Déficit nas contas externas é de US$ 24 bi

Rombo no primeiro semestre já é praticamente igual ao do ano todo de 2009; Banco Central espera compensá-lo com entrada de investimentos

Fernando Nakagawa, Fabio Graner BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2010 | 00h00

A crescente remessa de lucros feita por multinacionais e a compra de produtos e serviços internacionais aceleraram a saída de dólares do Brasil em junho por meio da conta corrente do País, que registra todas as operações de comércio exterior, serviços e rendas do Brasil com o exterior.

O saldo negativo do primeiro semestre, de US$ 23,76 bilhões, é comparável ao déficit de todo o ano de 2009, que somou US$ 24,302 bilhões, e equivale a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB). No mês passado, pelos dados divulgados ontem pelo Banco Central, o saldo da entrada e saída de recursos nessa conta ficou negativo em US$ 5,18 bilhões, o pior junho da série iniciada em 1947.

Tentando não mostrar preocupação com a deterioração, o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, sustenta que o rombo será financiado com dólares que entram no País para investimento produtivo e no mercado financeiro. No semestre, de fato, a conta fechou. Em junho, porém, a soma do Investimento Estrangeiro Direto (IED) - voltado à produção - e das aplicações financeiras (ações e renda fixa) cobriu apenas 71% do déficit. Por isso, Altamir fez uma inflexão no discurso e admitiu o uso de uma terceira fonte para fechar a conta: o aumento da dívida externa.

A incerteza econômica nos países desenvolvidos foi decisiva na nova piora das contas externas. No mês passado, empresas estrangeiras instaladas no Brasil remeteram US$ 4,15 bilhões às sedes como lucros e dividendos, o maior valor para junho da história. O resultado do mês equivale a um terço das transferências do semestre, que somaram US$ 14,96 bilhões e foram concentrados em três setores: automotivo, químico e eletricidade e gás.

"As filiais mandam dólares para cobrir prejuízos das sedes ou até para se precaver de uma situação que ainda pode piorar", disse a professora de economia da Unicamp Daniela Prates.

Em outra frente, os dólares têm saído em ritmo cada vez mais rápido para pagar serviços relacionados ao nível de atividade econômica acelerado. A despesa total com a contratação de aluguel de equipamentos, informática e transportes cresceu 42% em junho ante igual mês de 2009 e saltou 71% no semestre. Em seis meses, o Brasil usou US$ 13,86 bilhões para pagar essas contas. Em tendência semelhante, a importação de mercadorias cresceu 45,1% no semestre.

Para o professor de economia da PUC-SP Antônio Corrêa de Lacerda, o câmbio valorizado é importante para explicar a piora da conta corrente, mais até do que o nível de atividade elevado. "Hoje, há um processo de substituição da produção nacional por importados."

A fragilidade das contas externas em junho foi acentuada porque a principal fonte de ingresso de dólares, o IED, secou. No mês passado entraram por essa conta US$ 708 milhões, metade do que entrou em junho de 2009.

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