Déficit público da Argentina subiu 291%

Rombo vem de subsídios a empresas privadas de energia e transporte e também da folha de pagamento estatal, 27% maior desde a posse de Cristina

ARIEL PALACIOS, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2014 | 02h04

BUENOS AIRES - Nos últimos dias, na city portenha, os economistas têm assobiado com ironia o primeiro verso de um canção argentina dos tempos da Grande Depressão - "Donde hay um mango, viejo Gómez?" (Onde há grana, velho Goméz?) - para se referir ao crescimento do déficit fiscal do governo da presidente Cristina Kirchner. Segundo os dados do Ministério da Economia, o déficit financeiro em junho foi 290,8% maior do que o registrado no mesmo mês de 2013, chegando a 16.676 bilhões de pesos (US$ 2 bilhões).

O governo Kirchner registrou um aumento do déficit apesar dos fundos de 23,84 bilhões de pesos (US$ 2,99 bilhões) que recebeu do Banco Central e do sistema previdenciário que, desde que foi totalmente reestatizado em 2008, teve a função de cobrir os descalabros financeiros da Casa Rosada.

"A gasto-mania faz parte do DNA do populismo kirchnerista", dispara o economista Luis Secco ao analisar a acelerada deterioração das contas públicas argentinas. Segundo o Ministério da Economia, o gasto público cresceu 56,5% em junho em comparação com o mesmo mês do ano passado.

Entre os gastos estão os subsídios a empresas privadas da área energética e de transportes públicos, que recebem ajuda do Estado argentino para evitar impopulares aumentos de tarifas que poderiam elevar a irritação do eleitorado. Esses subsídios tiveram um aumento de 100,8% entre junho deste ano e o mesmo mês de 2013. Os subsídios também incluem a deficitária companhia aérea Aerolíneas Argentinas, que a presidente Cristina exibe como símbolo da "soberania nacional".

Os números oficiais acumulados do primeiro semestre indicam que o superávit primário diminuiu de 4,7 bilhões de pesos (US$ 566 milhões) para 2,2 bilhões de pesos (US$ 265 milhões). Enquanto isso, nos primeiros seis meses deste ano, o déficit financeiro aumentou de 14 bilhões de pesos (US$ 1,68 bilhão) para 37 bilhões de pesos (US$ 4,45 bilhões), volume que duplica o total registrado no primeiro semestre de 2013.

No entanto, os economistas sustentam que sem a ajuda artificial do BC e da Previdência, o déficit financeiro acumulado no primeiro semestre de 2014 seria de 89 bilhões (US$ 10,72 bilhões). As perspectivas dos economistas para 2014 é que o déficit fiscal será de 240 bilhões de pesos (US$ 28,91 bilhões).

Cenário. Há poucos meses, existia a expectativa de conseguir dinheiro no exterior e financiar o déficit fiscal, já que o país - depois de 13 anos como pária dos mercados globais desde o calote de 2001 - havia pagado suas dívidas com o Clube de Paris. Além disso, indenizou a petrolífera espanhola Repsol pela expropriação de sua ex-subsidiária local, a YPF.

No entanto, a entrada da Argentina em calote parcial com os credores reestruturados que têm títulos com jurisdição nos EUA no dia 30 de julho colocou à pique as perspectivas de voltar ao mercado de créditos.

Os gastos do governo Kirchner também são provocados pelo crescimento da folha de pagamento da estrutura estatal, cada vez maior. Desde que Cristina tomou posse em 2007, a administração federal contratou 80.994 novos funcionários públicos, o equivalente a um aumento de 27% do funcionalismo. Há sete anos, a estrutura estatal federal tinha 295.151 funcionários, atualmente são 376.145, segundo dados da Associação de Funcionários de Organismos de Controle (Apoc).

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