens internacionais e remessas de lucros levaram o déficit a US$ 8,291 bi, o maior já registrado no mês

VICTOR MARTINS, LAÍS ALEGRETTI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2014 | 02h03

Puxado pelo aumento de viagens internacionais e remessas de lucros e dividendos, o rombo nas contas externas do País ficou em US$ 8,291 bilhões em abril - valor recorde para o mês. O resultado ficou pior que o esperado por analistas, que estimavam um déficit de US$ 6,7 bilhões.

"O déficit em conta corrente veio um pouco acima do que havíamos projetado", disse Túlio Maciel, chefe do Departamento Econômico do Banco Central. A previsão do BC para o rombo nas contas externas do mês passado era de US$ 7,8 bilhões. Para Maciel, o avanço de saídas de recursos para o exterior por meio das contas de serviços e de renda, nas quais estão incluídas as remessas de lucros e dividendos e as viagens internacionais, foi determinante para o déficit de abril.

Por outro lado, o Investimento Estrangeiro Direto (IED), em abril, somou US$ 5,233 bilhões e não cobriu totalmente o rombo. Trata-se da linha considerada mais saudável de financiamento do setor externo, por se tratar de investimentos destinados à produção. O País usou outros recursos para cobrir o rombo. Parte do buraco foi tapado com US$ 1,6 bilhão de investimento em portfólio, aplicações financeiras. Os recursos ingressam no Brasil em busca das atrativas taxas de juros e do mercado de renda variável (ações).

Juros. Analistas chamam atenção para o desempenho das contas externas. Em nota distribuída a clientes, o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, destacou a forte entrada de investimentos estrangeiros interessados em aplicações financeiras no Brasil, à medida que o Banco Central conduzia o aperto da taxa básica Selic. "O déficit em conta corrente continua mostrando seus aspectos estruturais mesmo com a recuperação em curso na conta comercial", assinalou. "Seu financiamento contou com menos recursos de crédito e afluxo mais do que suficiente de IED e IEC (investimentos em carteira). O primeiro, porém, segue incapaz de cobrir o déficit."

Para Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, o aprofundamento do déficit externo não deve permanecer. "O déficit no balanço de pagamentos de abril foi maior do que o esperado devido a forte remessa de lucros e dividendos. Acreditamos que esse movimento seja isolado e não repita nos próximos meses", afirmou, em nota enviada a clientes do banco. "Do lado do fluxo de capitais, podemos destacar a continuidade de entradas de IED e a melhora da sua qualidade, com o aumento gradual da contribuição da participação no capital em relação ao ano passado."

Câmbio. Segundo o BC, a cotação do dólar em relação ao real favoreceu a remessa de lucros e impactou no déficit, conta (de remessas e lucros) que registrou saída líquida de US$ 3,291 bilhões em abril. Comparado a abril de 2013, houve aumento de 29,46%. No acumulado do ano, essa conta chegou a US$ 8,968 bilhões. As viagens registraram saídas liquidas de US$ 1,797 bilhão no mês.

Apesar do rombo recorde para abril, o BC se disse otimista com as perspectivas para o ano. "Seguimos financiando aproximadamente 80% do déficit com IED", disse Maciel.

Pelos dados do BC, o ingresso de capital estrangeiro para títulos de renda fixa cresceu 3,5 vezes comparado a abril do ano passado, passou de US$ 816 milhões para US$ 3,708 bilhões. O aumento dos juros básicos (Selic), que passaram de 7,25% ao ano em abril de 2013 para 11% neste ano, além da retirada de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) que incidia sobre esses recursos que chegavam de fora, influenciaram o avanço.

No acumulado de janeiro a abril de 2014, o déficit em conta corrente soma US$ 33,476 bilhões, o equivalente a 4,65% do PIB. No acumulado dos últimos 12 meses até abril, o saldo está negativo em US$ 81,611 bilhões, o que representa 3,65% do PIB.

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