Déficit nas contas externas dobra em cinco meses e chega a US$ 39 bi

BC já projeta para este ano um saldo negativo de US$ 75 bi na conta corrente, principalmente por causa da balança comercial

CÉLIA FROUFE, EDUARDO CUCOLO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2013 | 02h11

O déficit em conta corrente dobrou de tamanho nos primeiros cinco meses deste ano e o Banco Central já espera que 2013 termine com um rombo recorde de US$ 75 bilhões. A projeção do governo é mais pessimista até do que a de analistas do mercado financeiro, de pouco mais de US$ 73 bilhões, segundo a última pesquisa Focus feita pelo próprio BC.

A revisão do número informada ontem veio a reboque de mais um resultado negativo das transações correntes. Em maio, o saldo ficou no vermelho em US$ 6,4 bilhões. Com isso, o valor acumulado nos cinco primeiros meses do ano já está deficitário em US$ 39,6 bilhões. O valor é praticamente o dobro do visto no mesmo período do ano passado, quando o rombo estava em US$ 20,9 bilhões.

Se as projeções do BC forem confirmadas, o resultado anual será o pior desde 1947, quando a autarquia começou a divulgar essas informações. Esse saldo negativo de US$ 75 bilhões representa 3,22% do Produto Interno Bruto (PIB). Desde 2001 a fatia em relação à riqueza gerada no País não era tão grande.

A preocupação de especialistas é com o aumento da velocidade da deterioração das contas externas brasileiras. Até maio, o déficit em conta corrente foi financiado com relativa tranquilidade pelo ingresso de Investimento Estrangeiro Direto (IED) e também pela entrada dos recursos captados pela Petrobrás, como lembrou o economista-chefe do Banco J. Safra, Carlos Kawall. Para ele, a partir deste mês de junho é que pode haver alguma dificuldade nesse financiamento, por conta dos adiamentos de captações externas feitas por algumas empresas.

O chefe do departamento econômico do BC, Tulio Maciel, salientou que o ingresso de IED tem se mantido em níveis favoráveis para financiar o déficit em conta corrente. Mas, com a nova projeção de rombo do BC, faltarão ainda US$ 10 bilhões para fechar essa conta. Maciel foi questionado a respeito do financiamento no ano que vem, período ainda de incertezas, segundo analistas, em relação ao fluxo de recursos mundial. O chefe do departamento disse que não comentaria o cenário para 2014 porque suas projeções se atêm apenas a este ano, mas salientou que não via motivos para o ingresso desses recursos não continuar a ocorrer no País.

Até atualizar os dados ontem, o BC acreditava que o rombo deste ano seria menor, de US$ 67 bilhões. Mas a balança comercial, que não consegue ter forças para sair do terreno negativo, foi o principal motivo da deterioração das expectativas. Até a segunda semana de junho, o saldo comercial está negativo em US$ 5 bilhões. A perspectiva do BC é a de que esse jogo vire e que as exportações superem as importações em US$ 7 bilhões. A questão é que, até então, a perspectiva era de um saldo positivo de US$ 15 bilhões.

Viagens. O Banco Central salientou também que o comércio exterior respondeu por 60% do aumento no déficit externo visto desde o início do ano. Também contribuíram para a elevação o envio maior de remessas de lucros e dividendos pelas empresas para suas matrizes e os gastos de brasileiros com viagens internacionais.

No mês passado, as despesas com viagens para fora do País, já descontada a quantia de dinheiro que turistas estrangeiros deixaram no Brasil, foi de US$ 1,7 bilhão. A cifra é recorde para meses de maio. A conta também registra a maior marca no acumulado do ano e dos 12 meses anteriores.

Ou seja, os brasileiros nunca gastaram tanto no exterior. A expectativa do BC é a de que, com a alta recente do dólar, diminua o ritmo desse tipo de dispêndio até o final do ano. / COLABOROU FRANCISCO CARLOS DE ASSIS

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