Déficit externo triplica este ano

Rombo chega ao valor recorde de US$ 4,5 bi em julho e soma US$ 28,26 bi de janeiro a julho, o triplo do verificado no ano passado

Fabio Graner, Fernando Nakagawa BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2010 | 00h00

Dados divulgados ontem pelo Banco Central mostram que no mês passado a conta corrente brasileira - que registra todas as operações de bens e serviços do Brasil com o exterior - teve saldo negativo de US$ 4,5 bilhões, o pior resultado para julho desde 1947.

No acumulado do ano, o déficit ficou em US$ 28,26 bilhões (2,51% do PIB), também o pior resultado da história para o período e o triplo do verificado de janeiro a julho de 2009.

Não bastasse o elevado déficit em conta corrente, mais uma vez o fluxo de Investimento Estrangeiro Direto (IED), voltado para a produção, não foi suficiente para compensar a saída de dólares. Os ingressos de IED somaram no mês passado US$ 2,64 bilhões, equivalentes a apenas 58% do déficit na conta corrente. Para tapar o buraco, o Brasil precisou mais uma vez dos investimentos em ações e renda fixa e dos empréstimos tomados por empresas brasileiras no exterior, fenômeno que tem sido recorrente nos últimos meses.

No acumulado do ano, o saldo dos investimentos estrangeiros é positivo em US$ 14,7 bilhões, o que representou praticamente a metade do rombo da conta corrente brasileira. O fluxo de investimento estrangeiro para a produção neste ano segue bem abaixo das expectativas do BC, cuja projeção é de ingressos de US$ 38 bilhões.

Perfil. O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, disse não enxergar risco de uma crise futura no balanço de pagamentos - que inclui a conta corrente e a de capitais, por onde ingressam investimentos e empréstimos. Segundo ele, o fato de o IED não cobrir todo o saldo negativo na conta corrente não é problema, pois os empréstimos tomados são de prazo longo e com condições favoráveis, como prazo e taxas de juro.

Altamir destacou ainda que os investimentos produtivos devem ter aceleração, motivada pela exploração do pré-sal, Copa do Mundo e Olimpíada. Ele salientou que o perfil do IED é, hoje, mais voltado para setores que têm forte potencial de vendas no exterior e poderão melhorar a conta corrente.

Para o economista do BES Investimento Flavio Serrano os números das contas externas mostram que realmente há uma mudança de perfil, com o IED insuficiente para cobrir o déficit em conta corrente. Segundo ele, a dependência de outras fontes de financiamento adiciona volatilidade à taxa de câmbio, já que dólares de investimentos em ações e renda fixa podem sair a qualquer momento e o mercado externo de crédito pode secar em uma eventual crise.

Mas ele não vê risco de crise de balanço de pagamentos, como no passado, já que o perfil da conta corrente é mais relacionado ao nível de atividade econômica do País. Segundo ele, o crescente saldo negativo em conta corrente deve levar no médio prazo a uma desvalorização do real.

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