Déficit na indústria de transformação já é de US$ 35,3 bi

Pior saldo para o período de janeiro a setembro em 22 anos é puxado por produtos de setores dinâmicos como carros e químicos

Marcelo Rehder, de O Estado de S. Paulo,

23 de outubro de 2011 | 21h18

O déficit comercial dos bens típicos da indústria de transformação brasileira deu um salto de 37,1% este ano. O rombo passou de US$ 25,7 bilhões, no acumulado de janeiro a setembro de 2010, para US$ 35,3 bilhões, agora. É o pior resultado para o período na série histórica acompanhada pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), que começou em 1989.

O saldo negativo na balança comercial da indústria é puxado pela categoria de bens de média-alta tecnologia, formado por setores dinâmicos como bens de capital, automóveis e produtos químicos (exceto farmacêuticos), cujo déficit atingiu o recorde de R$ 38,3 bilhões. O número representa alta de 36,1% em relação ao resultado negativo dos três trimestres iniciais de 2010, de US$ 28,145 bilhões.

"Nossas exportações não estão brilhantes, mas crescem, só que as importações estão vindo rachando", diz Júlio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e atualmente economista do Iedi.

Como os mercados consumidores lá fora estão muito estreitos, por causa do agravamento da crise mundial, e o Brasil é um dos únicos países com consumo doméstico em crescimento, o economista diz ser natural que haja uma disputa pelo mercado brasileiro.

Tanto é que a importação de bens típicos da indústria de transformação cresceu 25,5%, para R$ 145,033 bilhões, enquanto as exportações do País nessa área tiveram aumento menor, de 22%, para US$ 109,712 bilhões.

"Nós estamos perdendo dos dois lados", diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto. Em 2005, 40% das máquinas compradas no Brasil eram importadas. Hoje, esse número já está em 61%. No mesmo período, a participação das exportações no faturamento do setor caiu de 33,3% para menos de 22%.

"Não há ganho de produtividade que faça a gente reagir enquanto perdurar o atual tripé do mal, formado por câmbio, tributos e juros, que vem matando a indústria brasileira", reclama o empresário.

A diretora de comércio exterior da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Denise Naranjo, nota que o aumento do déficit no setor é mais significativo em grupos de produtos com produção nacional. "Apesar do aumento nas exportações, o déficit comercial de produtos químicos não para de crescer", diz Denise.

O resultado é que a indústria de transformação mantém a produção praticamente estagnada já há vários meses. Entre janeiro de 2009 e agosto de 2011, a produção cresceu só 3,6%, enquanto o comércio varejista deu um salto de 15,6%. Acredita-se que a diferença entre demanda e produção esteja sendo abastecida pelos produtos importados.

Mantida a tendência atual, o déficit comercial dos produtos típicos da indústria de transformação caminha para fechar 2011 em US$ 48 bilhões, segundo o Iedi. O número representa crescimento de quase 40% em relação ao resultado negativo de US$ 34,8 bilhões do ano passado.

O levantamento do Iedi segue tipologia da indústria de transformação por intensidade tecnológica adotada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que permite esmiuçar de modo diferente a balança comercial dos produtos típicos dessa atividade. Segundo essa classificação, há quatro faixas: de alta intensidade, de média-alta, média-baixa e de baixa intensidade tecnológica.

A faixa de baixa intensidade tecnológica foi a única que não apresentou déficit comercial no período. Na contramão das demais, teve um superávit recorde para o período, de US$ 31,8 bilhões, puxado por exportações de US$ 45,2 bilhões. O que mais contribuiu para esse resultado favorável foram os bens das indústrias de alimento e bebidas, com superávit de U$ 28,6 bilhões e exportações de US$ 33,7 bilhões.

Já os segmentos de alta intensidade e de média-baixa intensidade tecnológica ficaram deficitários em US$ 32,2 bilhões e US$ 5,6 bilhões, pela ordem.

No caso dos bens de alta intensidade tecnológica, as exportações pouco têm reagido e ficaram limitadas a apenas US$ 6,7 bilhões. Além do conjunto de bens do complexo eletrônico e dos produtos farmacêuticos, historicamente deficitários, o intercâmbio de aeronaves e afins também ficou negativo.

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