Déficit externo é o 2º maior desde 1947

Brasil teve em janeiro um saldo negativo de US$ 5,41 bilhões na conta de transações correntes, o pior para o mês desde o início da série

Fabio Graner e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

O Brasil teve em janeiro um saldo negativo de US$ 5,41 bilhões na conta de transações correntes, que registra todas as operações de comércio de bens, serviços e transferências de renda do País com o exterior. O resultado foi o pior para meses de janeiro e o segundo mais alto considerando todos os meses da série do BC, com início em 1947.

Mas o desempenho negativo na conta corrente foi acompanhado de bom resultado dos Investimentos Estrangeiros Diretos (IED), que são voltados para o setor produtivo e tiveram ingressos de US$ 2,96 bilhões no mês passado. Esse desempenho garantiu o saldo recorde de IED no acumulado em 12 meses: US$ 50,82 bilhões, volume mais do que suficiente para cobrir o déficit de US$ 49,11 bilhões na conta corrente no mesmo período.

Em tese, a saúde externa do País é maior quando os investimentos diretos, que são recursos que entram com um horizonte de muito longo prazo, conseguem cobrir o saldo negativo em conta corrente. Isso porque reduz-se a necessidade de o País recorrer aos voláteis recursos de curto prazo, como investimentos em títulos e ações ou crédito externo, para se financiar.

Com base em dados parciais, o Banco Central espera que o IED em fevereiro seja mais de duas vezes superior ao déficit externo. Até ontem, os investimentos produtivos somavam no mês US$ 6,7 bilhões e o BC previa que o saldo final em fevereiro será de US$ 7 bilhões, o que, se for confirmado, será um volume recorde para o mês. Por outro lado, a autoridade monetária projeta um déficit na conta corrente de US$ 3 bilhões. Assim, no primeiro bimestre de 2011, a tendência é que os investimentos produtivos em torno de US$ 10 bilhões cubram todo o déficit externo do período, com alguma folga.

Em relatório. O economista-chefe do BES Investimento, Jankiel Santos, avaliou que essa situação é um fator de pressão de valorização no real, tendência reforçada pelo ingresso de investimentos em ações e renda fixa. Segundo ele, isso representa uma boa notícia em um contexto de esforço para combater a inflação. É que o câmbio valorizado ajuda a conter o ímpeto de alta nos preços.

Apesar do quadro favorável de financiamento, o fato é que o rombo externo tem mês a mês se deteriorado a uma velocidade elevada, que causa preocupações. O desempenho do saldo acumulado em 12 meses mostra isso mais claramente. Até janeiro de 2010, o déficit em conta corrente representava 1,52% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto no mês passado o saldo acumulado chegou a 2,35% de tudo o que é produzido no País.

Para o chefe-adjunto do departamento econômico do Banco Central, Tulio Maciel, o aumento do déficit em transações correntes ocorre em função do crescimento da economia, que "tem levado a um aumento da demanda de bens e serviços tanto das pessoas físicas quanto do setor produtivo".

Outro fator que afeta essa conta é o câmbio valorizado, que torna mais barato comprar produtos fabricados fora do País e também viajar para o exterior - a conta de viagens teve um saldo negativo de US$ 1,15 bilhão em janeiro, o mais alto para meses de janeiro em toda a série. A combinação de crescimento e câmbio valorizado também favorece as remessas de lucros e dividendos de empresas estrangeiras instaladas no Brasil. Em janeiro, o envio de recursos nessa rubrica somou US$ 1,88 bilhão.

Ao mesmo tempo em que influencia o aumento no déficit externo, o crescimento econômico contribui para que esse rombo seja financiado com IED. Com o mercado doméstico pujante e expectativa de lucratividade cada vez maior, as empresas estrangeiras estão cada vez mais interessadas em vir para o Brasil. Há ainda atrativos outros ao investimento estrangeiro, como a exploração do petróleo na camada pré-sal e os grandes eventos esportivos internacionais.

Fluxo. O BC informou ontem dados parciais de fevereiro mostrando que o fluxo de dólares para o País até o último dia 21 era positivo em US$ 3,62 bilhões. Com o mesmo período de referência, as compras de dólares pelo BC no mercado à vista impactaram as reservas em US$ 6,58 bilhões. Assim, os dados mostram que os bancos voltaram a subir suas apostas na valorização do real (chamada de posição vendida), que agora chegam a US$ 13,29 bilhões.

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