Déficit gigante é financiado por capital chinês

WASHINGTON

Denise Chrispim Marin CORRESPONDENTE WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Nas contas internas americanas, o déficit fiscal de US$ 13,3 trilhões tem na China o seu principal financiador. Até junho passado, Pequim detinha US$ 843,7 bilhões em papéis de longo prazo do Tesouro americano. Na outra mão, a China acumulou um volume extraordinário de reservas internacionais, algo como US$ 2,3 trilhões em setembro de 2009, com alta composição de divisas e bônus dos EUA.

"O aumento do volume de dólares nas reservas chinesas, consequência de uma política deliberada do governo da China, é uma fonte contínua de tensão entre os dois países", afirma o relatório da Comissão EUA-China de Revisão da Economia e da Segurança.

Ambos os lados tiraram proveito dessas três vertentes - comércio, investimento direto, financiamento de dívida interna. Ambos igualmente se estranharam por conta delas. Em especial, em razão da taxa de câmbio. De 2005, quando Pequim adotou o modelo de "flutuação administrada" do câmbio em relação a uma cesta de moedas, até meados de 2009, a moeda chinesa acumulava desvalorização de 21% ante o dólar americano.

O câmbio desvalorizado favoreceu as exportações da China para os EUA e o resto do mundo, bem como inibiu o movimento contrário. Também tornou mais expressivo o capital americano aportado na produção chinesa e manteve o valor relativo das reservas internacionais do país. Mas igualmente elevou as preocupações de Pequim com a debilitada saúde da economia americana.

Por sua vez, Washington escolheu esse caminho de dependência da China. Encontrou em Pequim um bom comprador de títulos americanos, sempre de baixa remuneração, para financiar especialmente suas guerras no Iraque e no Afeganistão. A importação brutal de produtos chineses impediu a elevação da inflação em um país cujo consumo explodia até setembro de 2008. O investimento produtivo na China rendeu também remessas de lucro e maior competitividade para empresas americanas.

Segundo Lampton, uma nova frente surgiu nos últimos anos para aprofundar ainda mais a conexão econômica entre os dois países - o investimento produtivo da China nos EUA. Em 2005, a petroleira chinesa CNOOP investiu na compra da Unocal, corporação americana do setor. Mas, a operação foi proibida pelo Congresso americano por questão de segurança nacional. Três anos depois, pela mesma razão, foi abortada uma participação minoritária chinesa em uma empresa de telecomunicações dos EUA.

Em 2008, a China havia investido no setor produtivo americano US$ 1,2 bilhão, segundo a Câmara Americana de Comércio, em Xangai. Os recursos foram alocados especialmente na exploração de recursos naturais. Mas, há potencial enorme de se estenderem para os setores caros aos EUA, como os de computação e automotivo.

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